Buscar
Reportagem

Crise hídrica em São Paulo reacende debate sobre Sabesp enquanto mundo reestatiza a água

Cidades como Paris, Berlim e Bogotá reestatizaram o serviço, entendendo que a água deve ser um bem comum a todos

Reportagem
18 de novembro de 2025
12:00
Não deixe a Publica sumir
Nos adicione como fonte preferencial no Google.
Rovena Rosa/Agência Brasil

Enquanto os sistemas de abastecimento de São Paulo operam com os menores níveis em uma década e medidas para conter a queda dos reservatórios deixam moradores de periferias sem água, a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp), privatizada em 2024, fechou o segundo trimestre de 2025 com lucro de R$ 1,96 bilhões, um aumento de 64% em relação ao ano passado.

O Sistema Cantareira, que abastece 9 milhões de pessoas, operava com 23,3% da capacidade em 10 de novembro, um volume tão baixo que já é considerado de “restrição”. Os índices se aproximam aos da crise hídrica de 2014 e 2015, em que o Cantareira chegou a pouco mais de 11% e foi necessário recorrer ao seu volume morto.

Em um cenário de escassez crescente, especialistas ouvidos pela Agência Pública são pessimistas sobre a capacidade de uma empresa privatizada, orientada para aumentar o lucro, conseguir garantir o acesso à água como um bem comum. Um dos exemplos que eles apontam: na última grande crise, a Sabesp deu descontos na conta de quem economizasse água.

Por que isso importa?

  • Em um cenário de escassez de água, especialistas levantam dúvidas sobre a capacidade da Sabesp, privatizada em 2024, continuar atendendo as necessidades da população.
  • Eles apontam exemplos de países que privatizaram a captação e distribuição da água estão reestatizando os serviços para gerenciar melhor os recursos hídricos e baratear o preço ao consumidor final.

“Como vai ser agora, se a redução das contas impactaria diretamente o lucro da empresa?”, pergunta José Antonio Faggian, trabalhador da Sabesp e presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Água, Esgoto e Meio Ambiente (Sintaema).

“Se olhar quem está por trás da Equatorial [a acionista de referência da Sabesp], são fundos financeiros. É uma lógica de retorno para os acionistas, sobretudo no curto prazo. E o gerenciamento de uma crise demanda ação de longo prazo”, afirma Ana Lucia Britto, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e coordenadora do Observatório Nacional do Direito Humano à Água e ao Saneamento (Ondas).

Os especialistas ouvidos pela reportagem também apontam que São Paulo estaria andando na contramão do mundo, uma vez que vários países que privatizaram a captação e distribuição da água estão reestatizando os serviços para gerenciar melhor os recursos hídricos e baratear o preço para a população. O motor das discussões nestes locais foi o contrassenso de que um bem universal, necessário à vida de todos os seres vivos, passe a ser operado pela lógica de mercado.

Um estudo publicado em 2017 mostra que, dos anos 2000 até aquele momento, houve 267 casos de reestatização de empresas de água, majoritariamente na Europa. Os principais problemas apontados foram o aumento desproporcional das tarifas, falta de transparência, falhas na prestação de serviços e não cumprimento da promessa de universalização da água pelas empresas que assumiram os contratos.

Na França, apesar de ser sede das multinacionais Suez e Veolia, isso já aconteceu em pelo menos cinco grandes cidades: Paris, Nice, Lyon, Montpellier e Bordeaux. Segundo Britto, que estudou os casos, houve um entendimento de que as cidades deveriam cuidar de seus recursos hídricos como um bem importante para o futuro das próximas gerações. “Foi uma visão de longo prazo, de entender que a água é um recurso finito”, aponta.

Berlim, capital da Alemanha, também privatizou seu serviço de água e esgoto e depois, após pressão popular, voltou a comprar a maioria das ações para deter o controle da companhia. Houve uma grande mobilização popular, com realização de plebiscito, para abrir as contas da empresa. Os dados mostraram que a companhia garantia lucro mínimo de 8% para investidores privados, cobertos pelo governo, um dos motivos que fez a tarifa da água aumentar quase 40% no período. Depois da reestatização, os preços caíram.

Histórias parecidas ocorreram em cidades como Napóles e Turim (Itália), La Paz e Cochabamba (Bolívia), Kuala Lampur (Malásia) e Atlanta (Estados Unidos). Também aconteceu em Buenos Aires, mas lá o caminho voltou a se inverter. A empresa de água da capital argentina foi privatizada nos anos 1990, reestatizada nos anos 2000, e agora voltou a entrar em processo de privatização por decisão do presidente Javier Milei.

Uma das situações mais emblemáticas ocorreu na Bolívia, com a chamada Guerra da Água, em 2000. A venda da empresa de água de Cochabamba, uma região árida e com poucos estoques de água, a multinacionais estrangeiras elevou a tarifa em mais de 350%. Liderada por comunidades indígenas e marginalizadas, a revolta popular foi tão grande – durou quatro meses – que o governo se viu obrigado a comprar de volta as ações.

Enquanto isso, em São Paulo…

“Em uma lógica pública, o consumo das famílias é o que se prioriza. Mas numa lógica privada, o que acontece se for preciso racionar?”, questiona Britto. Ela alerta que, com a possibilidade de as chuvas continuarem abaixo do normal este ano, somada às instabilidades causadas pelas mudanças climáticas, será preciso definir prioridades para o uso da água em uma metrópole gigantesca e de consumo altíssimo. “A água não vai ser suficiente para todos”, afirma.

“Não há cláusula no processo de privatização que obrigue a empresa a adotar medidas que prejudiquem seu lucro”, diz Faggian. “Sem isso, não há garantia de que a população será prioridade nesta crise que está se iniciando. Vamos ter que aguardar para ver qual vai ser a postura da empresa privada.”

A Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística afirmou que os estudos feitos durante a modelagem da desestatização da Sabesp levaram em conta experiências internacionais de reestatização, muitas delas motivadas por contratos concluídos ou pela alta de tarifas atreladas ao dólar. Segundo a pasta, o modelo paulista adotou mecanismos para evitar esses problemas, como o cálculo de tarifas com base em investimentos já realizados e a criação de um fundo voltado à estabilidade tarifária. A Semil defende que a privatização foi essencial para garantir segurança hídrica e evitar a fragmentação da Sabesp.

Em nota, a Sabesp informou que a infraestrutura do sistema está mais robusta desde a crise de 2014 e 2015, após interligações e ampliações que aumentaram a sua capacidade. A empresa diz que deve atingir R$ 300 milhões em obras de resiliência até o fim do ano, e cita como exemplos de destaque um novo sistema de captação que aumentou em 17% o volume de “água nova” do sistema Alto Tietê; três estações de tratamento para Itapecerica da Serra e Embu-Guaçu; e novos reservatórios e estações de bombeamento nas zonas oeste e sul da capital.

Ainda segundo a Sabesp, há investimento no uso de inteligência artificial e imagens de satélite para detectar vazamentos, fraudes e ligações clandestinas. “Esses investimentos, inovação e obras de integração permitiram que, mesmo com oscilações nos níveis dos reservatórios, como as registradas recentemente, a Sabesp mantenha estratégias eficazes de resiliência para enfrentar eventos climáticos extremos e garantir o abastecimento à população paulista”, afirma.

Brasil na contramão do mundo

Nos últimos anos, o Brasil vem apostando na venda de empresas de água de várias cidades, como a Sabesp em São Paulo e a Cedae do Rio de Janeiro. Mais de 1600 municípios eram atendidos com serviços privados no fim de 2024, segundo a Associação e Sindicato Nacional das Concessionárias Privadas de Serviços Públicos de Água e Esgoto (Abcon).

O caminho para a retomar os serviços públicos, para Britto, é complicado: os contratos brasileiros são geralmente mais longos que os de outros países, o que renderia indenizações bilionárias em caso de quebra de contrato. “Para romper o acordo, o Estado teria que comprovar que a prestação de serviço é muito ineficiente, teria que acontecer algo muito grave, ou seria obrigado a pagar um valor absurdo. Ainda assim, não é impossível. É uma decisão política, depende da prioridade do governo”, afirma a pesquisadora.

Faggian também alerta que o modelo privatizado não incentiva investimentos em áreas de baixa rentabilidade, como periferias e zonas rurais. Desde que os níveis dos reservatórios começaram a ficar preocupantes, a Sabesp reduziu a pressão da água no período noturno, o que afeta principalmente essas regiões, onde a falta de água já é corriqueira por problemas na rede e as residências nem sempre têm caixas d’água de reserva.

“Diante da estiagem atual, a concessionária tem optado pelo manejo da oferta, a redução de pressão na rede, o chamado ‘racionamento disfarçado’. Esta tática, de menor custo operacional e impacto imediato no balanço, penaliza de forma desproporcional a população vulnerável e as áreas mais afastadas da rede, onde a falta d’água se torna rotina”, afirma Hugo de Oliveira, ex-diretor da Agência Reguladora de Serviços Públicos do Estado de São Paulo (Arsesp).

“A adoção dessa política demonstra uma clara priorização dos interesses privados de rentabilidade em detrimento da sustentabilidade hídrica e da equidade social”, ele continua. “O desafio que se impõe à Sabesp é garantir que a montanha de investimentos prometida chegue às periferias e que a sede por dividendos – previstos para atingir até 100% do lucro em 2030 – não se sobreponha à obrigação de fornecer água justa e ininterrupta para quem tem a menor capacidade de pagar.”

Edição:
Wolfgang Moroder/Creative Commons CC-BY 2.5
Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Se você chegou até aqui é porque realmente valoriza nosso jornalismo. Conheça e apoie o Programa dos Aliados, onde se reúnem os leitores mais fiéis da Pública, fundamentais para a gente continuar existindo e fazendo o jornalismo valente que você conhece. Se preferir, envie um pix de qualquer valor para contato@apublica.org.

Vale a pena ouvir

EP 226 Michelle Bolsonaro e o voto das mulheres conservadoras – com Jacqueline Teixeira

Antropóloga Jacqueline Teixeira analisa a atuação das mulheres conservadoras na política

0:00

Recentemente

Não, a jornada de trabalho não determina o PIB

Ministério Público investiga flagrantes plantados por policiais no interior de São Paulo

|

Investigação resultou em mandados de busca e apreensão em endereços de dez PMs

Imagem mostra urnas eletrônicas em preparação serem usadas nas eleições

Embaixada dos EUA acionou líder do PL para visita que questionaria urnas no Brasil

|

Sóstenes Cavalcanti confirmou contato à Agência Pública; delegação americana teve visto negado pelo Itamaraty

Com Flávio, Eduardo e Figueiredo, EUA preparam terreno para não reconhecer eleição no BR

Novo curso da Pública analisa como extrema direita pode influenciar as eleições em 2026

|

Aulas com Guilherme Casarões discutem o avanço da direita na América Latina com apoio dos EUA

Corrida eleitoral: Tarcísio de Freitas confirma candidatura e PT tem convenções estaduais

|

Na semana em que Lula oficializa que tentará reeleição, governador de São Paulo recebe apoio da federação PSDB-Cidadania
Imagem aérea de fábrica da BYD em Camaçari

Os detalhes não esclarecidos de como BYD escapou da lista suja do trabalho escravo

|

Parceira da BYD, Engenova incorporou quadro da Jinjiang, banida na lista suja, e tem sócia sediada em paraíso fiscal

Flávio Bolsonaro chora em conveção do PL

As lágrimas de Flávio Bolsonaro e o aceno eleitoral do filho de Jair às mulheres

|

Com menos apoio no eleitorado feminino que Lula, Flávio destaca esposa em meio a tensões com Michelle

As 48 horas que não existiram

|

Como a vida nos marca e o valor inestimável de cada momento compartilhado

Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Newsletter

Saiba de tudo que investigamos

Assinar
Fique por dentro

Receba conteúdos exclusivos da Pública de graça no seu email.

Assinar

Artigos mais recentes

Ministério Público investiga flagrantes plantados por policiais no interior de São Paulo

|

Investigação resultou em mandados de busca e apreensão em endereços de dez PMs

Imagem aérea de fábrica da BYD em Camaçari

Os detalhes não esclarecidos de como BYD escapou da lista suja do trabalho escravo

|

Parceira da BYD, Engenova incorporou quadro da Jinjiang, banida na lista suja, e tem sócia sediada em paraíso fiscal

Flávio Bolsonaro chora em conveção do PL

As lágrimas de Flávio Bolsonaro e o aceno eleitoral do filho de Jair às mulheres

|

Com menos apoio no eleitorado feminino que Lula, Flávio destaca esposa em meio a tensões com Michelle

Letalidade policial na Baixada Fluminense dispara em 2025, mesmo com queda nas operações

|

Região com 13 municípios foi alvo de 5.298 operações policiais em cinco anos, segundo pesquisa; 282 pessoas foram mortas

Viatura da Polícia Militar da Bahia está parada em via pública.

As duas faces das mortes violentas no Brasil: feminicídios e ações policiais

|

Uma em cada seis mortes violentas foram causadas por policiais; Nordeste concentra as 10 cidades com maiores índices

Tarifaço: Como a medida de Trump divide trabalhadores e empresários do setor de calçados

|

Sindicatos contestam pessimismo de entidades patronais, mas dados mostram desafios que ultrapassam Estados Unidos

Jornalistas e imprensa sofreram 204 ataques em 2025, aponta relatório da Abraji

|

Tipo mais comum de ataques foram insultos verbais, escritos e digitais, seguidos por agressões físicas