Buscar
Reportagem

Lula encomenda proposta para reduzir dependência de combustíveis fósseis no Brasil

Após tema ficar fora de decisão da COP30, presidente quer “mapa do caminho” nacional e criação de fundo para transição

Reportagem
8 de dezembro de 2025
11:27

Nos adicione como fonte preferencial no Google.

Rafa Neddermeyer/COP30 Brasil Amazônia/PR

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva deu, nesta segunda-feira (8 de dezembro), o pontapé inicial para que o Brasil comece a traçar um caminho para reduzir sua dependência dos combustíveis fósseis.

Em despacho publicado no Diário Oficial da União, ele encomendou aos ministérios de Minas e Energia, da Fazenda, do Meio Ambiente e Mudança do Clima e à Casa Civil que elaborem, em 60 dias, uma proposta de resolução com “diretrizes para elaboração do mapa do caminho para uma transição energética justa e planejada, com vistas à redução gradativa da dependência de combustíveis fósseis no país”.

Essa resolução será submetida ao Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), que é quem estabelece as políticas e diretrizes do setor energético do país. O documento a ser elaborado pelos ministérios também deverá propor mecanismos de financiamento para que seja implementada a política de transição energética no Brasil.

O despacho cita especificamente a criação do “Fundo para a Transição Energética”, a ser custeado com “receitas governamentais decorrentes da exploração de petróleo e gás natural”.

Por que isso importa?

  • O mapa do caminho para uma transição energética justa e planejada é um passo inicial para a redução gradativa da dependência de combustíveis fósseis no Brasil;
  • O tema, que ficou de fora das decisões da COP30, foi retomado em despacho do presidente, que cita a criação de um fundo para a transição energética, custeado com receitas da exploração de petróleo e gás.

A medida é uma resposta nacional a uma demanda que o próprio Lula tinha feito no âmbito internacional durante a 30ª Conferência do Clima da ONU, a COP30, realizada em Belém em novembro. Por diversas vezes, Lula conclamou os países a concordarem, como um dos resultados da COP, que fosse desenhado o tal mapa do caminho para que o mundo começasse a trilhar o seu afastamento dos combustíveis fósseis.

Em um de seus discursos ainda antes de a COP começar, durante a realização da cúpula de líderes, que reuniu chefes de estado e de governo em Belém no comecinho de novembro, Lula chegou a sinalizar que iria criar esse fundo, mencionado no despacho desta segunda, com recursos do petróleo para financiar a transição energética no país.

“Direcionar parte dos lucros com a exploração de petróleo para transição energética permanece um caminho válido para os países em desenvolvimento. O Brasil estabelecerá um fundo dessa natureza para financiar o enfrentamento da mudança do clima e promover justiça climática”, afirmou aos líderes presentes em Belém.

No mesmo discurso, um pouco antes, Lula tinha dito que “a Terra não comporta mais o modelo de desenvolvimento baseado no uso intensivo de combustíveis fósseis que vigorou nos últimos 200 anos” e lembrou que “75% das emissões de gases do efeito estufa têm origem na produção e no consumo de energia”.

Na ocasião, porém, ele não deu mais detalhes sobre como seria esse fundo. Questionada pela imprensa, a ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva, afirmou que isso seria discutido no governo.

Apesar de os 194 países reunidos em Belém não terem conseguido chegar a um acordo para incluir nos documentos adotados na COP30 algum encaminhamento sobre o mapa do caminho, o debate sobre o tema acabou ganhando tração política em Belém, com cerca de 80 países se mostrando favoráveis que isso fosse incluído. Do outro lado, porém, uma quantidade similar de nações se mostrou radicalmente contrária a esse tipo de decisão, o que chegou a travar as negociações na conferência e impediu um avanço nesse sentido.

Refinaria com várias torres metálicas liberando fumaça sob um céu nublado, com postes de luz acesos em primeiro plano e estruturas industriais ao fundo, mostrando um cenário típico da produção de combustíveis fósseis.

Ainda assim, ao final do evento, o presidente da COP30, o embaixador brasileiro André Corrêa do Lago – que segue à frente das negociações climáticas internacionais até o início da COP31, na Turquia – se comprometeu a organizar estudos e debates com as mais diversas organizações, de entidades de pesquisa de energia a grupos petroleiros, para propor como poderia se dar esse mapa do caminho. (Em entrevista ao podcast Bom dia, fim do mundo, a diretora-executiva da COP30, Ana Toni, explicou os planos).

Toda essa movimentação, porém, gerou questionamentos sobre como Lula conduziria internamente a questão. Os apelos internacionais dele ocorreram apenas semanas depois de o Ibama liberar a Petrobras a perfurar um poço de petróleo na sensível região da Foz do Amazonas, na costa do Amapá – o que pode ser o início da abertura de uma nova fronteira de exploração no país.

Se o país tem planos de aumentar sua produção de combustíveis fósseis, e não de reduzi-los, qual moral teria para pedir que os demais façam isso? Essa contradição fez com que muita gente temesse que o tema passaria ao largo da COP30. Por outro lado, se o mundo em conjunto decidir como vai ser o processo de abandonar os combustíveis fósseis de maneira justa, ordenada e equitativa, o Brasil acabaria indo junto, de todo modo.

Este foi um dos debates mais acalorados no país ao longo deste ano, com Lula sendo cobrado por, de um lado, querer ser um líder climático global, mas, por outro, avançar para ser, na prática, um líder poluidor. Paralelamente, a ministra Marina Silva passou boa parte do ano defendendo que um passo para a transição para longe dos combustíveis fósseis fosse dado em Belém, como um sinal de que o Brasil, e o mundo, levam a sério o combate às mudanças climáticas.

Lula acabou se convencendo de que esse seria um resultado importante da COP e comprou a ideia, defendendo-a arduamente durante a conferência, ao lado até mesmo de um atônito Alexandre Silveira, o ministro de Minas e Energia, que parecia não saber dos planos do presidente.

Na semana passada, finalizada a COP, o presidente Lula convocou uma reunião com alguns de seus ministros para discutir o assunto. Conforme a Agência Pública apurou, ele defendeu que seu governo deveria fazer a “lição de casa” daquilo que ele havia proposto ao mundo na COP. O despacho desta segunda é o primeiro passo para formalizar internamente isso.

Edição:
Petrobras/Divulgação

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Assine nossas newsletters
Fique por dentro

Artigos mais recentes

Meta bloqueia conteúdos políticos pró-Lula e contra Flávio acusando terrorismo e nudez

|

Ministério Público Federal abre investigação contra a empresa e X por violação à liberdade de expressão

Um jumento na filarmônica

|

Contrabaixista na Europa volta ao Recife e reencontra crianças de projeto social que o iniciou na música há 20 anos

Em foto, Eduardo Bolsonaro aparece cercado de apoiadores da extrema direita na festa de gala da Hispanic Heritage

Eduardo Bolsonaro vive noite de celebridade na festa da extrema direita nos EUA

|

Ao som de “La Bamba” e “Macarena”, festa teve clima de vitória de Flávio Bolsonaro e ingressos de R$ 15 mil a R$ 50 mil

A misoginia de diálogos de Vorcaro e CEO que expôs atrizes: “Mulher não pode fazer isso”

|

CEO da Globo demitido hoje fez comentários machistas sobre Deborah Secco e Sabrina Sato, e chamou prefeita de vaca

Líder da oposição no Senado, senador Rogério Marinho (PL-RN) durante entrevista

Chefe da campanha de Flávio Bolsonaro esteve no Senado mas não votou na 6×1

|

Rogério Marinho (PL-RN) fez uma reunião de 3h, se encontrou com aliados e saiu sem falar com a imprensa

Daniel Vorcaro, do Banco Master, e Fred Kachar, do Grupo Globo

A linha direta de Vorcaro dentro do Grupo Globo: “Quer que peça pra corrigir?”

|

Vazamento de mensagens do ex-banqueiro a Fred Kachar expôs interferências editoriais e levou à demissão do executivo

Montagem feita por IA com imagens do presidente Lula e do candidato Flávio Bolsonaro

Meta barra mais conteúdos pró-Lula e progressistas que pró-Flávio, aponta levantamento

|

Levantamento documentou mais de mil casos de restrições e banimentos nas plataformas em outubro

Plenário do Senado Federal durante sessão que votou PEC do fim da Escala 6x1

Fim da escala 6×1 é a maior mudança na jornada do trabalhador brasileiro desde 1988

|

Com 75 votos a favor e um contra nos dois turnos de votação, PEC aprovada garante dois dias de descanso a trabalhadores

Um quarto dos senadores que apoiam a PEC da Flexibilidade tem antepassados escravocratas

|

Levantamento da Agência Pública no Projeto Escravizadores mapeou famílias de mais de cem políticos brasileiros

Tropa do Esquadrão de Polícia Montada que atua no entorno dos estádios de futebol, passam por instrução, na sede de Itapuã em Salvador.

No meio do caminho tinha uma norma – o que explica mortes causadas por policiais da Bahia

|

Instrução normativa de 2019 dificultou investigação de policiais militares; estado é onde as polícias mais matam

Integrantes da Bancada Indígena do Congresso Nacional, Sônia Guajajara (à esquerda) e Célia Xakriabá (à direita)

Bancada indígena diminui no Congresso e lideranças se preparam para desmonte e retrocesso

|

Representantes do movimento indígena citam risco às demarcações, imposição do Marco Temporal e aparelhamento da Funai

Colagem com frames de vídeos de Lula nas redes sociais

Do susto ao mutirão: como a campanha de Lula tenta virar o jogo nas redes e nas ruas

|

Campanha tenta virar o jogo com nova abordagem nas redes, atos pelo Brasil e engajamento de influenciadores e artistas