Buscar
Reportagem

Demora da Justiça em caso de grilagem ameaça famílias no Cerrado do Piauí

Moradores que estão na região há cem anos sofrem com falta de resolução e erros processuais e temem pelo próprio futuro

Reportagem
4 de setembro de 2024
04:00
Este artigo tem mais de 1 ano
Não deixe a Publica sumir
Nos adicione como fonte preferencial no Google.
Imagem aérea do Território Barra da Lagoa no cerrado do Piauí
Rede Social de Justiça e Direitos Humanos

Há mais de sete anos, o Ministério Público do Piauí (MPPI) denunciou “uma imensa grilagem” de 124 mil hectares de terras, “talvez a maior do Estado do Piauí”, nas imediações da fazenda Kajubar, em Santa Filomena, a 800 km da capital, Teresina. O Tribunal de Justiça do Piauí (TJPI) aceitou a denúncia em 2016, por meio de sua Vara Agrária, mas até o momento não chegou a um veredito. A falta de resposta definitiva sobre o caso tem se transformado em ameaça a povos do Cerrado na região.

A Agência Pública apurou que, ao longo das últimas quatro semanas, está em curso uma nova ofensiva de invasores, com desmatamentos e conflitos armados entre pistoleiros na região, plena fronteira da soja no país, graças à revenda de parte das terras supostamente griladas.

Grileiros têm usado tratores e grandes correntes de aço para devastar áreas nativas de Cerrado. Grupos rivais têm se atacado para ocupar e cercar terras que teriam sido negociadas na área sob suspeita, entre os limites de Santa Filomena e Bertolínia (PI).

Tanto o governo de Rafael Fonteles (PT) quanto a Defensoria Pública Estadual sabem do aumento da tensão. Movimentos sociais como a Comissão Pastoral da Terra (CPT), a Rede Social de Justiça e Direitos Humanos e a Associação dos Advogados de Trabalhadores Rurais (AATR) têm pedido às autoridades por definição quanto à regularização fundiária para pacificar a região. Moradores de Barra da Lagoa, Brejo das Meninas e Chupé, que vivem há mais de cem anos na região, segundo o próprio governo estadual, temem por sua segurança após se verem envolvidos pelo esquema de grilagem, como relatado pela Pública em 2022.

Por um lado, faltam respostas do TJPI em relação à denúncia de 2016 do Ministério Público, com impacto direto na segurança de povos tradicionais no sul do estado. Por outro, a Justiça estadual tem dado decisões liminares a favor de supostos donos de terras na mesma área do esquema denunciado.

  • Imagem aérea do Território Barra da Lagoa no cerrado do Piauí

O TJPI liberou registros de fazendas mesmo com indícios de ligação com a grilagem de 124 mil hectares. O desembargador José James Gomes Pereira, da 2ª Câmara Especializada Cível do TJPI, é um dos que têm concedido decisões a favor de supostos proprietários de terras na região, como mostrou a Pública. Em julho de 2023, por exemplo, Pereira deu liminar desbloqueando os registros de duas fazendas na área sob suspeita. Documentos obtidos pela reportagem expõem a conexão de um dos imóveis liberados com um dos acusados de coordenar a suposta grilagem.

Não foi a primeira vez que o desembargador decidiu em favor de acusados. Em 2021, Pereira liberou, de uma só vez, os 124 mil hectares de terras sob suspeita do MPPI, por meio de liminar em resposta ao pedido de desbloqueio parcial de apenas uma das fazendas da região. O autor da solicitação foi um advogado que havia sido preso, anos antes, por suspeita de envolvimento em outro esquema de grilagem.

Na prática, a sentença de Pereira favoreceu todos os réus denunciados, incluindo um dos maiores grileiros do país e alvo de denúncias da Pública há anos, o finado Euclides de Carli. Carli era defendido na Justiça pelo governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), e seu escritório de advocacia. Em 2022, Ibaneis Rocha disse à Pública que sua firma “foi contratada para atuar no referido processo no ano de 2016”, mas que “sequer apresentou defesa em nome dos constituintes, sendo substituído por outro escritório, que efetivamente apresentou defesa nos autos”.

A reportagem procurou o TJPI e o desembargador José James Pereira, para ouvi-los sobre as críticas sobre a concessão de liminares a fazendeiros e pela falta de um veredito quanto à posse da área pelas comunidades tradicionais, mas não teve resposta até o momento. Em caso de manifestação, a reportagem será atualizada.

Moradores quase foram despejados sem serem citados pela Justiça

Críticas das comunidades tradicionais e movimentos que acompanham a luta por terras no sul do Piauí se baseiam em outras controvérsias na Justiça estadual. Em maio passado, uma oficial de justiça, acompanhada de policiais militares, esteve nas comunidades de Barra da Lagoa, Brejo das Meninas e Chupé, todas atingidas pela suposta grilagem de 124 mil hectares, para avisá-las de que teriam de sair de suas terras devido a uma decisão da Justiça estadual.

As comunidades nem sequer tinham sido citadas ou intimadas, desconhecendo oficialmente a existência da ação. O caso envolve, entre outros réus, o grupo de Euclides de Carli. Atualmente, a Defensoria Pública Estadual do Piauí pede, em nome das comunidades, a anulação do caso por conta desse “erro processual claro”.

“Nosso pedido de anulação aguarda uma decisão em segundo grau do Judiciário, instância responsável por analisar os recursos apresentados à Vara Agrária [do Piauí]”, afirmou à reportagem o defensor Daniel Bezerra Lira, titular da Defensoria Pública Estadual em Bom Jesus (PI) – responsável pelo atendimento legal de populações vulneráveis na região.

“Naturalmente, demandas e casos complexos tomam um tempo maior de análise pela Justiça, como vemos nas ações anulatórias e possessórias em curso, mas juridicamente não vemos como seria possível afastar ou remover as comunidades de suas terras já reconhecidas”, disse ainda à Pública o defensor.

Terras liberadas mesmo sob suspeita

Parte das áreas hoje em conflito em Santa Filomena coincide com imóveis na região sob suspeita de grilagem. A conexão fica evidente a partir de uma das posses do antigo sócio de Euclides de Carli, o também finado João Emídio de Sousa Marques, conhecido como João ‘Orelhinha’ – um dos acusados pelo MPPI de coordenar o esquema.

O detalhe importa, considerando a liminar do TJPI que liberou duas fazendas na área sob suspeita. Comunicada em julho de 2023, a decisão do desembargador José James Pereira liberou os registros das fazendas Figueira Gaúcha e Pôr do Sol após anos de bloqueio por suspeita do MPPI de que os imóveis fizessem parte do esquema de Marques e Carli.

A fazenda Figueira Gaúcha deriva de uma das áreas controladas na região pelo grupo de João ‘Orelhinha’ – definido em uma  sentença da Vara Agrária do TJPI como “dono de quase o Piauí inteiro juntamente com Euclides de Carli”. Então sócio e procurador de empresa envolvida na suposta grilagem, ele “falsificou procurações públicas para adquirir propriedades”, segundo a sentença proferida em 2016.

Mesmo apresentando a certidão de compra da fazenda Figueira Gaúcha, que mostra o vínculo do imóvel com uma das fazendas sob suspeita, a defesa dos supostos donos do imóvel – Antônio Andrino e Romeo Michael – alegou ao TJPI que o bloqueio das terras “não se mostrava razoável”, pois impedia atividades agrícolas. No entanto, o suposto impedimento não evitou a revenda de parte das fazendas por R$ 5,5 milhões, segundo documentos apresentados pela defesa à Justiça do Piauí.

Segundo apurado pela Pública, os novos proprietários teriam ligação com os recentes conflitos e teriam derrubado parte da vegetação nativa de Cerrado. Desmatamentos se tornaram frequentes na região, fato usado pelo MPPI como argumento para bloquear registros e evitar novos “danos ambientais”. 

Ainda assim, e considerando a origem suspeita da fazenda Figueira Gaúcha, o desembargador José James Pereira liberou os registros dos imóveis. “As arguições do Ministério Público tanto na data do ajuizamento da ação anulatória como recentemente quanto às questões relacionadas a danos ambientais são graves e devem ser apuradas, contudo, não nos parece razoável antecipar o resultado prático da ação”, disse Pereira na decisão.

Desmatamento ilegal ‘regularizado’ pelo governo

Um detalhe chama atenção no caso das fazendas Figueira Gaúcha e Pôr do Sol: a existência de uma licença emitida pela Secretaria de Meio Ambiente do estado (Semarh), obtida pela Pública, que permite o plantio agrícola em uma área de 2 mil hectares já desmatada e sob suspeita de grilagem, o que, na prática, regulariza o desmatamento ilegal. O documento tem validade até 7 de março de 2027 e foi assinado pelo então diretor de Licenciamento e Fiscalização da Semarh João Henrique de Sousa Sampaio, e pelo secretário de Meio Ambiente, Daniel Carvalho de Oliveira Valente.

Recentemente, a secretaria se viu envolvida em outro caso controverso envolvendo José James Pereira. Em 25 de agosto, o desembargador determinou, por meio de uma decisão monocrática, que a Semarh emita licenças para o desmatamento de mais de 74 mil hectares de terras para o plantio de milho e soja em fazendas que invadem uma unidade federal de conservação.

O desmate permitido atingirá a Estação Ecológica de Uruçuí-Una, em Baixa Grande do Ribeiro (PI), vizinha a Santa Filomena, como revelado pelo portal O Eco. À reportagem, a Semarh afirmou que “tomou as devidas providências junto à Procuradoria-Geral do Estado do Piauí” e que “se mostra contrária” à liminar que a obriga a autorizar o desmatamento de 74 mil hectares.

À Pública, a pasta disse em nota que a permissão de 2 mil hectares para as fazendas Figueira Gaúcha e Pôr do Sol se refere a “uma licença ambiental corretiva que regulariza uma atividade econômica sobre uma área já antropizada, a qual não dispõe de qualquer outra licença ambiental prévia”.

Quanto à suspeita de ilegalidade no registro das fazendas, a Semarh afirma que “não constava no banco de dados geoespaciais do Estado qualquer conflito fundiário entre o detentor da licença e a comunidade tradicional Brejo das Meninas” à época da concessão da licença.

“Tal conflito somente se evidenciou em maio de 2023, mediante uma análise técnica por parte do INTERPI [órgão fundiário do governo do Piauí]. No entanto, cumpre frisar que, até o momento, o INTERPI não se manifestou nem pela regularidade de domínio da mencionada fazenda, nem sobre os limites do território ocupado pela população tradicional”, disse ainda a Semarh.

Edição:
Anônimo/Cortesia
Mariella Paulino/Rede Social de Justiça e Direitos Humanos
Mariella Paulino/Rede Social de Justiça e Direitos Humanos
TRE/divulgação
Defensoria Pública/reprodução
Defensoria Pública/reprodução
Interpi/reprodução
Interpi/reprodução
Ibama/Reprodução

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Se você chegou até aqui é porque realmente valoriza nosso jornalismo. Conheça e apoie o Programa dos Aliados, onde se reúnem os leitores mais fiéis da Pública, fundamentais para a gente continuar existindo e fazendo o jornalismo valente que você conhece. Se preferir, envie um pix de qualquer valor para contato@apublica.org.

Vale a pena ouvir

EP 230 O que é o Partido Digital Bolsonarista? – com Marcos Nobre

Professor e pesquisador, Marcos Nobre, fala sobre as mudanças estruturais na forma de fazer política no Brasil

0:00

Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Newsletter

Saiba de tudo que investigamos

Assinar
Fique por dentro

Receba conteúdos exclusivos da Pública de graça no seu email.

Assinar

Artigos mais recentes

Eleitores gerados por IA fazem campanha no TikTok e põem em xeque regra do TSE

|

Vídeos criados com IA em que eleitores declaram seus votos para presidente têm 7,4 milhões de views no TikTok

O método: como a extrema-direita ataca professores para engajar eleitores

|

Gravações clandestinas e ataques online evidenciam como docentes são explorados politicamente desde 2022

Investigados por desinformação e tentativa de golpe seguem ativos nas redes em 2026

|

Ao menos dez alvos de inquéritos no STF e TSE em eleições passadas continuam publicando sobre o pleito deste ano

Tingir o chão de sangue: propostas de Renan Santos para segurança vão contra Constituição

|

Candidato do MBL defende prisão, mortes e vingança em discurso emocional contra a violência

Partido da farda: número de candidatos policiais ou militares passa de 1,2 mil

|

Bancada de policiais no Legislativo direciona recursos para a Polícia Militar, enquanto resolução de crimes segue baixa

Quase quatro a cada dez indígenas em terras na Amazônia não têm acesso adequado a água

|

Ao todo, 38% não tem água tratada ou fontes como poços e nascentes, dependendo de rios e lagos, muitos contaminados

Sob Lula, assassinatos de indígenas sobem 22% em 2025 e superam média da era Bolsonaro

|

Após queda em 2023, número de mortos volta a subir e chega a 258; Marco Temporal é parte do problema, diz Cimi

Corrida por Data Centers gera denúncias de violações trabalhistas em São Paulo

|

Trabalhadores relatam assédio, acidentes e adoecimento. Empresas alegam cumprir lei trabalhista e normas de segurança

Fazer falar os ossos: a rotina de quem procura os desaparecidos da ditadura

|

Mostra no Centro MariAntonia (USP), em São Paulo, expõe o trabalho de peritos na identificação dos mortos na ditadura

“Onde tem malária, tem garimpo”: cinta larga aguardam decisão do STF sobre mineração

|

Julgamento nesta quinta-feira, 13, pode abrir caminho para mineração em terras indígenas entre Rondônia e Mato Grosso