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Em ano eleitoral, Marcha para Jesus é terreno político em disputa

Maior evento evangélico do país se tornou palanque para candidatos da extrema direita

Reportagem
30 de maio de 2024
10:15
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O ex-presidente Jair Bolsonaro aparece ao lado de fiéis e pastores no palco da Marcha para Jesus 2019. Eles seguram a bandeira de Israel
Isac Nóbrega/PR

Jair Bolsonaro foi o primeiro presidente do Brasil a participar de uma Marcha para Jesus, em 2019. Na ocasião, foi fotografado fazendo gesto de “arminha”, como se estivesse executando alguém que estava no chão. Em 2022, em busca da reeleição (que não veio), ele participou da marcha em Vitória, no Espírito Santo, ao lado do senador evangélico Magno Malta (PL-ES) e outros candidatos que iriam concorrer nas eleições daquele ano. Entre a multidão, era possível ver uma arma gigante e um caixão com o símbolo do Partido dos Trabalhadores (PT). Fazia poucas semanas que um petista havia sido morto por um bolsonarista após uma discussão política.

Para pesquisadores que estudam o desenvolvimento da Marcha para Jesus no país – que é organizada pela Igreja Renascer em Cristo, do apóstolo Estevam Hernandes e da bispa Sônia, desde 1993, e foi crescendo à medida que a população se tornou mais evangélica –, esses acontecimentos são simbólicos de como o evento se consolidou como um palanque político nos últimos anos. Com privilégio mais evidente de políticos de direita e extrema direita.

Este ano, a Marcha para Jesus do Rio de Janeiro teve participação de pré-candidato à prefeitura e ataques ao STF. No ano passado, a Marcha na capital paulista reuniu aproximadamente 3 milhões de pessoas. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) não foi à marcha em São Paulo. Ele respondeu com uma carta em que agradecia pelo “honroso convite” e enviou como representantes a deputada Benedita da Silva (PT) e Jorge Messias, advogado-geral da União, que foi vaiado durante seu discurso. Na edição deste ano, na quinta-feira (30), Messias será novamente o representante do presidente. 

Marcha para Jesus 2024 na Praça da Apoteose, na região central do Rio de Janeiro

Por que isso importa?

  • Maior evento gospel do país, a Marcha para Jesus cresceu junto com a população evangélica. Além de programação religiosa, a marcha se tornou um terreno de disputa política que tem sido dominado pelo bolsonarismo e pela extrema direita.

A aprovação do governo Lula entre os evangélicos segue baixa. Na opinião de Christina Vital, professora do Departamento de Sociologia e coordenadora do Laboratório de Estudos Sócio-Antropológicos em Política, Arte e Religião da Universidade Federal Fluminense (UFF), a esquerda ainda falha na comunicação com esse público.

“Os políticos religiosos à esquerda que defendem as pautas de interesse direto da maioria da população evangélica encontram grande dificuldade de diálogo com seu próprio grupo religioso, e isso vem favorecendo os políticos e líderes mais à direita”, diz a pesquisadora.

Por outro lado, Raquel Sant’Ana, antropóloga e pesquisadora do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), pontua que a direita, nos últimos anos, investiu “sistematicamente recursos, quadros e elaborou projetos que incluem os evangélicos de um modo que a esquerda não faz”.

Sant’Ana pesquisa manifestações evangélicas na esfera pública brasileira. Um dos pontos do seu trabalho é a teologia do domínio, que defende a disputa do poder terreno por aqueles que querem implementar o reino de Jesus na Terra – o que valorizou a atuação de alguns grupos evangélicos na política institucional e na mídia.

“Também é importante notar”, ela continua, “que quem teve os melhores recursos para realizar essa disputa foi quem se associou à ditadura. Muitas concessões de rádios gospel, por exemplo, foram fruto dessa relação. Assim como o acesso a postos importantes na política local. Por outro lado, a esquerda evangélica, desmobilizada durante o regime, priorizou outras frentes de organização política e defendeu durante muito tempo que era necessário separar religião e política, deixando o terreno livre”.

De acordo com Vital, a associação com a direita se intensificou ao longo do tempo. “Embora essa associação já fosse verdadeira durante a Constituinte de 1987, vários parlamentares evangélicos que compunham a chamada ‘bancada evangélica’ votavam em favor de pautas sociais ligadas ao combate às desigualdades sociais, de acesso à saúde e educação”, diz. 

“Mas, com o fortalecimento de um perfil de evangélicos empresários dos setores principalmente de comunicação, segurança, agronegócio, saúde e educação, o posicionamento político e o alinhamento com interesses de partidos à direita e liberais em termos econômicos foi se tornando orgânica, de modo que observamos nas votações desses parlamentares posicionamentos contrários às demandas sociais de suas bases”, afirma.

De evento evangelístico a palanque

A Marcha para Jesus se autodenomina como “maior evento popular cristão do mundo”. Ela se afirma como uma clara demonstração da capacidade de mobilização e da força da população evangélica no país. Este ano, ao menos 13 mil caravanas de fiéis de diferentes denominações evangélicas e estados são esperadas na edição da capital paulista, com caminhada da Luz até a praça Heróis da FEB, onde um palco com megaestrutura de som e luz estará montado para shows de música gospel. 

Em suas mais de quatro décadas, a Marcha para Jesus deixou de ser apenas um evento de música e oração, como demonstra a ativa participação de políticos que figuram no trio principal, comandado pelo apóstolo Estevam Hernandes e pela bispa Sônia e nos discursos feitos no palco. 

No Brasil, a primeira Marcha para Jesus, realizada em São Paulo em 1993, reuniu 350 mil pessoas. A pesquisadora Raquel Sant’Ana explica que o crescimento do evento coincide com a chamada “explosão gospel” nos anos 1990 e a consolidação da Frente Parlamentar Evangélica no Legislativo. 

“Esses movimentos ofereceram um repertório comum de músicas, programas de televisão e agenda política, que passou a circular além das igrejas específicas, por um público amplo”, explica. 

Nos anos 2000, a marcha já tinha virado um megaevento. “A partir de 2013, com o retorno das mobilizações de rua como modelo de ativismo político e a maior organização da chamada nova direita, as atividades de preparação da marcha, com caravanas de bairros e de igrejas, a elaboração de cartazes próprios, camisas de movimentos com pautas próprias e outros modos de manifestação do público passaram a ser mais comuns”, diz a pesquisadora.

Foi durante esse período que a Igreja Renascer tornou-se pouco a pouco um conglomerado de mais de 800 templos, escolas, gravadoras e emissoras de rádio e TV. Hoje, o apóstolo Estevam Hernandes preside e é sócio de seis organizações, sendo duas empresas de publicidade, uma de empresários evangélicos ligados à Renascer, uma produtora musical, um instituto teológico e a Marcha para Jesus.

Foi durante a reeleição de Lula à Presidência, em 2009, que a celebração passou a ser incluída no calendário oficial do país. A lei, sancionada pelo presidente, é de autoria do senador Marcelo Crivella (Republicanos-RJ), que já foi um dos bispos da Igreja Universal, presidida pelo seu tio Edir Macedo.

Já em São Paulo, estado que representa o centro da Marcha para Jesus no país, no ano passado o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) sancionou uma lei que declara o evento como patrimônio cultural de natureza imaterial do estado.

Em campanha este ano, Tarcísio mais uma vez estará presente no evento, acompanhado do prefeito da cidade, Ricardo Nunes (MDB), que acena para o eleitorado evangélico numa tentativa de se reeleger. A confirmação deles se deu a partir de postagens nas redes sociais, inclusive, convidando a população para participar.

32ª edição da Marcha para Jesus na avenida Tiradentes, em São Paulo
32ª edição da Marcha para Jesus na avenida Tiradentes, em São Paulo
Prefeito Ricardo Nunes durante evento
Prefeito Ricardo Nunes durante evento

Nesse sentido, as edições dos anos 1990 eram apenas uma aposta, dialogavam com a mobilização nacional gerada com o impeachment do presidente Collor, mas ainda eram muito identificadas com a Igreja Renascer em Cristo, não havia adesão de um público e um arco de alianças abrangente como o de hoje. 

A “explosão gospel”, como a pesquisadora Magali Cunha chama o desenvolvimento da indústria cultural evangélica nos anos 1990, e a consolidação da Frente Parlamentar Evangélica deram essas condições, pois ofereceram um repertório comum músicas, programas de TV e agenda política que passou a circular além das igrejas específicas, por um público amplo.

Isso deu às versões do evento nos anos 2000 um perfil muito bem-sucedido como megaevento musical. A marcha de São Paulo, em especial, que sempre valorizou a institucionalidade e a participação de representantes dos executivos municipal, estadual e nacional, independentemente do seu espectro político, é tratada como uma prova da relevância do evento. A necessidade de respeitar e orar pelas “autoridades” é sempre defendida pelos apresentadores e pela organização. O que não quer dizer que o público não tenha suas próprias ideias e medidas do respeito devido (ou não) a esses políticos. Em 2018, por exemplo, a participação de Jair Bolsonaro, ainda na condição de parlamentar e candidato, inspirou algumas vaias, junto aos gritos de “mito” e aplausos.

“Nas marchas para Jesus sempre esteve presente a ideia de criar um Brasil para Cristo com hegemonia evangélica”, explica. “No entanto, desde o governo passado, as marchas para Jesus foram se tornando não só um evento religioso e cultural, mas também político, ainda que vários evangélicos que frequentam resistam a isso”, completa.

Edição:
Tomaz Silva/Agência Brasil
Paulo Pinto/Agencia Brasil
Paulo Pinto/Agencia Brasil

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