Buscar
Coluna

Boulos é aposta de Lula para o futuro da esquerda no país

Aos 39 anos, deputado pode ser visto como herdeiro político do presidente mesmo fora das fileiras do PT

Coluna
12 de outubro de 2024
06:00
Este artigo tem mais de 1 ano
Não deixe a Publica sumir
Nos adicione como fonte preferencial no Google.

Quer receber os textos desta coluna em primeira mão no seu e-mail? Assine a Newsletter da Pública, enviada sempre às sextas-feiras, 8h. Para receber as próximas edições, inscreva-se aqui. 

Em uma eleição em que a direita prevaleceu, do eterno centrão aos renovados extremistas, e a esquerda foi tida como a grande derrotada – o que não é nenhuma novidade, aliás, com a força do antipetismo que emergiu na Lava Jato –, aproveito este espaço para falar um pouco das jovens lideranças de centro e de esquerda que se projetaram nestas eleições. 

Afinal, em um país em que a direita ascendeu e se radicalizou nos últimos dez anos, em um fenômeno erroneamente lido como polarização, é preciso abrir espaço para um futuro progressista. E aí estou falando da nova geração, para além de 2026, em que aparentemente ainda teremos Lula, então com 82 anos, disputando as eleições. 

Para ficar nos líderes com maior destaque: além de João Campos, 30 anos, que, como esperado, conquistou a reeleição em Recife com fabulosos 75% dos votos, a chegada de Guilherme Boulos ao segundo turno e a resiliência da centrista Tabata Amaral nas eleições em São Paulo, galvanizadas pelo jovem líder de extrema direita Pablo Marçal, credenciam os dois deputados federais a sonhar com um papel político maior.

Tabata obteve mais de 600 mil votos em sua primeira disputa para um cargo eletivo e conquistou o respeito do eleitorado com uma atitude mais propositiva e educada do que os adversários homens. Aplicada, certamente aprendeu com a campanha e deveria ser mais valorizada pelo seu partido, o PSB de Campos e do vice-presidente Geraldo Alckmin. Gilberto Kassab, o cacique do PSD apontado como o grande vitorioso destas eleições, já estava de olho em Tabata quando ela saiu do PDT, em 2019, e o cacife dela sem dúvida aumentou. 

Do lado da esquerda, faz tempo que o presidente Lula sacou o potencial do líder psolista e o chamou para junto de si. “Boulos tem 35 anos. Eu tinha 33 quando fiz minha primeira greve. Você tem futuro, meu irmão”, disse o então ex-presidente, em frente ao Sindicato dos Metalúrgicos naquele 7 de abril de 2018. Horas depois, Lula se apresentaria voluntariamente à Polícia Federal de Curitiba, para cumprir o primeiro dos seus 580 dias de prisão, decretada pelo então juiz Sergio Moro. 

Naquele momento, o gesto do presidente ao deputado, que, como ele, tem origem no movimento social, tinha a força do legado político. Revendo as fotos daquele dia, salta aos olhos a escolha simbólica de dois jovens, pré-candidatos à Presidência que não eram do seu partido, para reafirmar a fé no futuro: Boulos, do PSOL, e Manuela, candidata do PCdoB, a quem Lula abraçou logo depois da frase dita a Boulos. 

Imagino a ciumeira no PT.

Agora, a eleição em São Paulo é uma grande oportunidade para Guilherme Boulos com uma grande vantagem para o psolista: pesquisas e analistas indicam que o mais provável é que a mediocridade do atual prefeito, turbinado com recursos e máquina política, vença o segundo turno. Se perder, não decepciona; se ganhar, faz milagre e desponta como a maior liderança jovem da esquerda no país. Sob as bênçãos do presidente Lula, que deve se envolver mais no segundo turno da campanha. 

Não é o que se espera, mas Boulos pode surpreender. Nunes tem muitas fragilidades – de acusações de corrupção e favorecimento de amigos ao caso de violência doméstica contra a esposa. Os que recordam do abandono da cidade durante os três anos anteriores à campanha, como expôs principalmente Tabata, durante os debates, só o reelegem se a rejeição ideológica a Boulos for maior. E, nesse campo, a briga com Pablo Marçal não o favorece. Os eleitores do ex-coach não são exatamente guiados pela razão. Sabe-se lá o que farão. 

Além disso, o deputado do PSOL já conseguiu um grande feito anterior, nas eleições municipais de 2020, quando chegou ao segundo turno mesmo não sendo o único candidato da esquerda. Perdeu para Bruno Covas, herdeiro do PSDB que dominou São Paulo por décadas, mas dobrou a votação entre o primeiro e o segundo turno. 

E o candidato ainda tem lenha para queimar nesta eleição, em que deveria ter chegado no primeiro lugar no primeiro turno, não fosse a confusão dos números de PT e PSOL; sem falar nas fake news de Marçal. 

Seja qual for o resultado final da eleição, Boulos pode reforçar a sua liderança também dentro do PT, que até o momento não conseguiu apresentar novos nomes com cacife eleitoral e teve que reconquistar uma veterana que votou no impeachment de Dilma para ser a vice na chapa encabeçada pelo PSOL. 

A renovação de lideranças é uma boa notícia para o campo progressista, que, se não brigar entre si e souber conviver com o centro, como faz o presidente Lula, pode superar a direita, que sai destas eleições fortalecida, mas dividida. Do contrário, o que nos espera é uma nova expansão da direita como promete a união entre Kassab e Tarcísio de Freitas.

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Aviso

Este é um conteúdo exclusivo da Agência Pública e não pode ser republicado.

Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Assine nossas newsletters
Fique por dentro

Artigos mais recentes

Quase mil anúncios sobre Lula e Flávio na Meta foram pagos em dólar

|

Impulsionados por US$120 mil, conteúdos circularam sem rótulo de conteúdo político

Processos sobre desinformação e propaganda digital triplicam nas eleições de 2026

|

Até agora são mais de 9,5 mil processos na Justiça Eleitoral no 1º turno, contra 3,4 mil durante mesmo período em 2022

A “bancada” anti-indígena que vai às urnas neste domingo

|

Levantamento mostra que 370 parlamentares fizeram propostas negativas para indígenas; 270 deles disputam reeleição

O ex-senador Eduardo Suplicy é detido em reintegração de posse próximo a Cohab Educandário

Levantamento aponta um caso de violência política a cada 37 horas durante campanha de 2026

|

Monitoramento exclusivo da Pública por 17 dias chegou a 11 casos cujos agressores são, na maioria, agentes de segurança

Dos clubes de tiro ao poder: segmento de armas injeta mais de R$ 1,2 milhão nas eleições

|

Empresários do setor doaram para 96 candidatos – PL, Republicanos e Novo lideram recebimento de recursos

Visita à Heritage Foundation de Sérgio Sant'Ana e Eduardo Bolsonaro

Empresário que fundou Instituto com Eduardo Bolsonaro presta serviço para campanhas

|

Empresa de Sérgio Sant’Anna recebeu R$340 mil; empresário diz que ICL está “inativo” e que se afastou do ex-deputado

O senador Flávio Bolsonaro, durante sessão da Comissão de Desenvolvimento Regional do Senado

Flávio Bolsonaro, os hospitais federais e a pandemia de Covid no Rio de Janeiro

|

Contratos superfaturados, demissões e hospitais sucateados: como Flávio influenciou a saúde do Rio no governo do pai

Ex-jogador da seleção brasileira de basquete dos anos 1980 Nilo Guimarães. Ele foi secretário de esportes de Mogi da Cruzes, na região metropolitana de São Paulo, por 12 anos (2009-2020).

Empresa de ex-secretário de Esportes de Mogi recebeu dinheiro de emenda Pix de Mario Frias

|

Sócio de Nilo Guimarães na Pulsa Uniformes diz que material foi entregue, mas não envia comprovação

A execução de Davi Sebba e a teia de policiais que Goiás levou 14 anos para julgar

|

Letalidade policial quase triplicou em 2012, ano do crime; governador era Marconi Perillo, candidato ao cargo em 2026

Investigação e processos criminais: o rastro legal dos deputados da Comissão de Segurança

|

CSPCCO: 12 deputados ligados a forças de segurança foram parte em procedimentos criminais, que vão de calúnia a agressão

Rio de Janeiro (RJ), 08/03/2023 - Ato denúncia em frente à Câmara Municipal, organizado pelo campanha Levante Feminista contra o Feminicídio

Na Amazônia Legal, 9 em cada 10 vítimas de feminicídio em 2025 não tinham medida protetiva

|

Levantamento em oito estados mostra que mulheres morrem desprotegidas; recurso jurídico é alternativa para evitar crime