Buscar
Reportagem

Funcionários denunciam prefeitos por assédio eleitoral pró-Bolsonaro

Ao menos 13 casos de prefeituras e prefeitos foram relatados ao MPT; dez geraram processos

Reportagem
10 de novembro de 2022
16:07
Este artigo tem mais de 3 anos

Nos adicione como fonte preferencial no Google.

Na imagem ao centro, o prefeito Gilberto Gonçalves (PP), de Rio Largo. Gilberto Gonçalves é um homem branco com cabelos e olhos pretos e bigode, ele usa chapéu e fala ao microfone. Ao redor de Gilberto estão apoiadores do então candidato à presidência Jair Bolsonaro.
Prefeito de Rio Largo discursa em meio a apoiadores de Bolsonaro - Reprodução Instagram

Um prefeito acusado de convocar servidores para passeatas pró-Bolsonaro. Outro, de pedir votos de funcionários da prefeitura para o presidente derrotado nas eleições. E um terceiro foi notificado por coagir os servidores do município a doarem para a campanha de Bolsonaro. Essas são algumas das denúncias recebidas pelo Ministério Público do Trabalho (MPT) de assédio eleitoral nas eleições deste ano.

Os prefeitos são Gilberto Gonçalves (PP), de Rio Largo (AL); Nicolas Teixeira (PP), de Campo Alegre (AL); e Cláudio Antônio de Souza (MDB), de Congonhas (MG).

Segundo levantamento da Agência Pública, ao menos 13 prefeitos e prefeituras foram denunciados neste ano ao MPT por assédio eleitoral. A reportagem encontrou 10 ações e Termos de Ajustamento de Conduta (TAC) decorrentes dessas denúncias. 

No dia 29 de outubro, Gilberto Gonçalves (PP) e o município de Rio Largo – do qual é prefeito –, passaram a responder a uma Ação Civil Pública ajuizada pelo MPT de Alagoas por denúncias de assédio eleitoral contra servidores públicos. Ele é acusado de realizar reunião nas escolas para convocar servidores e contratados para participarem de passeatas e coagi-los a votarem em Jair Bolsonaro e Rodrigo Cunha (União Brasil), candidato derrotado ao governo do estado. Segundo as denúncias, os funcionários “perderiam o emprego, caso não fossem a passeata”. Os relatos foram colhidos pelo Sindicato dos Trabalhadores da Educação da Regional de Rio Largo (SINTEAL).

A Pública recebeu o relato de um servidor, que pediu para não ser identificado, de que o prefeito teria obrigado alguns diretores de escolas e funcionários públicos de outras secretarias a adesivar seus carros e tirar fotos quando participassem do ato e divulgar nas redes sociais.  

A reportagem fez contato com a assessoria da prefeitura de Rio Largo por telefone e email. Até a publicação da matéria não se pronunciaram.

No dia 29 de outubro, centenas de pessoas ocuparam as ruas do município de Rio Largo a favor da reeleição de Bolsonaro e de Rodrigo Cunha. Entre eles, o prefeito da cidade. No perfil do Instagram de Gonçalves, há uma sequência de imagens que mostram como foi a passeata. Nelas, o prefeito aparece no meio de uma multidão de pessoas vestidas de verde a amarelo, ao lado da filha e deputada estadual Gabi Gonçalves (PP), com diversas placas do então candidato Jair Bolsonaro.

Outra postagem mostra o prefeito pedindo votos para seus candidatos: “Meus irmãos de Rio Largo, amanhã dia 30 é dia de decisão. Dia de escolher o melhor para o nosso país. (…) Eu como prefeito de Rio Largo, eu não poderia nunca deixar de estar ao lado de quem mais trabalhou e trouxe recurso para melhorar a vida da nossa população, o presidente Bolsonaro (…) Rio Largo está firme, fechado com Bolsonaro e Rodrigo Cunha”.

Jair Bolsonaro perdeu para Lula no município no segundo turno. O petista foi o candidato mais votado com 24.037 votos. Bolsonaro teve 22.173. 

Outra prefeitura de Alagoas autuada pelo MPT foi a de Campo Alegre. No dia 28 de outubro, o órgão ajuizou uma ação em que pede multa de R$ 50 mil ao município e ao prefeito Nicolas Teixeira (PP), acusados de pressionarem funcionários a votar em Jair Bolsonaro e Rodrigo Cunha. De acordo com o órgão, o processo foi instaurado a partir de cinco denúncias que acusam o município e seus atuais gestores de praticarem assédio eleitoral contra servidores.

Numa diligência realizada pelo MPT, quatro servidores escutados pelo órgão “afirmaram ter recebido orientação, por parte de superiores e da administração municipal, a votar nos candidatos indicado da preferência da gestão, sendo que, neste segundo turno, os candidatos são Rodrigo Cunha – a Governador – e Jair Bolsonaro – a presidente”, conforme relatado no documento.

Já em Minas Gerais — o estado com maior número de denúncias de assédio eleitoral — a prefeitura de Congonhas recebeu uma recomendação do MPT em 24 de outubro, notificando o município e o prefeito Cláudio Antônio de Souza (MDB) porque “estariam coagindo os servidores/empregados do Município fazer doação em dinheiro para a campanha de determinado candidato à Presidência da República”, aponta o documento. 

A mesma queixa foi feita no canal de denúncia criado pela Central Única dos Trabalhadores (CUT).

No perfil do instagram de Dinho, logo após o resultado do primeiro turno, foi publicada uma foto em que ele aparece ao lado de Jair Bolsonaro, Hamilton Mourão e o governador reeleito Romeu Zema (Novo). Na legenda, o prefeito declara apoio ao presidente. 

A prefeitura enviou uma nota à reportagem em que afirma que acatou a recomendação do MPT e que “foram tomadas as devidas providências quanto ao ato acontecido”.

Reprodução de postagem no Instagram do Prefeito Cláudio Antônio de Souza (ao centro).
Prefeito Cláudio Antônio de Souza (ao centro) apoiou Jair Bolsonaro nas eleições

O MPT em Campinas abriu uma recomendação, no dia 14 de outubro, por uma denúncia de assédio eleitoral que envolve a prefeita do município de Potirendaba (SP), Gislaine Montanari Franzotti (PTB). O órgão determinou que a gestora, em até 48h, divulgue amplamente na administração municipal o documento que explica para todos servidores os aspectos e características que configuram assédio eleitoral, para tentar inibir a prática. 

Uma denúncia encaminhada à CUT aponta que a prefeita ameaçava “com punições e até demissão todos os funcionários públicos municipais que se posicionaram contrariamente aos seus candidatos Jair Bolsonaro e Tarcísio de Freitas. Inclusive já demitiu vários de empresas terceirizadas que prestam serviços a prefeitura”.

Em 21 de setembro, Gislaine se reuniu com seu vice e mais nove vereadores da cidade para declarar apoio a Jair Bolsonaro e a Tarcísio de Freitas (Republicanos), candidato ao governo de São Paulo: “Estamos aqui reunindo toda a Câmara. É o município inteirinho fechado com Bolsonaro, com Tarcísio e com Marcos Pontes”, disse a prefeita.

Em nota enviada à Pública, a prefeitura alega que “nenhum servidor público municipal foi perseguido, coagido ou assediado durante esta gestão. Vale ressaltar que a Prefeita tem sim um posicionamento político, mas ela não concorda, não compactua e repudia qualquer tipo de ato que atente contra a liberdade de expressão de cada um.”

Nas eleições deste ano, o MPT recebeu 2564 denúncias de assédio, a maioria delas, 1952, contra empresas. Em comparação, em 2018, foram 212 casos ao todo.

Reprodução
Reprodução
Reprodução

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Assine nossas newsletters
Fique por dentro

Artigos mais recentes

Sem educação, clima ou fome: O dito e não dito na propaganda eleitoral de Flávio Bolsonaro

|

Discurso de guias que foram ao ar na TV mostra aposta em "medo" e "mulheres" e ignora temas como educação, fome e clima

Quando o patrão pede voto

|

Desde setembro, foram 24 denúncias diárias de assédio eleitoral no trabalho; 99% dos casos são apurados, diz MPT

Master: Em mensagens, Vorcaro declarou lado sem margem para dúvida: “apoiamos a direita”

|

Banqueiro preso no escândalo do Banco Master tinha entre contatos Flávio Bolsonaro e Nikolas, a quem disse ter ajudado

Clubes de tiro fazem anúncios proibidos de descontos em armas para apoiar Flávio Bolsonaro

|

Empresas não podem fazer campanha de candidatos; clubes fazem ofertas de rifles com número de urna de Bolsonaro

Meta bloqueia conteúdos políticos pró-Lula e contra Flávio acusando terrorismo e nudez

|

Ministério Público Federal abre investigação contra a empresa e X por violação à liberdade de expressão

Um jumento na filarmônica

|

Contrabaixista na Europa volta ao Recife e reencontra crianças de projeto social que o iniciou na música há 20 anos

Em foto, Eduardo Bolsonaro aparece cercado de apoiadores da extrema direita na festa de gala da Hispanic Heritage

Eduardo Bolsonaro vive noite de celebridade na festa da extrema direita nos EUA

|

Ao som de “La Bamba” e “Macarena”, festa teve clima de vitória de Flávio Bolsonaro e ingressos de R$ 15 mil a R$ 50 mil

A misoginia de diálogos de Vorcaro e CEO que expôs atrizes: “Mulher não pode fazer isso”

|

CEO da Globo demitido hoje fez comentários machistas sobre Deborah Secco e Sabrina Sato, e chamou prefeita de vaca

Líder da oposição no Senado, senador Rogério Marinho (PL-RN) durante entrevista

Chefe da campanha de Flávio Bolsonaro esteve no Senado mas não votou na 6×1

|

Rogério Marinho (PL-RN) fez uma reunião de 3h, se encontrou com aliados e saiu sem falar com a imprensa

Daniel Vorcaro, do Banco Master, e Fred Kachar, do Grupo Globo

A linha direta de Vorcaro dentro do Grupo Globo: “Quer que peça pra corrigir?”

|

Vazamento de mensagens do ex-banqueiro a Fred Kachar expôs interferências editoriais e levou à demissão do executivo

Montagem feita por IA com imagens do presidente Lula e do candidato Flávio Bolsonaro

Meta barra mais conteúdos pró-Lula e progressistas que pró-Flávio, aponta levantamento

|

Levantamento documentou mais de mil casos de restrições e banimentos nas plataformas em outubro

Plenário do Senado Federal durante sessão que votou PEC do fim da Escala 6x1

Fim da escala 6×1 é a maior mudança na jornada do trabalhador brasileiro desde 1988

|

Com 75 votos a favor e um contra nos dois turnos de votação, PEC aprovada garante dois dias de descanso a trabalhadores