Buscar
Reportagem

Ex-secretário de Bolsonaro barra proposta brasileira na ONU sobre poluição plástica

Hoje no Ministério do Desenvolvimento, Washington Bonini admite influência da indústria de plásticos na decisão

Reportagem
28 de novembro de 2024
19:11
Este artigo tem mais de 1 ano

Nos adicione como fonte preferencial no Google.

Collab Media/Unsplash

BUSAN – Em meio às negociações da ONU que buscam chegar a um tratado pelo fim da poluição plástica, divergências internas dentro da delegação fizeram o Brasil desistir de enviar uma proposta de eliminação de plásticos problemáticos. 

Os produtos listados na proposta, à qual a reportagem teve acesso, são os plásticos de uso único – descartáveis como sacolas, canudos, copos, pratos e talheres –, cosméticos com microesferas plásticas, filtros de cigarro com plástico e produtos com plástico oxibiodegradável. 

O texto estava pronto para ser enviado ao Pnuma – o programa de meio ambiente da ONU, que conduz as negociações pelo tratado em Busan, na Coreia do Sul, até o próximo domingo (2). 

No entanto, a ação foi barrada por Washington Bonini, representante do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) na delegação brasileira em Busan. 

Por meio de mensagens em um grupo de WhatsApp que reúne a delegação, Bonini pediu na noite da quarta-feira (27), no horário de Busan (manhã de quarta no Brasil), que o Itamaraty segurasse a proposta. “Ou, se já enviaram, cancelem”, ele afirmou em mensagens obtidas pela Agência Pública. 

Servidor de carreira do governo federal desde 2007, Washington Bonini chegou ao seu cargo mais alto durante a gestão Bolsonaro, quando foi secretário-executivo adjunto do Ministério da Justiça. Bonini trabalhou sob o comando do então ministro Anderson Torres, a quem chegou a representar em compromissos oficiais. 

Atualmente no MDIC, ele chefia desde agosto de 2023 a divisão da indústria química na pasta. “Devido à minha experiência pretérita”, ele justificou sobre sua nomeação para a área. “Trabalhei com o tema ao longo da carreira, no [Ministério do] Planejamento, em vários ministérios.”

Questionado pela reportagem, Bonini afirmou que a decisão de impedir o envio da proposta brasileira visa a consultar Brasília sobre os impactos econômicos de possíveis banimentos. 

Ele se recusou a informar quem estaria sendo consultado em Brasília, mas admitiu ter sido alertado sobre dificuldades no banimento por associações do setor presentes na conferência em Busan -– a Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim) e a Associação Brasileira da Indústria do Plástico (Abiplast).

“O que eles me falaram é que é muito importante ter critério, não dá pra tirar um coelho da cartola e dizer que isso [um produto plástico específico] é ruim”, afirmou. 

O argumento é amplamente usado pela indústria para se opor às listas que especificam quais produtos e substâncias deveriam ser banidos. No entanto, a especificação decorre de critérios já acordados por especialistas reunidos pelo Pnuma. 

A proposta brasileira listava 20 critérios para a avaliação de plásticos problemáticos –- como a falta de reciclabilidade, danos à saúde humana e ao ambiente, presença de substâncias tóxicas e disponibilidade de alternativas, além de impactos socioeconômicos e viabilidade técnica.

“Cuidado é sempre bom. A gente não sabe muita coisa sobre as consequências das políticas que a gente tá colocando”, afirmou Bonini, em referência aos impactos econômicos das proibições de plásticos. 

Questionado sobre a existência de estudos de impacto econômico que pudessem basear a decisão de retirar a proposta brasileira da mesa de negociação da ONU, Bonini afirmou que essas análises não existem, mas que é possível partir da teoria geral de que, ao banir um produto, sua alternativa ficará mais cara no mercado. 

Ele reconheceu, no entanto, que o escalonamento das restrições até a proibição – que só passaria a valer entre 2030 e 2035 – permitiria ao mercado o tempo de adaptação necessário.  

Entre os exemplos que o preocupa, Bonini citou o banimento do PVC, largamente usado em encanamentos pela construção civil. 

O material contém diversas substâncias tóxicas. Entre elas está o ftalato, um disruptor endócrino que afeta a reprodução em homens e mulheres, além de produzir efeitos cognitivos como redução da capacidade de raciocínio e de compreensão verbal. A substância também é ligada a doenças cardiovasculares e ao aumento de alguns tipos de câncer. 

“As limitações que a gente tem na legislação brasileira não são banimentos, são limitações de conteúdo por massa e por aplicação”, apontou Bonini.  

Entretanto, um estudo publicado em 2021 na revista científica Environmental Health, da editora BioMed Central, mostrou que o ftalato pode ter efeitos na saúde humana mesmo em níveis 8 mil vezes abaixo dos limites estipulados como seguros por agências de saúde nos Estados Unidos e na Europa. 

Pressão da indústria petroquímica

A reportagem conversou com representantes da Abiquim, da Abiplast e também da Braskem – a gigante brasileira é a sexta maior petroquímica do mundo e se destaca pela fabricação de resinas como polietileno, polipropileno e também PVC (policloreto de vinila). 

A posição da indústria brasileira é coesa com o setor petroquímico no restante do mundo: totalmente contrária às listas de restrição a plásticos problemáticos e a substâncias químicas tóxicas liberadas por eles. 

As duas listas – dos plásticos e dos químicos – estão sendo rascunhadas em Busan sob forte bloqueio do grupo de países árabes, altamente dependentes da indústria petroleira. 

Junto à Alemanha, o Brasil assumiu a posição de cofacilitador das negociações em Busan com foco justamente no tema mais contencioso: a definição dos limites para a produção de plásticos problemáticos e das substâncias químicas ligadas a eles.

A reportagem apurou que a diplomacia brasileira buscaria fazer uma ponte entre os países com propostas mais rigorosas para o banimento – principalmente os europeus – e o grupo de países árabes, que se opõem a qualquer imposição internacional sobre suas economias. 

Em uma espécie de meio-termo, a proposta brasileira sugeria que a lista de produtos e químicos fosse compartilhada globalmente como recomendação, de modo que fique a cargo de cada país definir os prazos e as medidas cabíveis sobre cada produto nos territórios nacionais. 

Embora defina posições de Estado, o Itamaraty articula suas propostas com as pastas do governo federal que lidam com os assuntos em negociação. 

A praxe manda que os diplomatas só avancem proativamente em propostas nas negociações em que há acordo dentro do governo. 

A reportagem apurou que, para costurar a posição que o país levaria a Busan, os secretários-executivos do MDIC e do Ministério de Meio Ambiente (MMA) se reuniram em Brasília pouco antes da conferência, iniciada na segunda-feira (25), e acordaram uma posição conjunta, com diretrizes que davam sinal verde para o Itamaraty. 

Agora, a três dias do final da conferência, a diplomacia brasileira busca costurar um tratado pelo fim da poluição plástica sob uma mesma oposição dentro e fora de casa: a da indústria.

Edição:
Fernando Frazão/Agência Brasil
Divulgação/UNEP

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Assine nossas newsletters
Fique por dentro

Artigos mais recentes

Audiência Pública – ADI 8027/DF - no STF sobre proibição das bets no Brasil

Contas espalham conteúdo falso sobre bets nas redes enquanto STF discute proibição

|

Perfis no X/Twitter divulgam histórias irreais sobre apostas ao mesmo tempo em que audiência pública reúne lobistas

Com a 1ª vitória do PT em 12 anos, a cidade do Rio deixou de ser reduto bolsonarista?

|

Lula virou na capital fluminense, onde a família Bolsonaro ganhou 22 de 24 pleitos desde 1988

Pantanal entra oficialmente na rota da aridez, aponta plano do governo

|

Cientistas alertam que é preciso uma mudança na forma como o país produz alimentos e maneja a pecuária

Fuga de Flávio abre caminho para bolsonarismo abraçar políticos para além do sobrenome

|

Para Especialistas derrota eleitoral enfraquece herdeiros do ex-presidente, mas não elimina força política do movimento

‘Primavera Brasileira’: como ato de estudantes virou onda global contra extrema direita

|

Marcha em Niterói iniciou efeito borboleta progressista que contou com fandoms e Janones e hoje inspira outros países

Brasília (DF), 07/12/2025 - O Levante Mulheres Vivas realiza ato na área central de Brasília para denunciar o feminicídio e todas as formas de violência contra mulheres

‘O sistema do Estado é horrível’: Caraguatatuba é campeã em violência contra a mulher

|

A jornada de duas vítimas de violência doméstica em busca de acolhimento e justiça no litoral norte de São Paulo

Crianças brincam em rua do Complexo da Penha e Alemão

Um ano após chacina, as crianças da Penha precisam voltar a ser crianças

|

Enquanto políticos que apoiaram operação foram eleitos, moradores pedem olhar humano para comunidade

A fuga de Flávio Bolsonaro: a verdadeira rota que levou o senador de Brasília até Miami

|

Muita desinformação sobre o paradeiro do candidato derrotado circulou, mas ele só saiu do Brasil às 22h50 de terça (27)

Bolsonaristas fogem da Justiça e se espalham por ao menos quatro países

|

Só nos EUA, estão Eduardo Bolsonaro, Paulo Figueiredo, Allan dos Santos e Alexandre Ramagem

Parlamentares dos EUA cobram Meta por tratamento desigual a Lula

|

Bernie Sanders e 12 deputados questionaram a empresa sobre interferência eleitoral no Brasil