Buscar
Coluna

Jornalistas relatam assédios, constrangimentos e censura na EBC

16 jornalistas, sendo 11 mulheres, contam situações humilhantes e constrangedoras no dia a dia da empresa

Coluna
19 de setembro de 2022
06:00
Este artigo tem mais de 3 anos
Não deixe a Publica sumir
Nos adicione como fonte preferencial no Google.

Assédio moral, censura, clima de medo por perseguição no trabalho, desvalorização e falta de diálogo. Dezesseis jornalistas, dos quais onze são mulheres, da empresa do governo federal EBC (Empresa Brasileira de Comunicação) entregaram declarações por escrito descrevendo situações humilhantes e constrangedoras no dia a dia da empresa a partir da chegada de Jair Bolsonaro à Presidência da República.

De um total de 35 depoimentos assinados e por escrito, entregues a uma comissão de sindicância interna da EBC – aos quais a Agência Pública teve acesso –, 15 trazem relatos do gênero. Procurada na última quarta-feira (14) para explicar esses relatos, a empresa respondeu com apenas uma frase: “A EBC não se manifestará”.

Os depoimentos dos empregados foram anexados a uma sindicância aberta pela EBC contra a jornalista Kariane Costa, contratada por meio de concurso público em 2012 e eleita em 2016 e 2021, pelos colegas da redação, representante dos empregados no Conselho de Administração da estatal.

Após receber de seus colegas inúmeras queixas com conteúdo semelhante, em 2021 Kariane fez uma comunicação à Ouvidoria da EBC para pedir que tudo fosse apurado. Porém, ela rapidamente passou de denunciante a investigada, sob a acusação de 12 gestores, justamente os mesmos sobre os quais ela pediu uma apuração. Eles pediram providências contra Kariane por supostos “ataques”. Seis deles foram à Justiça comum para fazer uma interpelação criminal contra Kariane. Em 18 de agosto último, a comissão sugeriu a demissão da jornalista. A decisão final caberá ao diretor-presidente da EBC, o publicitário Glen Lopes Valente.

“Não houve qualquer ofensa por parte da sra. Kariane, que agiu no estrito cumprimento do seu dever legal. A denúncia não era um ataque aos gestores, mas um pedido de investigação diante das inúmeras reclamações recebidas pela empregada pública”, escreveu a advogada da jornalista, Tuane Farias, do escritório Advocacia Riedel, na defesa apresentada à comissão da EBC.

Em uma reunião realizada no último dia 5 sobre o tema, o Ministério Público do Trabalho recomendou à EBC “a imediata suspensão de todos os processos administrativos disciplinares em face de empregados que tenham relatado à empresa ou ao Poder Judiciário possíveis situações de assédio moral”. Da reunião participaram representantes da EBC, da comissão dos empregados da empresa, do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Distrito Federal e do Sindicato dos Trabalhadores em Empresas de Radiodifusão e Televisão do DF.

As procuradoras do Trabalho Caroline Pereira Mercante e Andrea da Rocha Carvalho Godim querem que os processos sejam paralisados para que seja analisado se a EBC está descumprindo uma decisão tomada pelo TRT (Tribunal Regional do Trabalho) da 10ª Região. Em março passado, os juízes da Primeira Turma do TRT condenaram a EBC por assédio moral e fixaram uma multa de R$ 200 mil por “danos morais coletivos”. Também ordenaram que a EBC estabeleça canais de diálogo para receber e processar denúncias do gênero sob sigilo e sem que o denunciante sofra retaliações, entre outras medidas.

Fachada da Empresa Brasil de Comunicação.
Fachada da sede da EBC em Brasília

Comissão da EBC diz sobre sua empregada: “Assédio moral ascendente”

Na peça que protocolou na Comissão de Sindicância, a defesa de Kariane mencionou que uma outra área da própria EBC, o Setor de Correição, emitiu uma nota técnica que reconheceu: “Prevalecem indícios de irregularidades relacionados a i) possível assédio por parte de gestores da Dijor [diretoria de jornalismo]”.
Mais tarde, ao encerrar sua atividade, a comissão afirmou que não houve assédio dos gestores, mas sim o contrário: de Kariane contra eles. A comissão disse o seguinte: “Assédio moral vertical ascendente, por meio de ações indiretas realizadas pela indiciada em desfavor de seus gestores”.

A defesa de Kariane apontou que uma eventual punição da jornalista “contribuirá para a formação de um cenário de desestímulo e de temor quanto a demandas de servidores junto à Ouvidoria, ao Conselho de Ética ou à Correição, pois já não se sentirão seguros quanto à resposta institucional frente a denúncias legítimas e no âmbito adequado da institucionalidade”.

A defesa de Kariane anexou os 35 depoimentos de seus colegas para demonstrar que, ao contrário do afirmado pelos atuais gestores da empresa, ela sempre teve um bom relacionamento e era elogiada pelos colegas, incluindo ex-chefes em cargos de edição e de coordenação de repórteres. Ao escrever sobre Kariane, muitos dos jornalistas, que serão aqui identificados por números para que suas identidades sejam preservadas do público, também apresentaram detalhes sobre um ambiente sufocante na EBC.

A jornalista Um disse que procurou Kariane em setembro de 2021 para que o seu caso fosse denunciado à administração da EBC. Ela é concursada na EBC há mais de 14 anos e desde então exerceu cargos diversos, como repórter especial, chefe de pauta e de reportagem. Em 2020 e 2021, frequentou um curso de mestrado em documentário num país de esquerda. Em julho de 2021, foi eleita representante da Comissão de Empregados da EBC. Dois meses depois, foi transferida de setor “de forma arbitrária”, sem consulta, “sem qualquer conversa ou diálogo”.

“As transferências arbitrárias e que não levam em consideração as aptidões do empregado têm se tornado costumeiras na EBC. As perseguições a empregados que questionam a gestão atual ou que ocupam cargos de liderança, seja ela sindical ou não, também se intensificaram”, disse a jornalista. Ela conseguiu uma promessa de vaga em outro setor, mas sua transferência foi vetada. Para ocupar essa vaga foi depois contratada uma pessoa de fora da empresa.

“Infelizmente a prática de assédio e perseguições se tornaram corriqueiras na EBC. Empresa que mesmo tendo uma decisão desfavorável na justiça quanto ao tema, continua optando por essa forma de gestão”, escreveu a jornalista.

Jornalistas tratados como “subversivos”

A jornalista Dois, que atua na área de radiojornalismo, contou que sofria problemas desde, pelo menos 2015, no final do governo Dilma Rousseff (“tinha meu texto mudado durante a edição com informações diferentes do que eu havia apurado”), mas a situação piorou a partir de 2017, já no governo Michel Temer, quando foi diagnosticada com um problema de saúde durante a gravidez. Mesmo com a necessidade de restrições apontadas por médicos, ela era pautada para assuntos de rua (“ouvia com frequência que gravidez não era doença e que outros colegas trabalharam até o último dia de gestação desempenhando as funções de repórter”).

Em 2019, quando estava grávida pela terceira vez, já no governo Bolsonaro, ela passou “por situações semelhantes em relação às cobranças para render”. Ela e seus colegas “começamos a nos deparar com orientações para não divulgar certos dados e passamos a dar assuntos de muita relevância por meio de notas nos jornais, notas (quando assunto não é tratado com a devida importância)”.

Certa feita, disse Dois, “eu me neguei a gravar uma reportagem censurada”. O texto falava sobre o aumento do desmatamento na Amazônia. “A régua no radiojornalismo para se dar um assunto passou a ser o que agradaria ou não a Presidência da República. Sofríamos pressões veladas sobre [para] termos cuidado com os textos para que não fechassem a EBC – o principal discurso para justificar a censura no setor.”

Corredor de sede em brasília da EBC.
16 jornalistas da EBC denunciaram assédio moral, censura e clima de medo por perseguição no trabalho

“Por outro lado, em pauta assuntos cada vez mais governistas e que claramente deveriam ser tratados no braço institucional da empresa. Os colegas que eram mais incisivos com a questão de se manter a missão da comunicação pública e de pautar assuntos que eram relevantes e que foram deixados de lado, eram tratados como subversivos.”

A jornalista contou ainda que viu “colegas sendo retirados de coberturas que faziam com frequência”. Foi o caso da própria Kariane, “retirada do Palácio do Planalto, com a justificativa de que haveria um rodízio de repórteres, o que nunca ocorreu”. “Desde que o atual governo assumiu, a cobertura ficou cada vez mais sensível e pontos de tensão eram sempre retirados.”

A jornalista Três, que trabalha há mais de sete anos na EBC, escreveu que “a situação de assédio e censura no radiojornalismo é geral, ocorrendo em todas as praças [cidades onde a EBC tem representação]”.

“O histórico de censura no jornalismo da EBC — e também no radiojornalismo — é amplo. Eu particularmente tive diversos embates com a chefia por conta disso no período da pandemia. Tudo que de alguma forma fosse sensível ao governo era vetado, gerando grande desgaste. Importante registrar que nesse período estava grávida.”

Quando voltou da licença maternidade, a jornalista descobriu que fora transferida da reportagem para a produção. “Preferiram me colocar na geladeira a me manter na reportagem, onde diariamente travava embates contra as tentativas de censura vigentes. […] Ninguém foi deslocado para a função quando eu a deixei, o que evidencia a perseguição de que fui vítima. O que estava em jogo era me tirar da reportagem porque eu batia de frente com a censura constantemente”, disse Três.

O jornalista número Quatro contou que também já foi eleito representante dos empregados no Conselho da Administração, mas nunca sofreu perseguição como a vivida por Kariane. Ele disse que “inúmeras vezes levou ao conhecimento da EBC denúncias sobre assédio de 2015 a 2020”.

A jornalista Cinco disse que o afastamento de Kariane da cobertura do Congresso Nacional foi “um dos primeiros e sucessivos atos que pude presenciar de um longo processo de cerceamento do dever e do direito que a Kariane tinha de informar. Já são quase 4 anos em que o cerceamento — a censura — está no cotidiano da EBC.”

“Assim com a Kariane, eu também vivi essa rotina e guardo inúmeros casos em que meu trabalho foi censurado porque os fatos desagradavam a linha ideológica dos gestores. Violência policial, combate à pandemia de Covid e crise econômica são alguns dos assuntos que viraram tabu nesse período”, disse Cinco.

Ela descobriu por acaso, numa troca de mensagens em um grupo de Whatsapp, que seu nome estava “interditado para a cobertura de pautas consideradas delicadas”. “Eu já tinha ouvido falar dessa interdição pelos corredores da empresa, mas isso ficou explícito e documentado.”

Jornalista foi perseguido após “pergunta incômoda” ao Ministério da Saúde

Vários depoimentos citam o caso do jornalista Gésio Passos, que de uma hora para outra “passou a cobrir temas absolutamente irrelevantes”. Isso ocorreu, segundo vários depoimentos, depois que ele “questionou o Ministério da Saúde sobre a qualificação em saúde dos militares que estavam assumindo funções na pasta”, conforme explicou a jornalista Cinco.

O jornalista Seis disse que Gésio “só recebia pautas de pouca importância, irrelevantes, de temas que, no máximo, deveriam ser feitos por um estagiário”. Segundo o jornalista, tudo reflexo de uma “pergunta incômoda” que Gésio “fez à equipe do ministro Pazuello” no Ministério da Saúde. O jornalista Sete disse que as redes sociais dos jornalistas eram “vigiadas”, pois ouviu de uma chefe que Gésio não poderia trabalhar na cobertura sobre o Palácio do Planalto “porque ele fazia postagens de oposição ao atual governo”.

Seis, que também era dirigente sindical, disse que “se recusou a gravar uma matéria censurada” com base “no Manual do Jornalismo da EBC, no Código de Ética da EBC e no Código de Ética dos jornalistas brasileiros”. A partir daí, teve aberto contra si um “termo de ajustamento de conduta” que, na prática, “me impediria de me manifestar contra censura até mesmo durante o processo eleitoral deste ano”.

O jornalista disse que as reuniões de pauta acabaram “após os repórteres questionarem a ausência de reportagens sobre o marco de 400 mil mortes causadas pelo coronavírus e sugeriram um especial sobre as 500 mil vítimas”. A pedido de duas coordenadoras, disse Seis, “o assunto foi deixado para uma outra reunião, que nunca ocorreu. A equipe entendeu a atitude como um grave caso de censura sobre um tema de interesse público. Somente com o retorno do trabalho totalmente presencial, no fim do ano passado, voltamos a ter reuniões de pauta, mas somente uma vez por semana.”

A jornalista Sete disse que “a rotina do jornalismo é tensa quando a pauta envolve o governo federal. As situações de censura variam desde a trechos cortados ou a pautas importantes que, sequer, são levadas adiante. É comum tentar negociar algum trecho importante no texto, que é simplesmente cortado sob a desculpa do ‘tamanho do texto’”.

Uma outra jornalista, que exerceu cargo de chefia, contou ter presenciado diversas vezes uma ocupante de alto cargo de direção “se referindo aos empregados como preguiçosos, terroristas, burros”.

A jornalista Sete, com 17 anos de profissão, disse que foi “uma experiência que jamais vivi antes em nenhuma outra empresa de comunicação onde trabalhei”. Em determinado momento da pandemia da Covid-19, ela questionou num grupo de trabalho do WhatsApp a ausência de uma reportagem sobre a marca dos 400 mil mortos. A partir daí, disse ter sofrido “uma série de ataques pessoais por parte das chefias presentes no grupo”.

“Havia nesse momento da EBC uma leva de transferências contra a vontade dos empregados de vários setores e também retaliações dos mais diversos tipos. Muitos destes colegas eram […] diretores do sindicato dos jornalistas. Também nos outros casos, as pessoas transferidas também questionavam o conteúdo editorial de alguma maneira e ou estavam em regime de teletrabalho por decisão judicial.”

Em algum momento, conforme contaram os jornalistas, uma das ocupantes de cargo de chefia soube que colegas estavam dizendo que ela exercia assédio moral sobre os seus subordinados. A partir daí, ela “ficou ligando para todos os repórteres e perguntando se ela estava assediando a gente, claramente fazendo pressão. Me senti muito constrangido”, disse um jornalista.

As transferências abruptas, disse outro jornalista, ocorriam “à revelia em outros setores da empresa, o que criou um clima de ‘caça às bruxas’ entre os colegas”.

“Os desentendimentos eram motivados, na maioria das vezes, pela negativa das chefias em se pautar um repórter com determinado tema, dando prioridade a assuntos frios (que não aconteceram no dia) ou a efemérides.”

*Colaborou Bruno Fonseca

Arquivo Agência Brasil
Arquivo Agência Brasil

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Se você chegou até aqui é porque realmente valoriza nosso jornalismo. Conheça e apoie o Programa dos Aliados, onde se reúnem os leitores mais fiéis da Pública, fundamentais para a gente continuar existindo e fazendo o jornalismo valente que você conhece. Se preferir, envie um pix de qualquer valor para contato@apublica.org.

Vale a pena ouvir

EP 230 O que é o Partido Digital Bolsonarista? – com Marcos Nobre

Professor e pesquisador, Marcos Nobre, fala sobre as mudanças estruturais na forma de fazer política no Brasil

0:00

Aviso

Este é um conteúdo exclusivo da Agência Pública e não pode ser republicado.

Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Newsletter

Saiba de tudo que investigamos

Assinar
Fique por dentro

Receba conteúdos exclusivos da Pública de graça no seu email.

Assinar

Artigos mais recentes

Eleitores gerados por IA fazem campanha no TikTok e põem em xeque regra do TSE

|

Vídeos criados com IA em que eleitores declaram seus votos para presidente têm 7,4 milhões de views no TikTok

O método: como a extrema-direita ataca professores para engajar eleitores

|

Gravações clandestinas e ataques online evidenciam como docentes são explorados politicamente desde 2022

Investigados por desinformação e tentativa de golpe seguem ativos nas redes em 2026

|

Ao menos dez alvos de inquéritos no STF e TSE em eleições passadas continuam publicando sobre o pleito deste ano

Tingir o chão de sangue: propostas de Renan Santos para segurança vão contra Constituição

|

Candidato do MBL defende prisão, mortes e vingança em discurso emocional contra a violência

Partido da farda: número de candidatos policiais ou militares passa de 1,2 mil

|

Bancada de policiais no Legislativo direciona recursos para a Polícia Militar, enquanto resolução de crimes segue baixa

Quase quatro a cada dez indígenas em terras na Amazônia não têm acesso adequado a água

|

Ao todo, 38% não tem água tratada ou fontes como poços e nascentes, dependendo de rios e lagos, muitos contaminados

Sob Lula, assassinatos de indígenas sobem 22% em 2025 e superam média da era Bolsonaro

|

Após queda em 2023, número de mortos volta a subir e chega a 258; Marco Temporal é parte do problema, diz Cimi

Corrida por Data Centers gera denúncias de violações trabalhistas em São Paulo

|

Trabalhadores relatam assédio, acidentes e adoecimento. Empresas alegam cumprir lei trabalhista e normas de segurança

Fazer falar os ossos: a rotina de quem procura os desaparecidos da ditadura

|

Mostra no Centro MariAntonia (USP), em São Paulo, expõe o trabalho de peritos na identificação dos mortos na ditadura

“Onde tem malária, tem garimpo”: cinta larga aguardam decisão do STF sobre mineração

|

Julgamento nesta quinta-feira, 13, pode abrir caminho para mineração em terras indígenas entre Rondônia e Mato Grosso