Buscar
Crônica

Uma carta ao meu pai

Pai, ele foi condenado! Você estaria tão feliz. Eu estou tão feliz

Crônica
20 de setembro de 2025
04:00
Não deixe a Publica sumir
Nos adicione como fonte preferencial no Google.

Eu vou precisar ficar uns dias sem falar com vocês, você disse por videochamada, com um olhar preocupado. Um olhar sem esperança, que eu nunca havia visto antes.

Essas foram suas últimas palavras. Minutos depois, você foi intubado. Três semanas depois, seu coração parou de bater. No atestado de óbito: covid-19.

Quando o médico deu a notícia, eu vi o meu mundo desabar. Do meu lado, parecia que por alguns segundos a mamãe tinha perdido a alma. Quando a alma dela voltou ao corpo, havia desespero.

Eu não senti desespero. Não num primeiro momento. Não senti tristeza também. A tristeza veio depois. O que eu senti foi ódio. 

Ódio a quem ativamente lutava contra a vacina e o isolamento social, a quem negligenciava a pandemia, porque era só uma “gripezinha”, a quem debochava das mortes e às pessoas que andavam por aí sem máscara, que seguiam dizendo que não era nada sério, que o mundo não podia parar. Naquele momento eu queria socar tudo o que via.

A mamãe me contou que juntos, já no leito do hospital, vocês viram o início da vacinação pela TV. Uma vacina que chegou propositalmente tarde demais para você.

Eu sinto muito que você não tenha tido esse direito. Me dói da forma mais profunda pensar que você poderia estar vivo se tantas propostas de vacina não tivessem sido negadas. Me dói saber que a sua morte, como a de milhares de pessoas, poderia ter sido evitada.

Eu sinto muito, pai, mas eu não consigo não sentir ódio. E eu sei que você sempre foi contra esse sentimento. E que sempre me ensinou a ter empatia mesmo em relação ao ser humano mais horrível.

Mas eu tenho dificuldade em não odiar. Sempre tive. Ainda mais depois que você se foi.

Você sabe que o meu pensamento político, a maior herança que você me deixou, sempre se baseou na indignação e na raiva. Seu ser-político também surgiu dessa indignação, mas caminhava em direção à esperança – a esperança de uma justiça. Isso era tão bonito em você, pai. 

E a justiça foi feita hoje, pai. Ele foi condenado. Mas não pelas pelas 700 mil mortes. Não pela pandemia.

Você acredita que ele conseguiu ser ainda pior? Pois é. Ele e outros tantos tentaram dar um golpe de estado. Fizeram um atentado à democracia. Uma longa história, talvez eu te conte em outro momento. 

Mas eu queria te contar em primeira mão, pai, ele foi condenado! Você estaria tão feliz. Eu estou tão feliz. 

Sei que isso não trará você de volta. Nada pode te trazer de volta. Já estamos há quatro anos e meio sem você. Dói todos os dias. Mas seguimos vivendo. Vivemos também por você.

Eu ainda sinto sua presença. Não de uma forma metafísica. De uma forma política. Enquanto eu seguir existindo, você também vai existir em mim.

Pai, eu ainda não abandonei o ódio. Mas hoje eu abracei a justiça. E que leveza é ver o mundo a partir da crença de que a justiça existe. Que leveza é começar a entender o mundo pelo seu olhar. 

Obrigada, pai.

Edição:

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Se você chegou até aqui é porque realmente valoriza nosso jornalismo. Conheça e apoie o Programa dos Aliados, onde se reúnem os leitores mais fiéis da Pública, fundamentais para a gente continuar existindo e fazendo o jornalismo valente que você conhece. Se preferir, envie um pix de qualquer valor para contato@apublica.org.

Vale a pena ouvir

EP 229 Quem está falando de política com a Gen Z? – com Lau Schultz

Criadora de conteúdo, Lau Schultz, fala sobre desafios para comunicar sobre política com o eleitorado jovem brasileiro

0:00

Aviso

Este é um conteúdo exclusivo da Agência Pública e não pode ser republicado.

Quer escrever uma crônica para esta coluna? Mande um email para cronicadesabado@apublica.org e coloque no assunto Crônica para Avaliação e seu nome completo.

Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Newsletter

Saiba de tudo que investigamos

Assinar
Fique por dentro

Receba conteúdos exclusivos da Pública de graça no seu email.

Assinar

Artigos mais recentes

Tingir o chão de sangue: propostas de Renan Santos para segurança vão contra Constituição

|

Candidato do MBL defende prisão, mortes e vingança em discurso emocional contra a violência

Partido da farda: número de candidatos policiais ou militares passa de 1,2 mil

|

Bancada de policiais no Legislativo direciona recursos para a Polícia Militar, enquanto resolução de crimes segue baixa

Quase quatro a cada dez indígenas em terras na Amazônia não têm acesso adequado a água

|

Ao todo, 38% não tem água tratada ou fontes como poços e nascentes, dependendo de rios e lagos, muitos contaminados

Sob Lula, assassinatos de indígenas sobem 22% em 2025 e superam média da era Bolsonaro

|

Após queda em 2023, número de mortos volta a subir e chega a 258; Marco Temporal é parte do problema, diz Cimi

Corrida por Data Centers gera denúncias de violações trabalhistas em São Paulo

|

Trabalhadores relatam assédio, acidentes e adoecimento. Empresas alegam cumprir lei trabalhista e normas de segurança

Fazer falar os ossos: a rotina de quem procura os desaparecidos da ditadura

|

Mostra no Centro MariAntonia (USP), em São Paulo, expõe o trabalho de peritos na identificação dos mortos na ditadura

“Onde tem malária, tem garimpo”: cinta larga aguardam decisão do STF sobre mineração

|

Julgamento nesta quinta-feira, 13, pode abrir caminho para mineração em terras indígenas entre Rondônia e Mato Grosso

Banco do Nordeste e Itaú financiam R$ 44 milhões para soja em área de conflito no Maranhão

|

Investidora paulista consegue autorizações de desmatamento e sinal verde na Justiça em disputa contra extrativistas

Governador de Goiás Ronaldo Caiado no escritório do Google em Nova York

Candidato à Presidência, Caiado transformou Goiás em laboratório de leis para Big Techs

|

Projetos que interessam ao Google e Amazon avançam em Goiás sem debate, cada um aprovado em menos de 48 horas