Buscar
Coluna

Favela do moinho: gestão Tarcísio faz lembrar Odete Roitman

Despejos e violência policial mostram que, como a vilã da novela, o governo de São Paulo “não gosta de pobre”

Coluna
19 de abril de 2025
06:00
Este artigo tem mais de 1 ano
Não deixe a Publica sumir
Nos adicione como fonte preferencial no Google.

Quer receber os textos desta coluna em primeira mão no seu e-mail? Assine a Newsletter da Pública, enviada sempre às sextas-feiras, 8h. Para receber as próximas edições, inscreva-se aqui. 

Moro no centro de São Paulo, próximo ao “Minhocão”, a excrescência arquitetônica criada pelo ex-prefeito Paulo Maluf, que separou definitivamente o bairro de Campos Elíseos, agora em processo de gentrificação, de bairros há muito valorizados como Santa Cecília e Higienópolis.

Aqui também vive boa parte dos quase 100 mil moradores de rua da capital mais rica do país, reflexo de políticas públicas elitistas, equivocadas ou simplesmente ausentes.

Para ficar em um número: o déficit habitacional em São Paulo ultrapassa 400 mil moradias, de acordo com o Censo de 2022, que também apontou quase 590 mil imóveis vazios na capital paulista. Há método no caos aparente.

Quando cruzo a avenida embaixo do viaduto, sinto o constrangimento de invadir moradias daqueles que, com muito pouco, conseguem criar um lar onde vivem crianças, idosos e até animais de estimação. Às vezes, surge um vazio ainda mais triste, provocado por operações da prefeitura que retiram pertences, colchões, cobertores para “higienizar” a cidade que escolhe quem acolher.

No ano passado, durante a inauguração do Parque Princesa Isabel – parte do megaprojeto de Tarcísio de Freitas para mudança da sede administrativa do governo -, o vice-governador Felício Ramuth disse que o governo pretende “devolver o centro da cidade para o cidadão de bem” e transformá-lo no “espaço mais vigiado e seguro” da capital.

Os cidadãos do “mal”, na declaração cristalina de Ramuth, são os pobres que ousam viver no centro, como sabe a camareira Simone Ferreira, moradora de uma das cinco quadras que serão demolidas para dar lugar ao projeto do governo estadual, uma parceria público privada de 4 bilhões de reais.

“Neste lugar, para eles, só tem bandido, pessoas que não prestam. É um preconceito racial. E agora vem o governador dizer que vai desapropriar esse lugar para colocar a classe média”, explicou Simone ao Intercept, depois de ser expulsa de sua casa com um papel na mão que seria a garantia de uma unidade habitacional no CDHU, ainda em construção.

A mesma promessa foi feita aos moradores da Favela do Moinho, alvo principal do ódio higienista de diversos prefeitos e governadores paulistas. Dessa vez, a expulsão vem pra valer, e dará espaço para um parque que compõe a planejada esplanada chique de Tarcísio e de seus sócios privados na especulação imobiliária.

Nos próximos dias, cerca de 900 famílias deixarão paulatinamente suas casas na favela do Moinho sem saber como irão viver com um auxílio aluguel de 800 reais (valor irrisório até para alugar um barraco em São Paulo) até que os conjuntos habitacionais fiquem prontos – sem prazo definido.

No centro só há moradia planejada para 100 famílias, as demais não sabem nem onde irão viver. Obviamente, para o governador, quanto mais longe do centro, melhor.

A reivindicação dos moradores da favela do Moinho era a regularização da área em que estão há décadas, que recentemente conseguiu ser atendida, ainda que precariamente, pelos serviços de água e luz. Ou pelo menos, que o acordo com o governo fosse feito chave-a-chave: eles sairiam de casa somente com a chave da nova moradia em mãos.

A vitória da gestão Tarcísio contra os “não-cidadãos” veio na sequência de operações policiais violentas na favela a pretexto de prender os traficantes da cracolândia, que fica ali perto. A última agressão policial ocorreu no último dia 15, quando o protesto dos moradores foi reprimido com bombas.

Com isso, boa parte dos moradores foi vencida pelo medo de ser despejada e ficar sem nada e aderiu à proposta habitacional do governo, apesar das incertezas que a cercam.

O governo diz que 86% dos moradores aceitaram deixar suas casas em troca de uma carta de crédito de 250 mil reais para comprar outro imóvel, que será paga em parcelas correspondentes a 20% da renda familiar. Uma despesa, além das taxas de condomínio, que eles não sabem se serão capazes de pagar, e que pode se estender por 30 anos.

Mais: para obter o imóvel – com metragem que varia de 20 a 40m2, é preciso ter renda superior a um salário mínimo, o que exclui uma boa parcela dos moradores, que chegaram a relatar terem sido orientados a mentir no cadastro para não ficarem fora do programa. Ou seja, o valor das parcelas pode representar bem mais do que os 20% prometidos.

Isso, se conseguirem a moradia, porque, não custa repetir, a maioria das unidades não foi sequer construída – o que pode demorar anos enquanto a PPP segue em ritmo frenético de eleições no ano que vem, provavelmente com Tarcísio candidato a presidente.

Como sabem os políticos, fazer obra dá dinheiro público para muita gente que tem bons lugares para morar. Inclusive no centro. Desde “que não tenham um bando de mendigos na porta tentando nos agarrar”, como dizia Odete Roitman, a vilã da novela global “Vale Tudo”, ainda hoje símbolo de uma elite egoísta e corrupta, servida por governantes de olho em seus próprios benefícios.

Trinta e sete anos depois da primeira versão da novela, que coincidiu com a promulgação da Constituição cidadã, o país da desigualdade, que o centro paulistano tão bem espelha, continua a mostrar sua cara.

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Se você chegou até aqui é porque realmente valoriza nosso jornalismo. Conheça e apoie o Programa dos Aliados, onde se reúnem os leitores mais fiéis da Pública, fundamentais para a gente continuar existindo e fazendo o jornalismo valente que você conhece. Se preferir, envie um pix de qualquer valor para contato@apublica.org.

Vale a pena ouvir

EP 230 O que é o Partido Digital Bolsonarista? – com Marcos Nobre

Professor e pesquisador, Marcos Nobre, fala sobre as mudanças estruturais na forma de fazer política no Brasil

0:00

Aviso

Este é um conteúdo exclusivo da Agência Pública e não pode ser republicado.

Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Newsletter

Saiba de tudo que investigamos

Assinar
Fique por dentro

Receba conteúdos exclusivos da Pública de graça no seu email.

Assinar

Artigos mais recentes

Investigados por desinformação e tentativa de golpe seguem ativos nas redes em 2026

|

Ao menos dez alvos de inquéritos no STF e TSE em eleições passadas continuam publicando sobre o pleito deste ano

Tingir o chão de sangue: propostas de Renan Santos para segurança vão contra Constituição

|

Candidato do MBL defende prisão, mortes e vingança em discurso emocional contra a violência

Partido da farda: número de candidatos policiais ou militares passa de 1,2 mil

|

Bancada de policiais no Legislativo direciona recursos para a Polícia Militar, enquanto resolução de crimes segue baixa

Quase quatro a cada dez indígenas em terras na Amazônia não têm acesso adequado a água

|

Ao todo, 38% não tem água tratada ou fontes como poços e nascentes, dependendo de rios e lagos, muitos contaminados

Sob Lula, assassinatos de indígenas sobem 22% em 2025 e superam média da era Bolsonaro

|

Após queda em 2023, número de mortos volta a subir e chega a 258; Marco Temporal é parte do problema, diz Cimi

Corrida por Data Centers gera denúncias de violações trabalhistas em São Paulo

|

Trabalhadores relatam assédio, acidentes e adoecimento. Empresas alegam cumprir lei trabalhista e normas de segurança

Fazer falar os ossos: a rotina de quem procura os desaparecidos da ditadura

|

Mostra no Centro MariAntonia (USP), em São Paulo, expõe o trabalho de peritos na identificação dos mortos na ditadura

“Onde tem malária, tem garimpo”: cinta larga aguardam decisão do STF sobre mineração

|

Julgamento nesta quinta-feira, 13, pode abrir caminho para mineração em terras indígenas entre Rondônia e Mato Grosso

Banco do Nordeste e Itaú financiam R$ 44 milhões para soja em área de conflito no Maranhão

|

Investidora paulista consegue autorizações de desmatamento e sinal verde na Justiça em disputa contra extrativistas