Buscar
Nota

Resex Jaci-Paraná: Gigante da carne condenada em R$ 24 mi por usar reserva para criar gado

17 de novembro de 2025
14:00
Não deixe a Publica sumir
Nos adicione como fonte preferencial no Google.

Uma sentença do Tribunal de Justiça de Rondônia (TJ-RO) materializou em cifras a destruição de uma parte da Amazônia. O Frigorífico Irmãos Gonçalves Comércio e Indústria Ltda, um dos gigantes da carne no estado, ligado a família do vice-governador de Rondônia, Sérgio Gonçalves, foi condenado, no dia 13 de novembro, junto com dois pecuaristas, Ailson Lutequim Brum e Lindiomar Rangel da Silva, a pagar mais de R$ 24 milhões por danos ambientais. O palco do crime foi um total de 570 hectares de floresta nativa postos abaixo dentro da Reserva Extrativista (Resex) Jaci-Paraná, a mais devastada na Amazônia: uma área maior do que três complexos do Maracanã somados.

A criação de gado de grande porte na Resex é proibida por lei, já que a unidade de 197 mil hectares foi criada para servir ao sustento e uso sustentável de populações e extrativistas tradicionais. A Ação Civil Pública, movida pelo Estado de Rondônia, desenhou o percurso do dano. Imagens de satélite e laudos da Secretaria de Estado do Desenvolvimento Ambiental (SEDAM) registraram o corte raso da vegetação, uma técnica que varre a vida do solo para dar lugar ao pasto. 

Guias de Trânsito Animal (GTAs) conectaram o gado criado ilegalmente na Resex Jaci-Paraná ao frigorífico. Ailson e Lindiomar figuravam como os donos dos animais nos registros oficiais da Agência de Defesa Sanitária Agrosilvopastoril (IDARON). O Frigorífico Irmãos Gonçalves, na ponta final da cadeia, comprava e abatia o gado e comercializava a carne.

A decisão judicial foi taxativa: determinou a desocupação imediata da área, a demolição de estruturas ilegais e a retirada dos animais. Impôs ao frigorífico a responsabilidade de não mais adquirir gado da reserva. A indenização milionária foi fatiada: R$ 6,18 milhões por danos diretos; R$ 12,64 milhões por danos intercorrentes – a perda dos serviços que a floresta presta enquanto não se recupera –; R$ 3,99 milhões por dano moral coletivo e R$ 1,12 milhão pela madeira extraída ilegalmente. Como sanção adicional, suspendeu incentivos fiscais e o acesso a crédito público para os réus até a reparação completa do dano.

O frigorífico publicou nota oficial alegando nunca ter criado gado, possuído terras ou desenvolvido atividades na Resex. Argumentou que apenas adquiriu animais de terceiros, amparado por documentação emitida pelos próprios órgãos estaduais. “Nenhuma compra é realizada sem que o Estado confirme e autorize a regularidade da origem dos bovinos”, diz o texto. A empresa se posiciona como vítima de uma falha de fiscalização estatal e de uma “interpretação jurídica sobre responsabilidade”.

Os pecuaristas tentaram anular as provas e questionaram a legalidade da criação da própria reserva. A Justiça rejeitou os argumentos. A sentença firmou-se na tese da responsabilidade objetiva e propter rem, que atribui o dever de reparação a quem tem a posse ou explora economicamente a terra, independentemente de ser o proprietário formal. E foi além, ao aplicar a figura do poluidor indireto. 

Para o juiz, ao comprar o gado, o frigorífico “incentivou a degradação ambiental” e citou entendimento do Superior Tribunal de Justiça (STJ) que considera que “para o fim de apuração do nexo de causalidade no dano ambiental, equiparam-se quem faz, quem não faz quando deveria fazer, quem deixa fazer, quem não se importa que façam, quem financia para que façam, e quem se beneficia quando outros fazem”.

Legislativo trabalha para legalizar ocupações hoje ilegais e livrar empresas

A disputa pela Resex Jaci-Paraná, no entanto, continua em várias frentes. A Procuradoria Geral do Estado de Rondônia também move ações que somam dezenas de milhões em pedidos de indenização contra outros gigantes do setor, como a JBS, Tangará e Distriboi, pelo mesmo motivo: compra de gado de áreas invadidas e desmatadas ilegalmente na unidade de conservação. Laudos anexados a esses processos estimam o dano em mais de R$ 5 bilhões.

Mas enquanto o Judiciário tenta impor um custo à destruição, o poder político rema na direção oposta. Tramita na Assembleia Legislativa de Rondônia a Lei Complementar nº 1.274/2025, que anistia os criadores de gado que ocupam ilegalmente a reserva e os frigoríficos que compraram sua produção. A proposta prevê a extinção de multas e ações judiciais, além de conceder uma autorização de uso da terra por 30 anos, por isso foi apelidada de “lei da anistia”. 

O benefício a invasores de unidades de conservação foi tema de reportagem da agência AP, republicada no jornal norte-americano The Washington Post, que classificou a lei como uma das grandes ameaças à Amazônia. A publicação cita reportagem feita em parceria com a Agência Pública em 2023.

Edição:

Notas mais recentes

Morta por PMs, juíza Patrícia Acioli “humilhava policiais”, disse Flávio Bolsonaro em 2011


iFood passa R$ 3 milhões para pesquisa científica após acordo para encerrar inquéritos


Últimas pesquisas e fim da propaganda eleitoral marcam semana antes do primeiro turno


Paulo Gonet segue no caso Master após decisão do Conselho do Ministério Público Federal


Nossa Senhora Aparecida: boato sobre padroeira domina redes e chega ao TSE


Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Assine nossas newsletters
Fique por dentro

Artigos mais recentes

Quase mil anúncios sobre Lula e Flávio na Meta foram pagos em dólar

|

Impulsionados por US$120 mil, conteúdos circularam sem rótulo de conteúdo político

Processos sobre desinformação e propaganda digital triplicam nas eleições de 2026

|

Até agora são mais de 9,5 mil processos na Justiça Eleitoral no 1º turno, contra 3,4 mil durante mesmo período em 2022

A “bancada” anti-indígena que vai às urnas neste domingo

|

Levantamento mostra que 370 parlamentares fizeram propostas negativas para indígenas; 270 deles disputam reeleição
O ex-senador Eduardo Suplicy é detido em reintegração de posse próximo a Cohab Educandário

Levantamento aponta um caso de violência política a cada 37 horas durante campanha de 2026

|

Monitoramento exclusivo da Pública por 17 dias chegou a 11 casos cujos agressores são, na maioria, agentes de segurança

Dos clubes de tiro ao poder: segmento de armas injeta mais de R$ 1,2 milhão nas eleições

|

Empresários do setor doaram para 96 candidatos – PL, Republicanos e Novo lideram recebimento de recursos
Visita à Heritage Foundation de Sérgio Sant'Ana e Eduardo Bolsonaro

Empresário que fundou Instituto com Eduardo Bolsonaro presta serviço para campanhas

|

Empresa de Sérgio Sant’Anna recebeu R$340 mil; empresário diz que ICL está “inativo” e que se afastou do ex-deputado
O senador Flávio Bolsonaro, durante sessão da Comissão de Desenvolvimento Regional do Senado

Flávio Bolsonaro, os hospitais federais e a pandemia de Covid no Rio de Janeiro

|

Contratos superfaturados, demissões e hospitais sucateados: como Flávio influenciou a saúde do Rio no governo do pai
Ex-jogador da seleção brasileira de basquete dos anos 1980 Nilo Guimarães. Ele foi secretário de esportes de Mogi da Cruzes, na região metropolitana de São Paulo, por 12 anos (2009-2020).

Empresa de ex-secretário de Esportes de Mogi recebeu dinheiro de emenda Pix de Mario Frias

|

Sócio de Nilo Guimarães na Pulsa Uniformes diz que material foi entregue, mas não envia comprovação

A execução de Davi Sebba e a teia de policiais que Goiás levou 14 anos para julgar

|

Letalidade policial quase triplicou em 2012, ano do crime; governador era Marconi Perillo, candidato ao cargo em 2026

Investigação e processos criminais: o rastro legal dos deputados da Comissão de Segurança

|

CSPCCO: 12 deputados ligados a forças de segurança foram parte em procedimentos criminais, que vão de calúnia a agressão
Rio de Janeiro (RJ), 08/03/2023 - Ato denúncia em frente à Câmara Municipal, organizado pelo campanha Levante Feminista contra o Feminicídio

Na Amazônia Legal, 9 em cada 10 vítimas de feminicídio em 2025 não tinham medida protetiva

|

Levantamento em oito estados mostra que mulheres morrem desprotegidas; recurso jurídico é alternativa para evitar crime