Buscar
Reportagem

Comunidade com mais mortes por chuvas no Grande Recife ainda não recebeu novas moradias

Jardim Monte Verde, entre Recife e Jaboatão dos Guararapes, registrou 44 mortes após desabamento de encosta em 2022

Reportagem
2 de outubro de 2024
12:00
Este artigo tem mais de 2 anos
Não deixe a Publica sumir
Nos adicione como fonte preferencial no Google.
Arnaldo Sete/MZ Conteúdo

“Eu perdi tudo. Da minha casa ficou só o chão”, diz José Alberto de Aguiar, 60 anos, auxiliar de topografia e morador de Jardim Monte Verde, no bairro do Ibura. A comunidade, que fica em área de morros na divisa do Recife com Jaboatão dos Guararapes (PE), foi a que mais registrou mortes durante as fortes chuvas de maio de 2022. José perdeu 12 familiares no desabamento de encostas, entre netos, irmãos, filhos, cunhada e sobrinhos. 

Somente em Jardim Monte Verde foram 44 mortos, segundo os moradores, sendo 17 vítimas fatais na mesma rua. Em todo o estado, foram 133 mortes. Os moradores contabilizam 754 famílias atingidas por perdas totais e/ou parciais dos imóveis. Só que até agora, mais de dois anos depois da tragédia, elas dizem que ninguém recebeu unidades habitacionais. 

Pessoas cujas casas viraram apenas escombros ou foram condenadas pela Defesa Civil disseram à Agência Pública que também não receberam indenizações e que muitos moradores sequer tiveram acesso ao auxílio-aluguel. Elas também relatam que a escola municipal do bairro foi reinstalada em uma área de encosta e está cheia de rachaduras.

José Alberto recebe R$ 300 do auxílio-aluguel pela prefeitura de Jaboatão dos Guararapes. Ele diz que isso não cobre o custo mensal da locação do imóvel atual, que é de R$ 350. “Pago mais barato porque aluguei de uma pessoa da família. Porque hoje em dia todo aluguel é R$ 500”, conta. 

  • Área de desabamento no Jardim Monte Verde, área fica na divisa entre Jaboatão dos Guararapes e Recife
  • Área de desabamento no Jardim Monte Verde, área fica na divisa entre Jaboatão dos Guararapes e Recife
  • Área de desabamento no Jardim Monte Verde, área fica na divisa entre Jaboatão dos Guararapes e Recife

Segundo o IBGE, a comunidade de Jardim Monte Verde pertence ao Recife. Mas, em 2022, pouco depois da tragédia, houve uma mudança de delimitação que passou a maior parte dos endereços para Jaboatão. Na época, o governo do estado assumiu a responsabilidade de investir R$ 60 milhões em obras de contenção de encostas na localidade. Os municípios ficariam com obras menores. 

Por ser um bairro limítrofe, as prefeituras dos dois municípios fazem um “jogo de empurra” na hora de assumir responsabilidade por obras e auxílios, diz Jenifer Brito, 41 anos, autônoma e segunda tesoureira do conselho de moradores. Ela está recebendo auxílio-aluguel de R$ 300 porque sua casa está interditada desde o desabamento de terra.

“Em outubro de 2022, a prefeitura do Recife começou uma obra aqui para reforçar a encosta, mas até agora não terminaram”, comenta. “Tem uma casas em grau máximo de interdição e que os moradores voltaram a morar porque não conseguem pagar aluguel.” 

A entrega de habitações é uma demanda antiga da comunidade, que já tinha sido duramente atingida por enxurradas nos anos 2000, quando também aconteceu um deslizamento de barreira. “No ano passado, a prefeitura do Recife prometeu que seriam feitas revitalizações de algumas casas pelo ProMorar, mas até agora nada”, diz Jenifer. 

O Programa de Requalificação e Resiliência Urbana em Áreas de Vulnerabilidade Urbana (ProMorar) é um plano de ações bilionário da prefeitura para adaptações às mudanças climáticas, que se tornou ameaça de despejo para mais de 40 comunidades no Recife. A prefeitura não respondeu se Jardim Monte Verde será contemplada pelas ações do ProMorar. 

Nos anos 2021 e 2022, o Ministério Público de Pernambuco (MPPE) ingressou com uma ação civil pública que pedia que a prefeitura do Recife adotasse medidas de contenção de barreiras e de sistemas de drenagens nos morros do Recife, entre eles em Jardim Monte Verde. O MPPE não informou se todas as exigências foram cumpridas. 

Quando a barreira desabou em maio de 2022, Eliane Martins de Oliveira, 50 anos, ficou soterrada. Ela quebrou a patela e, ao longo dos últimos dois anos, precisou passar por três cirurgias. A filha dela, de 31 anos, morreu na tragédia. “Minha casa foi destruída e nunca recebi nem o auxílio-aluguel”, conta. A prefeitura de Jaboatão teria negado o auxílio porque ela recebe um salário mínimo pelo INSS. Só que apenas o aluguel atual dela custa R$ 350 – o custo com moradia sobe para R$ 550 quando somada a energia.  

O marido de Eliane, que é motorista, também está afastado pelo INSS e recebe um salário-mínimo. No caso dele, o afastamento das funções foi necessário por adoecimento psiquiátrico. “Ele perdeu também outros familiares na tragédia. Até agora não conseguimos nos reestabelecer”, conta Eliane.

Escola municipal fica em encosta e tem rachaduras 

A casa de Jenifer fica ao lado da escola municipal do bairro, que foi reconstruída numa área de encosta e apresenta rachaduras. “A gente fica preocupada com a segurança das crianças”, diz a moradora. Ela enviou vídeos para a reportagem que mostram as fissuras.

Jenifer mostra rachaduras em prédio
Jenifer mostra rachaduras em prédio

A prefeitura do Recife informou que a Secretaria de Educação enviou equipes de engenharia ao local para vistoria, mas não foram encontradas rachaduras, apenas aberturas visíveis que são “juntas de dilatação estrutural”. A administração pública garantiu que “a unidade não representa risco algum para os estudantes e profissionais”. 

Segundo Jenifer, a comunidade quer a transferência dos estudantes para uma escola em local que eles considerem seguro. 

Sobre os pagamentos de auxílios-moradia, a prefeitura do Recife informou à reportagem que “áreas limítrofes foram estabelecidas pelo IBGE” e que, a partir desse georreferenciamento, são definidas as ruas e localidades para destinação de auxílio moradia. Segundo eles, a Defesa Civil informou que “470 famílias residentes em Jardim Monte Verde recebem, atualmente, o auxílio-moradia”.

Com relação às obras de contenção de encostas, a prefeitura informou que atualmente “nove intervenções deste tipo estão em andamento no bairro, com investimentos de R$ 18,9 milhões. Três dessas obras estão sendo executadas em Jardim Monte Verde, com um custo de R$ 4,6 milhões, e previsão de conclusão para ainda este ano, beneficiando 112 famílias residentes na área”. 

Os serviços incluem a construção de muros de arrimo, sistemas de drenagem eficientes e o reforço do solo, com o objetivo de mitigar os riscos de deslizamento e erosão. Leia a nota na íntegra. 

A prefeitura de Jaboatão dos Guararapes informou que “215 famílias residentes em Jardim Monte Verde continuam recebendo auxílio-moradia”. Segundo a administração pública, “houve famílias que deixaram de receber porque tiveram as casas desinterditadas, ou voltaram às casas mesmo interditadas ou saíram dos critérios para receber o benefício. E também 139 famílias que tiveram os cadastros indeferidos, por não atenderem aos critérios previstos em legislação”. 

A prefeitura do município informou que “encaminhou um plano habitacional ao governo federal com 420 unidades, para famílias que tiveram suas casas atingidas pelas chuvas, em 2022, e que continua em análise”.

Até a publicação, o governo de Pernambuco não tinha respondido aos questionamentos da reportagem sobre o andamento das obras estaduais na comunidade.

Edição:
Arnaldo Sete/MZ Conteúdo
Arnaldo Sete/MZ Conteúdo
Arnaldo Sete/MZ Conteúdo
Acervo AMCS/Ministerio Publico de Pernambuco
Acervo AMCS/Ministerio Publico de Pernambuco

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Assine nossas newsletters
Fique por dentro

Artigos mais recentes

Quase mil anúncios sobre Lula e Flávio na Meta foram pagos em dólar

|

Impulsionados por US$120 mil, conteúdos circularam sem rótulo de conteúdo político

Processos sobre desinformação e propaganda digital triplicam nas eleições de 2026

|

Até agora são mais de 9,5 mil processos na Justiça Eleitoral no 1º turno, contra 3,4 mil durante mesmo período em 2022

A “bancada” anti-indígena que vai às urnas neste domingo

|

Levantamento mostra que 370 parlamentares fizeram propostas negativas para indígenas; 270 deles disputam reeleição

O ex-senador Eduardo Suplicy é detido em reintegração de posse próximo a Cohab Educandário

Levantamento aponta um caso de violência política a cada 37 horas durante campanha de 2026

|

Monitoramento exclusivo da Pública por 17 dias chegou a 11 casos cujos agressores são, na maioria, agentes de segurança

Dos clubes de tiro ao poder: segmento de armas injeta mais de R$ 1,2 milhão nas eleições

|

Empresários do setor doaram para 96 candidatos – PL, Republicanos e Novo lideram recebimento de recursos

Visita à Heritage Foundation de Sérgio Sant'Ana e Eduardo Bolsonaro

Empresário que fundou Instituto com Eduardo Bolsonaro presta serviço para campanhas

|

Empresa de Sérgio Sant’Anna recebeu R$340 mil; empresário diz que ICL está “inativo” e que se afastou do ex-deputado

O senador Flávio Bolsonaro, durante sessão da Comissão de Desenvolvimento Regional do Senado

Flávio Bolsonaro, os hospitais federais e a pandemia de Covid no Rio de Janeiro

|

Contratos superfaturados, demissões e hospitais sucateados: como Flávio influenciou a saúde do Rio no governo do pai

Ex-jogador da seleção brasileira de basquete dos anos 1980 Nilo Guimarães. Ele foi secretário de esportes de Mogi da Cruzes, na região metropolitana de São Paulo, por 12 anos (2009-2020).

Empresa de ex-secretário de Esportes de Mogi recebeu dinheiro de emenda Pix de Mario Frias

|

Sócio de Nilo Guimarães na Pulsa Uniformes diz que material foi entregue, mas não envia comprovação

A execução de Davi Sebba e a teia de policiais que Goiás levou 14 anos para julgar

|

Letalidade policial quase triplicou em 2012, ano do crime; governador era Marconi Perillo, candidato ao cargo em 2026

Investigação e processos criminais: o rastro legal dos deputados da Comissão de Segurança

|

CSPCCO: 12 deputados ligados a forças de segurança foram parte em procedimentos criminais, que vão de calúnia a agressão

Rio de Janeiro (RJ), 08/03/2023 - Ato denúncia em frente à Câmara Municipal, organizado pelo campanha Levante Feminista contra o Feminicídio

Na Amazônia Legal, 9 em cada 10 vítimas de feminicídio em 2025 não tinham medida protetiva

|

Levantamento em oito estados mostra que mulheres morrem desprotegidas; recurso jurídico é alternativa para evitar crime