Buscar
Crônica

Arrumador de alma

Num mundo que desse à sensibilidade e à beleza o lugar que merecem, existiria o ofício de arrumador de almas

Crônica
23 de agosto de 2025
04:00
Este artigo tem mais de 1 ano

Nos adicione como fonte preferencial no Google.

Estava na cara que ia acontecer, e aconteceu. A fechadura vinha avisando, cada dia era mais difícil entrar em casa, até que no sábado passado simplesmente não consegui. Tive que chamar o chaveiro, que chegou depois de meia hora, deu um tranco na porta e ela abriu. E lá se foi toda a grana que me pagaram um dia antes por uma resenha literária. “É caro assim por ser fim de semana?”, perguntei quase com lágrimas nos olhos. “Não, o preço é esse mesmo sempre”, respondeu o rapaz já pronto para ir embora.

Expliquei a ele que ter aberto a porta não era suficiente porque o problema era a fechadura. Se ele não a consertasse, eu não poderia sair de casa — ou melhor, não conseguiria voltar a entrar em casa uma vez que saísse à rua. Ele argumentou que não tinha como trocar a fechadura porque não tinha no carro nenhuma daquele modelo. E, além de tudo, tinha pressa pois já havia outra pessoa à sua espera. 

Chorei as pitangas e consegui convencê-lo a fazer algo para que eu não ficasse o fim de semana preso em casa. Meio a contragosto, o rapaz desmontou a fechadura, desapertou aqui, apertou ali, passou um óleo, rodou a chave algumas vezes, abriu e fechou a porta, e depois decretou que estava arrumada. “Normalmente não faço isso não, viu. Já cobro uma fechadura nova”, afirmou. Juntou rapidamente as ferramentas, apresentou a maquininha do débito com os três dígitos (que ainda me provocavam incredulidade) brilhando no visor, e foi embora ganhar dinheiro em outra freguesia. 

Fechei a porta com cuidado, rodei a chave e comprovei que o problema estava resolvido. Fui até a sacada e vi o rapaz cruzar a rua com a sua caixinha de ferramentas na mão. Caminhei até a cozinha para preparar um café, olhei novamente para a porta e pensei que o contrário nunca aconteceria, aquele homem nunca me ligaria aflito num sábado à tarde para requisitar os meus serviços. Mas bem que poderia. Se vivêssemos num mundo em que a sensibilidade e a beleza ocupassem o lugar que merecem, certamente existiria o ofício do arrumador de almas. Alguém ligava dizendo que precisava de assistência porque tinha sofrido um mal de amor, perdido um ser querido, entrado numa crise existencial terrível ou simplesmente estivesse sentindo uma tristeza profunda e inexplicável, e lá iria o profissional ajudá-lo.

Eu me imagino chegando à casa do chaveiro num sábado, com uns quantos livros e discos na mochila, para lhe curar a alma. “Leia estes poemas do Drummond de Andrade e também estas crônicas do Paulo Mendes Campos. Se não melhorar, consuma este romance de Clarice Lispector, é tiro e queda”, diria eu. “Você também pode escutar estes discos do Tom Jobim a quantidade de vezes que quiser, tenho certeza que sentirá um alívio imediato”, acrescentaria eu, colocando uma mão nos ombros do rapaz enquanto apresentava a conta pelo serviço. “E agora me desculpa, preciso ir porque vou levar um paciente ao museu. Se necessitar outra visita, uma nova dose, pode me ligar a qualquer hora que eu venho”. E, então, após receber um bom dinheiro pelo meu fundamental trabalho, eu cruzaria a cidade na minha caminhonete, feliz da vida, em direção a outra casa para curar outro coração machucado. 

Edição:

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Aviso

Este é um conteúdo exclusivo da Agência Pública e não pode ser republicado.

Quer escrever uma crônica para esta coluna? Mande um email para cronicadesabado@apublica.org e coloque no assunto Crônica para Avaliação e seu nome completo.

Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Assine nossas newsletters
Fique por dentro

Artigos mais recentes

Flávio Bolsonaro & família: as perguntas que a Pública já respondeu e você precisa saber

|

Rumor? Exagero? Mentira? Reunimos um guia de questionamentos que estão na cabeça do eleitor para nossas investigações

Imagem aérea de local desmatado em Rurópolis

Segundo turno das eleições será referendo sobre futuro da Amazônia

|

Volta a índices de desmatamento do governo Bolsonaro podem aproximar floresta de ponto de não retorno

Willer Tomaz de Souza, empresário e advogado brasileiro, proprietário do escritório de advocacia Willer Tomaz Advogados Associados em Brasília

Empresa ligada a Willer Tomaz foi administrada por diretor da Polícia Civil do DF

|

Diretor de TI da PCDF administrou empresa de advogado investigado no Caso INSS; lei proíbe administração por policiais

Diretor do Instituto Sivis, Jamil Assis, durante audiência pública no Senado sobre regulação de redes sociais com foco em moderação de conteúdo e remoção de contas de usuários.

Departamento de Estado dos EUA financia ONG que questiona liberdade de expressão no Brasil

|

Instituto Sivis recebeu aporte de R$ 150 mil. Entidade negou ingerência externa e diz ter autonomia

‘Dark Horse da Shopee’: 2º filme sobre Bolsonaro teve convite a Vorcaro e é alvo da Ancine

|

Agência apura custo declarado de apenas R$ 4,5 mil de ‘A Colisão de Destinos’, que pode ter contado com grana de emendas

Sem educação, clima ou fome: O dito e não dito na propaganda eleitoral de Flávio Bolsonaro

|

Discurso de guias que foram ao ar na TV mostra aposta em "medo" e "mulheres" e ignora temas como educação, fome e clima

Quando o patrão pede voto

|

Desde setembro, foram 24 denúncias diárias de assédio eleitoral no trabalho; 99% dos casos são apurados, diz MPT

Master: Em mensagens, Vorcaro declarou lado sem margem para dúvida: “apoiamos a direita”

|

Banqueiro preso no escândalo do Banco Master tinha entre contatos Flávio Bolsonaro e Nikolas, a quem disse ter ajudado

Clubes de tiro fazem anúncios proibidos de descontos em armas para apoiar Flávio Bolsonaro

|

Empresas não podem fazer campanha de candidatos; clubes fazem ofertas de rifles com número de urna de Bolsonaro

Meta bloqueia conteúdos políticos pró-Lula e contra Flávio acusando terrorismo e nudez

|

Ministério Público Federal abre investigação contra a empresa e X por violação à liberdade de expressão

Um jumento na filarmônica

|

Contrabaixista na Europa volta ao Recife e reencontra crianças de projeto social que o iniciou na música há 20 anos

Em foto, Eduardo Bolsonaro aparece cercado de apoiadores da extrema direita na festa de gala da Hispanic Heritage

Eduardo Bolsonaro vive noite de celebridade na festa da extrema direita nos EUA

|

Ao som de “La Bamba” e “Macarena”, festa teve clima de vitória de Flávio Bolsonaro e ingressos de R$ 15 mil a R$ 50 mil