Buscar
Reportagem

É falso laudo médico divulgado por Pablo Marçal contra Guilherme Boulos

Dados incorretos desmentem laudo usado por Marçal para acusar Boulos de uso de droga

Reportagem
5 de outubro de 2024
13:32
Este artigo tem mais de 2 anos

Nos adicione como fonte preferencial no Google.

Ilustração mostra o rosto do coach e candidato a prefeito de São Paulo nas eleições 2024, Pablo Marçal
Reprodução/Aos Fatos

É falso que um suposto laudo médico divulgado nas redes por Pablo Marçal (PRTB) prova que Guilherme Boulos (PSOL) foi internado em uma clínica em São Paulo, em 2021, após um surto psiquiátrico por uso de cocaína. Há fotos e vídeos de Boulos participando de compromissos públicos nas datas em que teria sido internado. Além disso, o documento apresentado por Marçal contém erros formais que colocam em dúvida sua veracidade: o número de RG de Boulos está com um dígito a mais, o nome da clínica está errado e há erros gramaticais básicos.

O documento foi publicado na conta de Marçal no Instagram na noite desta sexta-feira (4) e acumulava mais de 380 mil curtidas antes de ser apagado. Reproduções, no entanto, acumulam milhares de curtidas e compartilhamentos.

Laudo médico falso divulgado por Pablo Marçal que acusa Guilherme Boulos de uso de drogas ilícitas
Laudo médico falso divulgado por Pablo Marçal que acusa Guilherme Boulos de uso de drogas ilícitas

Não é verdade que um documento divulgado nas redes por Pablo Marçal prova que Guilherme Boulos foi internado após um exame toxicológico apontar uso de cocaína. O suposto laudo médico possui indícios de manipulação:

  • O RG de Boulos está errado. Há um dígito a mais do que o do documento original do candidato (confira aqui);
  • O nome da clínica também está incorreto: de acordo com o registro do CNPJ e com sua própria página no Instagram, o estabelecimento se chama Mais Consultas, e não Mais Consulta, no singular, como consta;
  • O texto também contém erros de português, como “por minha [mim] atendido” e “apresentou com quadro de surto psicótico grave”.

Entre a madrugada e a manhã deste sábado, outros veículos de imprensa apontaram mais indícios de manipulação:

Registros nas redes mostram proximidade entre Pablo Marçal e Luiz Teixeira, médico responsável pela clínica que emitiu o suposto laudo de Boulos
Registros nas redes mostram proximidade entre Pablo Marçal e Luiz Teixeira, médico responsável pela clínica que emitiu o suposto laudo de Boulos
  • O UOL mostrou que a assinatura presente no documento não condiz com a verdadeira, que pode ser encontrada em um processo do TJ-SP;
  • O Globo entrevistou a ex-secretária do médico citado, morto em 2022, e ela disse que o profissional de saúde nunca trabalhou na clínica citada;
  • A Folha de S.Paulo identificou ainda que o logotipo usado no papel timbrado é de uma clínica em Manaus, não em São Paulo;
  • Em entrevista à Globo, a filha do médico disse que o pai só atendia em Campinas (SP) e região, era especialista em hematologia e nunca assinaria um laudo psiquiátrico. Na data do documento, ele já estava doente e não atuava mais profissionalmente, segundo a família. Ela também tem tatuada uma assinatura do pai que difere da firmada no laudo falso.

Cerca de duas horas depois de publicado, o post de Marçal foi deletado do Instagram pela Meta. Na manhã de sábado (5), a Justiça Eleitoral ordenou que Google, Facebook e Bytedance — empresa responsável pelo TikTok — suspendam as publicações com o documento, incluindo a entrevista de Marçal ao Inteligência Ltda.

Momentos depois do post de Marçal, Boulos publicou um vídeo em suas redes para desmentir o documento. Segundo ele, o responsável da clínica, Luiz Teixeira da Silva Junior, seria apoiador de Marçal. De fato, registros no Instagram mostram o médico ao lado do candidato do PRTB.

Um ponto citado por Boulos no vídeo é que o médico que supostamente assina o laudo teria morrido dois anos atrás. Em busca no site do CFM (Conselho Federal de Medicina), Aos Fatos verificou que o cadastro de José Roberto de Souza está inativo desde abril de 2022 e que o médico consta no sistema como “falecido”.

Médico que assina o suposto laudo consta no sistema do CFM como ‘falecido’

Desde o início da campanha, Marçal acusa Boulos sem provas de ser usuário de cocaína. O candidato do PRTB divulgou o suposto laudo médico em suas redes durante uma entrevista ao podcast Inteligência Ltda., na qual voltou a atacar o adversário.

Ao mencionar o documento, Marçal afirma que ele provaria uma “entrada com problema de dependência química”. “É um negócio que ele tenta esconder a qualquer custo”, ele continua. “É internação. E na internação constata que ele entrou por isso [uso de cocaína].”

O candidato do PSOL também diz no vídeo que participou de um ato público logo depois da data. De fato, há imagens de Boulos no Instagram e no Facebook nos dias 19 e 20 de janeiro de 2021 (veja abaixo). Uma foto publicada por um apoiador mostra Boulos na tarde do dia 19, quando a internação supostamente teria acontecido.

Em agosto, a Justiça Eleitoral multou Marçal em R$ 30 mil por postagens que associavam Boulos ao consumo de drogas. “O TRE determinou que se eu chamasse ele de cheirador, eu tinha que pagar R$ 30 mil”, ele reforçou durante a entrevista na noite desta sexta-feira (4), antes de divulgar sua chave Pix e pedir doações.

Leia a íntegra da nota de Guilherme Boulos

O documento publicado por Pablo Marçal é falso e criminoso e ele responderá e arcará com as consequências em todas as instâncias da Justiça — eleitoral, cível e criminal. Uma atitude inaceitável de quem prova não ter limites em sua capacidade de mentir.

Marçal mostra mais uma vez ser um criminoso recorrente, que usa de mentiras absurdas para atacar a honra e a reputação e tentar promover uma manipulação sem precedentes no processo eleitoral.

Não podemos normalizar esse tipo de método que já colocou em xeque a nossa democracia no passado recente e que, agora, ameaça a normalidade destas eleições.

Marçal pagará pelos seus crimes.

Aos Fatos tentou entrar em contato com a clínica Mais Consultas, mas, como a publicação foi feita após o horário comercial, o estabelecimento já havia fechado. Na manhã de sábado (5), a reportagem tentará procurá-los novamente.

ATUALIZAÇÃO: Este texto foi atualizado às 10h57 de 5.out.2024 para incluir mais provas de que o documento é falso e a informação de que a Justiça Eleitoral ordenou a suspensão das publicações de Marçal.

O caminho da apuração

Aos Fatos estava acompanhando o podcast Inteligência Ltda. ao vivo. Quando Marçal publicou o documento, a reportagem enviou o suposto laudo à assessoria de Boulos.

Enquanto aguardava resposta, a reportagem analisou os dados presentes no documento e notou uma inconsistência no número do RG de Guilherme Boulos. Em busca de outros indícios, verificamos que o nome da clínica responsável pelo laudo estava escrito incorretamente.

Em consulta ao site do CFM, a reportagem constatou ainda que José Roberto de Souza, médico responsável pelo laudo, consta no sistema como falecido. Aos Fatos ainda tentou contato com a clínica, sem sucesso.

A assessoria de Boulos também encaminhou à reportagem indícios que mostravam uma possível proximidade entre o dono da clínica Mais Consultas e Pablo Marçal e posts que atestavam que Boulos havia aparecido em público nos dias seguintes à suposta internação.

Ao final da apuração, Aos Fatos entrou em contato com a assessoria de Pablo Marçal para que pudessem comentar a checagem.

* Esta reportagem foi publicada originalmente no site Aos Fatos, organização jornalística dedicada à investigação de campanhas de desinformação e à checagem de fatos.

O texto foi atualizado às 17:20 de 06 de outubro de 2024.

Reprodução
Reprodução/Instagram
Reprodução

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Assine nossas newsletters
Fique por dentro

Artigos mais recentes

Meta bloqueia conteúdos políticos pró-Lula e contra Flávio acusando terrorismo e nudez

|

Ministério Público Federal abre investigação contra a empresa e X por violação à liberdade de expressão

Um jumento na filarmônica

|

Contrabaixista na Europa volta ao Recife e reencontra crianças de projeto social que o iniciou na música há 20 anos

Em foto, Eduardo Bolsonaro aparece cercado de apoiadores da extrema direita na festa de gala da Hispanic Heritage

Eduardo Bolsonaro vive noite de celebridade na festa da extrema direita nos EUA

|

Ao som de “La Bamba” e “Macarena”, festa teve clima de vitória de Flávio Bolsonaro e ingressos de R$ 15 mil a R$ 50 mil

A misoginia de diálogos de Vorcaro e CEO que expôs atrizes: “Mulher não pode fazer isso”

|

CEO da Globo demitido hoje fez comentários machistas sobre Deborah Secco e Sabrina Sato, e chamou prefeita de vaca

Líder da oposição no Senado, senador Rogério Marinho (PL-RN) durante entrevista

Chefe da campanha de Flávio Bolsonaro esteve no Senado mas não votou na 6×1

|

Rogério Marinho (PL-RN) fez uma reunião de 3h, se encontrou com aliados e saiu sem falar com a imprensa

Daniel Vorcaro, do Banco Master, e Fred Kachar, do Grupo Globo

A linha direta de Vorcaro dentro do Grupo Globo: “Quer que peça pra corrigir?”

|

Vazamento de mensagens do ex-banqueiro a Fred Kachar expôs interferências editoriais e levou à demissão do executivo

Montagem feita por IA com imagens do presidente Lula e do candidato Flávio Bolsonaro

Meta barra mais conteúdos pró-Lula e progressistas que pró-Flávio, aponta levantamento

|

Levantamento documentou mais de mil casos de restrições e banimentos nas plataformas em outubro

Plenário do Senado Federal durante sessão que votou PEC do fim da Escala 6x1

Fim da escala 6×1 é a maior mudança na jornada do trabalhador brasileiro desde 1988

|

Com 75 votos a favor e um contra nos dois turnos de votação, PEC aprovada garante dois dias de descanso a trabalhadores

Um quarto dos senadores que apoiam a PEC da Flexibilidade tem antepassados escravocratas

|

Levantamento da Agência Pública no Projeto Escravizadores mapeou famílias de mais de cem políticos brasileiros

Tropa do Esquadrão de Polícia Montada que atua no entorno dos estádios de futebol, passam por instrução, na sede de Itapuã em Salvador.

No meio do caminho tinha uma norma – o que explica mortes causadas por policiais da Bahia

|

Instrução normativa de 2019 dificultou investigação de policiais militares; estado é onde as polícias mais matam

Integrantes da Bancada Indígena do Congresso Nacional, Sônia Guajajara (à esquerda) e Célia Xakriabá (à direita)

Bancada indígena diminui no Congresso e lideranças se preparam para desmonte e retrocesso

|

Representantes do movimento indígena citam risco às demarcações, imposição do Marco Temporal e aparelhamento da Funai

Colagem com frames de vídeos de Lula nas redes sociais

Do susto ao mutirão: como a campanha de Lula tenta virar o jogo nas redes e nas ruas

|

Campanha tenta virar o jogo com nova abordagem nas redes, atos pelo Brasil e engajamento de influenciadores e artistas