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Antes de virar presidente da Câmara, Hugo Motta comprou gado do ex-presidente Arthur Lira

Questionado sobre relação política de transação feita um ano antes de anúncio de apoio de Lira, Motta não quis comentar

Reportagem
13 de fevereiro de 2025
12:10
Este artigo tem mais de 1 ano

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À direita o novo presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta, e à esquerda o ex-presidente da câmara, Arthur Lira
Mário Agra/Câmara dos Deputados

A relação entre o atual e o ex-presidente da Câmara dos Deputados vai além da política e envolve também transações no ramo da pecuária. Um ano antes de anunciar apoio a Hugo Motta (Republicanos-PB) para sucedê-lo na presidência da Casa, Arthur Lira (PP-AL) e seu pai, Benedito de Lira (falecido em janeiro deste ano), venderam 88 cabeças de gado à empresa do parlamentar, a Agropecuária Tapuio.  

As negociações envolveram as fazendas Pantaneiro e Taquari, que pertencem a Arthur Lira desde 2004 e 2006, respectivamente, apesar de elas não terem sido declaradas pelo político à Justiça Eleitoral, como revelou o Congresso em Foco. Desde 2006, Lira não declara também quantas cabeças de gado possui, embora seja reconhecido como grande criador da raça Nelore, com touros de superioridade genética.

Considerando o leilão realizado pelo próprio Arthur Lira, com filhotes negociados a no mínimo R$ 3,9 mil, no mesmo mês e ano da venda a Hugo Motta, a transação entre os parlamentares pode ter passado dos R$ 340 mil.

Por que isso importa?

  • As relações entre figuras de poder antes, durante e após o exercício de cargos importantes devem ser acompanhadas pelo público e pela imprensa em nome da defesa da democracia.

A informação das três vendas de gado ao atual presidente da Câmara consta nas Guias de Trânsito Animal (GTAs) – documento exigido por lei para movimentações de gado, seja entre propriedades do mesmo dono ou para comercialização – divulgadas pela Agência de Defesa e Fiscalização Agropecuária do Estado de Pernambuco (Adagro/PE). 

De acordo com as GTAs, emitidas no dia 26 de outubro de 2023, 88 bois de até um ano de idade foram transportados das fazendas de Arthur Lira em Quipapá (PE) e Panelas (PE) para propriedade em Serraria (PB). O nome do produtor registrado como destinatário dos animais foi a Agropecuária Tapuio, nome fantasia da empresa Hugo M Wanderley da Nóbrega Ltda.

A Agropecuária Tapuio, aberta em 2019, tem como atividade econômica principal a criação de bovinos para corte, segundo dados da Receita Federal, tem Motta indicado como sócio-administrador e possui R$ 100 mil de capital social.

Uma das GTAs mostra que 40 cabeças de gado registradas no CPF de Arthur Lira saíram da fazenda Pantaneiro, em Panelas, para a fazenda Tapuio, enquanto outras duas GTAs – uma contabilizando 40 cabeças de gado e outra, oito – informam que os animais, registrados no nome de Benedito de Lira, foram transportados da fazenda Taquari, em Quipapá, com o mesmo destino.  

O ex-presidente da Câmara dos Deputados Arthur Lira é proprietário também das fazendas Pedras, Tapera, Paudarqueiro, Padre Cícero e Santa Maria, localizadas no município de São Sebastião (AL), conforme sua declaração ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em 2022, última eleição que ele disputou.

Já a fazenda Tapuio pertence à família de Hugo Motta desde março de 2023. Uma reportagem do UOL de outubro do ano passado mostrou que a propriedade foi adquirida por R$ 2,7 milhões por uma empresa registrada em nome da esposa e dos filhos de Motta, a Medeiros & Medeiros Ltda. De acordo com o site, a fazenda possui 287 hectares e pertencia ao empresário e ex-senador Raimundo Lira, que doou R$ 40 mil à campanha a deputado federal de Motta em 2022. 

A Agência Pública questionou ao deputado Hugo Motta os valores da compra e se a negociação teve relação com a disputa pelo comando da Câmara, mas o presidente da Câmara preferiu não comentar o assunto. A reportagem entrou em contato com Arthur Lira por email e telefone, por meio de sua assessoria de imprensa, mas até o momento o deputado não se pronunciou. Em caso de resposta, este espaço será atualizado.

Leilão milionário de Lira reuniu políticos de vários partidos 

As GTAs divulgadas pela Adagro Pernambuco foram emitidas quase 20 dias após Arthur Lira, então presidente da Câmara, ter realizado um grande leilão na fazenda Santa Maria, em São Sebastião (AL). Foi o segundo evento do gênero promovido pela D’Lira Agropecuária – empresa da qual ele é sócio com a esposa, Ângela Maria Gomes de Almeida Lira – e, à época, também com o pai, Benedito de Lira. 

O 2º Leilão Nelore Lira, realizado em 7 de outubro de 2023, atraiu ministros, parlamentares e grandes empresários. “A gente faz política, mas o Nelore, o agronegócio, a gente faz com coração”, discursou o anfitrião na ocasião. 

Os lances para compra de bezerros de até 12 meses foram transmitidos no canal da Agreste Leilões no YouTube por mais de quatro horas. Os valores variaram de R$ 3,9 mil a R$ 4,5 mil e as vendas, que incluíram também touros e fêmeas, renderam cerca de R$ 4 milhões a Arthur Lira.  

O nome de Hugo Motta e da Agropecuária Tapuio não foram citados ao longo da transmissão online. Entre os políticos que arremataram lances anunciados, além de prefeitos e deputados estaduais, estão os deputados federais Gilvan Máximo (Republicanos-DF), Vicentinho Júnior (PP-TO) e Félix Mendonça Júnior (PDT-BA) e o governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB).

Também estava presente no evento o presidente nacional do PP, o senador Ciro Nogueira, que foi quem costurou o nome de Hugo Motta para a sucessão à presidência da Câmara. Lira tinha como preferido para assumir a cadeira que ocupou por quatro anos o deputado federal Elmar Nascimento (União-BA) – também presente no leilão. 

Em 29 de outubro de 2024, Arthur Lira anunciou apoio ao deputado do Republicanos para disputar o comando da Câmara. Hugo Motta foi eleito em 1º de fevereiro de 2025, com 444 votos, dos 513 parlamentares. Com exceção do Novo,  do Psol e da Rede, ele recebeu apoio de todos os partidos, do PT do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao PL do ex-presidente Jair Bolsonaro. Com 35 anos, Motta é o mais jovem deputado na história a ocupar a presidência da Câmara.

Nepo babies na presidência da Câmara

Assim como Arthur Lira, que herdou os votos do pai em Alagoas, Hugo Motta faz parte de uma família de políticos, no caso dele, do sertão da Paraíba. 

O primeiro da dinastia foi seu avô, eleito prefeito de Patos (PB) em 1956. Cinquenta anos depois, o mesmo cargo foi ocupado pela avó, Francisca Motta (Republicanos), hoje deputada estadual. Desde 2020, o pai, Nabor Wanderley (Republicanos) ocupa a cadeira do executivo municipal. O avô materno, Edivaldo Motta, também tem trajetória política, tendo sido vereador de Patos entre 1987 e 1992.

O caçula da família na política começou a carreira como deputado federal. Sua primeira eleição foi em 2010, aos 21 anos, sendo até hoje o parlamentar mais jovem a ser eleito à Câmara dos Deputados. Hugo Motta está em seu quarto mandato. 

Filiado ao MDB entre 2010 e 2018, ele foi um dos membros da “tropa de choque” do ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha, à época do mesmo partido. A filha de Cunha, Danielle da Cunha (União-RJ), hoje deputada federal, chegou a trabalhar para Motta como assessora de marketing, em 2015. A proximidade do atual presidente da Câmara com Cunha é, aliás, outra semelhança do seu histórico político com o de Lira.

Edição:
Matheus Pigozzi/Agência Pública
Matheus Pigozzi/Agência Pública
Reprodução/YouTube
Marina Ramos/Câmara dos Deputados

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