Buscar
Reportagem

Quem é o líder sindical detido nos protestos de imigrantes na Califórnia?

David Huerta lutou durante décadas pelo aumento de salários para zeladores e outros trabalhadores antes de ser detido

Reportagem
10 de junho de 2025
12:00
Este artigo tem mais de 1 ano
Não deixe a Publica sumir
Nos adicione como fonte preferencial no Google.
David Huerta, líder sindical detido por agentes federais dos Estados Unidos (EUA) durante um protesto contra a imigração em Los Angeles
Reprodução NBC

O líder sindical detido por agentes federais dos Estados Unidos (EUA) durante um protesto contra a imigração em Los Angeles na semana passada é bastante conhecido por líderes democratas da Califórnia, por seus anos de ativismo dentro e fora do Capitólio. 

Por isso, vários democratas influentes saíram rapidamente em sua defesa.

David Huerta, presidente de 58 anos de um sindicato estadual de zeladores e da SEIU Califórnia (Sindicato Internacional dos Empregados em Serviços da Califórnia), foi preso por agentes federais na sexta-feira (6), em frente a um galpão têxtil de Los Angeles, onde manifestantes se reuniram para acompanhar e protestar contra o que parecia ser uma batida contra imigrantes na cidade.

Denúncias e manifestações de apoio a Huerta surgiram rapidamente.

“David Huerta é um líder respeitado, um patriota e um defensor da classe trabalhadora”, declarou o governador da Califórnia, Gavin Newsom, em nota. “Ninguém deveria ser prejudicado por testemunhar uma ação do governo.”

Promotores federais estão acusando Huerta de obstrução de um agente federal — crime que pode resultar em até seis anos de prisão. Ele foi liberado na segunda-feira (9), após pagamento de fiança e sob a condição de ficar a 100 metros de distância dos agentes federais. 

O sindicato afirma que ele estava protestando de forma pacífica. Os senadores democratas Alex Padilla e Adam Schiff, e o líder da maioria democrata no Senado, Chuck Schumer, enviaram uma carta ao Departamento de Segurança Interna pedindo uma revisão da prisão de Huerta.

Na SEIU Califórnia, Huerta lidera um sindicato com cerca de 750 mil membros que é uma força de peso na política estadual. A entidade representa um amplo grupo de trabalhadores, de enfermeiros e pesquisadores universitários a zeladores e funcionários do setor público.

O sindicato é um dos principais doadores dos candidatos democratas; o apoio, com o logotipo roxo da instituição, é considerado um símbolo de prestígio para alguns parlamentares. Entre suas vitórias recentes está a conquista de um salário mínimo de US$ 25/hora para todos os trabalhadores de estabelecimentos de saúde.

“Todo mundo o conhece”, disse Lorena Gonzalez, líder da Federação do Trabalho da Califórnia, organização estadual influente que reúne sindicatos. Huerta também é vice-presidente do conselho da federação. “Ele está no movimento há muito tempo. Nós acionamos o alarme e todos se organizaram para protestar.”

Huerta é cidadão dos EUA. Segundo ele, seus avós imigraram do México para trabalhar no campo, e seu pai era membro do sindicato Teamsters, que reúne trabalhadores da limpeza desde os anos 1990. A instituição liderou greves históricas por salários em Los Angeles e está envolvida com a pauta migratória há décadas.

Quando as autoridades federais — então atuando por meio do extinto Serviço de Imigração e Naturalização — realizaram operações nos aeroportos da Califórnia após os atentados de 11 de setembro de 2001, visando trabalhadores imigrantes em situação irregular, como faxineiros e carregadores de bagagem, Huerta defendeu reformas que permitissem a regularização desses trabalhadores.

Como líder da SEIU United Service Workers West, que representa zeladoras e seguranças em todo o estado, ele tem priorizado aulas de inglês e acesso à cidadania para os membros. Em 2016, seu sindicato conseguiu aprovar uma legislação estadual que estabeleceu treinamentos e garantias mais robustas contra assédio para zeladoras, que muitas vezes enfrentam agressões sexuais ao trabalhar sozinhas no turno da noite.

O presidente do Senado da Califórnia, Mike McGuire, criticou as “táticas fascistas” do Serviço de Imigração e Controle de Alfândega (ICE). O senador federal democrata Adam Schiff classificou a prisão como “parte de uma campanha mais ampla de intimidação da Casa Branca.”

Na manhã de sábado, líderes democratas do Congresso em todo o país já estavam criticando as operações e pedindo a libertação de Huerta.

As autoridades federais acusam Huerta de obstruir agentes, embora as circunstâncias da prisão ainda estejam confusas. Um vídeo publicado na sexta-feira (6) nas redes sociais pelo deputado estadual democrata Isaac Bryan parece mostrar agentes com coletes policiais empurrando Huerta ao chão, enquanto manifestantes protestam ao redor.

Bill Essayli, procurador federal em Los Angeles, afirmou nas redes sociais que Huerta teria “obstruído deliberadamente” agentes federais que portavam um mandado judicial, bloqueando o carro deles. Ciaran McEvoy, porta-voz do escritório de Essayli, se recusou a divulgar o mandado de prisão, limitando-se a dizer que os agentes estavam “investigando empregadores e empresas suspeitas de não cumprir as leis federais de imigração”.

O líder sindical foi detido no Centro Metropolitano de Detenção federal, no centro de Los Angeles, e teve uma audiência preliminar marcada para segunda (9), acusado de conspiração para obstruir um agente.

Na acusação criminal apresentada no domingo (8), um agente especial do Departamento de Segurança Interna acusou Huerta de se organizar com outros manifestantes, “impedindo de forma efetiva que os veículos das autoridades entrassem ou saíssem do local pelo portão para executar o mandado de busca”.

“Pessoas trabalhadoras, membros da nossa família e da nossa comunidade, estão sendo tratadas como criminosas”, disse Huerta em um comunicado divulgado pela SEIU Califórnia após ter sido atendido no hospital por ferimentos sofridos durante a prisão na sexta-feira. “Todos nós temos que nos opor coletivamente a essa loucura, porque isso não é justiça.”

“Ele representa um sindicato composto majoritariamente por mulheres imigrantes,” afirmou Lorena Gonzalez. “É uma voz constante e coerente em defesa dos trabalhadores imigrantes, e tem estado na linha de frente da luta por um caminho para a cidadania, pelo fim das deportações e das batidas migratórias nos locais de trabalho.”

No galpão onde Huerta foi preso na sexta-feira, um grupo de defensores dos trabalhadores e outros manifestantes se reuniu para observar a atuação de agentes federais na loja Ambiance Apparel; mais uma batida contra imigrantes também foi registrada em outra loja da empresa no distrito de roupas no centro de Los Angeles.

O ICE informou que cumpriu quatro mandados de busca naquele dia, prendendo 44 imigrantes que estavam nos EUA sem autorização, todos durante batidas em locais de trabalho.

Esta matéria foi originalmente publicada no CalMatters. As newsletters do site podem ser assinadas aqui.

J.W. Hendricks, CalMatters

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Assine nossas newsletters
Fique por dentro

Artigos mais recentes

Quase mil anúncios sobre Lula e Flávio na Meta foram pagos em dólar

|

Impulsionados por US$120 mil, conteúdos circularam sem rótulo de conteúdo político

Processos sobre desinformação e propaganda digital triplicam nas eleições de 2026

|

Até agora são mais de 9,5 mil processos na Justiça Eleitoral no 1º turno, contra 3,4 mil durante mesmo período em 2022

A “bancada” anti-indígena que vai às urnas neste domingo

|

Levantamento mostra que 370 parlamentares fizeram propostas negativas para indígenas; 270 deles disputam reeleição

O ex-senador Eduardo Suplicy é detido em reintegração de posse próximo a Cohab Educandário

Levantamento aponta um caso de violência política a cada 37 horas durante campanha de 2026

|

Monitoramento exclusivo da Pública por 17 dias chegou a 11 casos cujos agressores são, na maioria, agentes de segurança

Dos clubes de tiro ao poder: segmento de armas injeta mais de R$ 1,2 milhão nas eleições

|

Empresários do setor doaram para 96 candidatos – PL, Republicanos e Novo lideram recebimento de recursos

Visita à Heritage Foundation de Sérgio Sant'Ana e Eduardo Bolsonaro

Empresário que fundou Instituto com Eduardo Bolsonaro presta serviço para campanhas

|

Empresa de Sérgio Sant’Anna recebeu R$340 mil; empresário diz que ICL está “inativo” e que se afastou do ex-deputado

O senador Flávio Bolsonaro, durante sessão da Comissão de Desenvolvimento Regional do Senado

Flávio Bolsonaro, os hospitais federais e a pandemia de Covid no Rio de Janeiro

|

Contratos superfaturados, demissões e hospitais sucateados: como Flávio influenciou a saúde do Rio no governo do pai

Ex-jogador da seleção brasileira de basquete dos anos 1980 Nilo Guimarães. Ele foi secretário de esportes de Mogi da Cruzes, na região metropolitana de São Paulo, por 12 anos (2009-2020).

Empresa de ex-secretário de Esportes de Mogi recebeu dinheiro de emenda Pix de Mario Frias

|

Sócio de Nilo Guimarães na Pulsa Uniformes diz que material foi entregue, mas não envia comprovação

A execução de Davi Sebba e a teia de policiais que Goiás levou 14 anos para julgar

|

Letalidade policial quase triplicou em 2012, ano do crime; governador era Marconi Perillo, candidato ao cargo em 2026

Investigação e processos criminais: o rastro legal dos deputados da Comissão de Segurança

|

CSPCCO: 12 deputados ligados a forças de segurança foram parte em procedimentos criminais, que vão de calúnia a agressão

Rio de Janeiro (RJ), 08/03/2023 - Ato denúncia em frente à Câmara Municipal, organizado pelo campanha Levante Feminista contra o Feminicídio

Na Amazônia Legal, 9 em cada 10 vítimas de feminicídio em 2025 não tinham medida protetiva

|

Levantamento em oito estados mostra que mulheres morrem desprotegidas; recurso jurídico é alternativa para evitar crime