Buscar
Coluna

Gil e Preta: a dor insuportável diante do sofrimento dos filhos

A beleza do encontro amoroso de pai e filha emocionou a plateia que sabe o que é sofrer pela dor de alguém querido

Coluna
3 de maio de 2025
06:00
Este artigo tem mais de 1 ano
Não deixe a Publica sumir
Nos adicione como fonte preferencial no Google.

Quer receber os textos desta coluna em primeira mão no seu e-mail? Assine a Newsletter da Pública, enviada sempre às sextas-feiras, 8h. Para receber as próximas edições, inscreva-se aqui.

Ofereço uma pausa no noticiário para falar de um assunto permanente e sempre urgente: a dor que toma conta de pais e mães diante do sofrimento de um filho.

Fui levada a reviver esse sentimento ao assistir o encontro de Gilberto Gil com a filha Preta no final da turnê “Tempo Rei” em São Paulo, no sábado passado. Gil, na plenitude, aos 82 anos; Preta, 50 anos, lutando há mais de dois anos contra um câncer de intestino.

Nem tenho coragem de pensar na possibilidade terrível da perda de um filho; já é o suficiente dizer o que a gente sente quando vê sofrer aquela criatura tão amada que você tem como missão proteger.

Na minha experiência, uma mistura de impotência e culpa por não poder transferir para si aquela dor junto com um desejo desesperado de aliviar o sofrimento tão injusto.

Por que meu filho e não eu?

A serenidade de Gil, que sabe falar com Deus, talvez dispense essa revolta, mas reconheci sua emoção ao receber a filha em sofrimento e recordei o orgulho que senti no pai pela força da sua menina em lidar com a própria dor.

Preta veio com o brilho do amor e a dignidade substantiva dos que lutam para sobreviver. Nem diante do choro do pai, perdeu a limpidez da voz e a precisão dos versos de “Drão”, a canção que fala de amor eterno na separação.

Tive a impressão de que em alguns momentos Preta pedia com o olhar que Gil entrasse no dueto, mas seguia levando a canção até que ele recuperasse o fôlego para cantar.

Aquela foi a “Drão” que Preta cantou para Gil no palco majestoso do pai. Um pai que é também um orixá, uma entidade, como ela sabe desde pequena.

Como muitos naquele estádio lotado na noite do sábado, chorei de mãos dadas com a minha filha. Senti uma gratidão imensa por aquele momento, por Gil e por Preta, e por tantos artistas que me acompanham sempre entre dores e amores. 

Lembrei de uma entrevista feita com ela pelo ator Lázaro Ramos, em que ele perguntou sobre o furor com que foi recebido seu primeiro álbum, em que Preta aparece nua na capa. Ela disse que não ligou e até comemorou quando seu pai disse que a foto era “bonita, mas desnecessária” – “Olha Gilberto Gil sendo careta!”, pensou – para mais tarde, depois de execrada publicamente pela ousadia, reinterpretar o gesto paterno como uma tentativa amorosa – e inútil – de proteção.

Mas, como diz a canção, o verdadeiro amor é vão.

Mãe desde os 20 anos, ela explicou: “É o que diz aquela letra do meu tio Caetano, ‘cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é’. A gente não tem como proteger nossos filhos de viver, de passar pelas experiências. Eu precisei ser muitas vezes atacada, agredida para ser o que sou hoje. E hoje eu não sou só eu. Eu sou muita gente que se identificou comigo, que se sentiu agredida junto comigo, se sentiu defendida comigo quando eu me levantei”.

Na mesma entrevista, Preta também comentou a “onda avassaladora de amor” que chegou a ela quando recebeu o diagnóstico, a traição cruel do ex-marido que a abandonou em uma cama de hospital e falou do futuro. “Quero viver muito o aqui e o agora, como meu pai canta, e eu quero que essa dança continue porque eu quero bailar até o fim”.

Preta Maria Gadelha Gil Moreira deixou o palco aplaudida de pé, com uma multidão gritando o seu nome como fez tantas vezes durante o show com o nome do pai, Gilberto Gil, o senhor do Tempo Rei, que já ensinou que não tem medo da morte, tem medo é de morrer.

O show seguiu dançante, com as bênçãos de todos os santos para o grão eterno do amor de Preta e Gil, de Gil e Drão, e para todos os que se amam de verdade nessa caminhadura, dura caminhada, pela vida afora.

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Aviso

Este é um conteúdo exclusivo da Agência Pública e não pode ser republicado.

Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Assine nossas newsletters
Fique por dentro

Artigos mais recentes

Se não pelas mulheres, por quem? O que defendem deputados que se opõem ao PL da Misoginia

|

Relembrar é votar: Votos de deputados sobre pautas de gênero e direitos humanos ajudam a indicar quem eles representam

Visita à Heritage Foundation de Sérgio Sant'Ana e Eduardo Bolsonaro

Empresário que fundou Instituto com Eduardo Bolsonaro presta serviço para campanhas

|

Empresa de Sérgio Sant’Anna recebeu R$340 mil; empresário diz que ICL está “inativo” e que se afastou do ex-deputado

O senador Flávio Bolsonaro, durante sessão da Comissão de Desenvolvimento Regional do Senado

Flávio Bolsonaro, os hospitais federais e a pandemia de Covid no Rio de Janeiro

|

Contratos superfaturados, demissões e hospitais sucateados: como Flávio influenciou a saúde do Rio no governo do pai

Ex-jogador da seleção brasileira de basquete dos anos 1980 Nilo Guimarães. Ele foi secretário de esportes de Mogi da Cruzes, na região metropolitana de São Paulo, por 12 anos (2009-2020).

Empresa de ex-secretário de Esportes de Mogi recebeu dinheiro de emenda Pix de Mario Frias

|

Sócio de Nilo Guimarães na Pulsa Uniformes diz que material foi entregue, mas não envia comprovação

A execução de Davi Sebba e a teia de policiais que Goiás levou 14 anos para julgar

|

Letalidade policial quase triplicou em 2012, ano do crime; governador era Marconi Perillo, candidato ao cargo em 2026

Investigação e processos criminais: o rastro legal dos deputados da Comissão de Segurança

|

CSPCCO: 12 deputados ligados a forças de segurança foram parte em procedimentos criminais, que vão de calúnia a agressão

Rio de Janeiro (RJ), 08/03/2023 - Ato denúncia em frente à Câmara Municipal, organizado pelo campanha Levante Feminista contra o Feminicídio

Na Amazônia Legal, 9 em cada 10 vítimas de feminicídio em 2025 não tinham medida protetiva

|

Levantamento em oito estados mostra que mulheres morrem desprotegidas; recurso jurídico é alternativa para evitar crime

Nossa Senhora Aparecida vira evento eleitoral e aprofunda crise entre ministros do STF

|

Monitoramento mostra que debate nas redes ultrapassou boato inicial e passa de 12 milhões de interações em poucos dias

Fachada do Congresso Nacional, em Brasília.

Os candidatos das Big Techs nas eleições 2026

|

Levantamento mostra quais políticos brasileiros têm atuado a favor dos interesses das grandes corporações de tecnologia

Antonio Cezar Correia Freire, conhecido como Cezinha de Madureira, é um jornalista, radialista e político brasileiro, filiado ao Partido Liberal. Deputado federal por São Paulo desde 2019

Valéria Linhares nega relação com Cezinha de Madureira mas foi sócia de seu filho em rádio

|

Deputado do PL e advogada são investigados por tráfico de influência em tribunais superiores e ligados a André Mendonça