Buscar
Coluna

Marco temporal e PL da devastação: derrotas para a humanidade

Ações do Congresso brasileiro logo depois da COP30 colocam mais lenha na fogueira da crise climática

Coluna
11 de dezembro de 2025
17:00

Nos adicione como fonte preferencial no Google.

Quer receber os textos desta coluna em primeira mão no seu e-mail? Assine a newsletter Antes que seja tarde, enviada às quintas-feiras, 12h. Para receber as próximas edições, inscreva-se aqui.

De todos os balanços possíveis de se fazer sobre a COP30, realizada em novembro, em Belém, talvez o mais certeiro, ou o que menos gerou dúvidas, é sobre o impacto poderoso da mobilização da sociedade civil. Do peso que foi ouvirmos, depois de muito tempo de COPs sem manifestações, a voz da vida real, de milhares de pessoas que estão na linha de frente da crise climática. Que mostraram como a luta pelo território também é um elemento de justiça climática.

Daí porque talvez tenha sido ainda maior o choque diante da rapidez com que o Congresso brasileiro – mal tinha acabado a COP e em um acesso de birra contra o governo e o STF – jogou no colo da sociedade brasileira dois retrocessos que ferem esses direitos. E aumentam as incertezas sobre nossa capacidade de combater o principal problema que temos a enfrentar como humanidade.

Refiro-me, claro, à derrubada de 56 dos 63 vetos do presidente Lula ao projeto de lei que criou a lei geral do licenciamento ambiental – que, de tão danoso, foi apelidado como PL da devastação –, à aprovação de uma versão piorada da MP que cria a Licença Ambiental Especial (LAE) e à aprovação no Senado de uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) para instituir um marco temporal à demarcação de terras indígenas.

Teve muito colega na imprensa que descreveu o movimento em torno do licenciamento como uma derrota do governo Lula e a PEC como uma afronta ao STF, que, no dia seguinte à aprovação no Senado, começaria a julgar, mais uma vez, o tema do marco temporal. O Supremo já havia decidido, em 2023, que o marco temporal é inconstitucional. Ainda assim, o Congresso aprovou na sequência um projeto de lei instituindo o prazo. O STF ia iniciar a análise do PL, quando o Senado achou por bem acelerar a PEC – “se é inconstitucional, a gente muda a Constituição, né? Simples!”, arquitetam os senadores.

O leitor não se engane. A derrota é de todos nós.

Fragilizar a proteção ambiental e os instrumentos que buscam evitar danos é algo que vai se voltar contra a gente. Impedir que terras indígenas que não estivessem devidamente ocupadas em 5 de outubro de 1988 sejam demarcadas é ceifar um dos principais instrumentos de proteção das florestas. Terras indígenas são as áreas mais preservadas do país. E evitar o desmatamento é a principal contribuição que o Brasil tem a fazer hoje para conter a crise do clima.

Em outras colunas já falei bastante dos impactos negativos do PL e convido o leitor a revisitá-las, aqui e aqui, para dar uma refrescada na memória. Mas a cada capítulo dessa novela, o quadro foi ficando ainda pior.

Tinha ocorrido um esforço considerável do governo, ao fazer os vetos, em tirar os itens mais danosos do PL, como a LAC (Licença por Adesão e Compromisso, que é uma espécie de autolicenciamento) para empreendimentos de médio porte e médio potencial poluidor, deixando apenas para os pequenos.

Lula também tinha vetado um dispositivo que isentava de licenciamento alguns tipos de obras de pavimentação, o que facilitava, por exemplo, o asfaltamento da BR-319, na Amazônia. Isso tudo voltou, com enorme potencial para aumentar o desmatamento – logo depois de, na COP, o país ficar defendendo que o mundo colocasse dinheiro no TFFF, o Fundo Florestas Tropicais para Sempre, que visa remunerar quem preserva florestas.

Só que Lula também tinha feito um afago ao presidente do Senado, Davi Alcolumbre, ao transformar uma proposta do senador, a figura da LAE, em medida provisória. A ideia do senador era aplicar um licenciamento monofásico e expresso para obras consideradas estratégicas. O governo deu uma lustrada mais ambiental nos termos da LAE, falando que ela, apesar de tramitar em prazo mais rápido, contaria com todas as fases do licenciamento tradicional.

Até a área ambiental do governo, como a ministra Marina Silva, e o presidente do Ibama, Rodrigo Agostinho, se esforçaram para dizer que era possível fazer a LAE com rigor, sem prejuízo ao meio ambiente.

Só que medida provisória precisa também passar pela aprovação de deputados e senadores e, nesse processo, outras coisas foram inseridas e o texto ficou mais permissivo. O Observatório do Clima publicou nesta terça-feira (9 de dezembro) uma nota técnica revelando quais são os novos riscos. De acordo com a análise, as mudanças introduziram novas dispensas de licenciamento para algumas atividades e reforçou a redução de salvaguardas.

“Entre os efeitos observados estão a expansão da LAC para atividades de risco e a consolidação do licenciamento por decisão política, inerente à LAE, inclusive no caso do [asfaltamento da] BR-319 e de outras rodovias, e a redução dos instrumentos de análise técnica e de controle, o que tende a ampliar incertezas e a deslocar para a via judicial questões que deveriam ser resolvidas no próprio processo de licenciamento”, diz a nota.

A BR-319 citada pelo Observatório do Clima é a rodovia que liga Manaus (AM) a Porto Velho (RO) e que tem um longo trecho onde, há muito tempo, o asfalto sucumbiu e o deslocamento é bastante difícil.

Ocorre, porém, que esse trecho corta uma das áreas ainda mais bem preservadas da Amazônia, e diversos cientistas já alertaram para o risco de a obra acabar levando a um grande desmatamento na região. Só de a pavimentação ter sido anunciada, durante o governo Bolsonaro, fez com que a derrubada da floresta dobrasse no entorno.

A MP alterada não cita especificamente a rodovia, mas fala que “são consideradas estratégicas as obras de reconstrução e repavimentação de rodovias preexistentes cujos trechos representem conexões estratégicas, relevantes na perspectiva da segurança nacional, do acesso a direitos sociais fundamentais e da integração entre unidades federativas”. É sob medida para o caso da 319.

O leitor não se engane. O que o Congresso entregou depois da COP coloca mais lenha na fogueira da crise climática e nos deixa mais próximos do abismo.

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Aviso

Este é um conteúdo exclusivo da Agência Pública e não pode ser republicado.

Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Assine nossas newsletters
Fique por dentro

Artigos mais recentes

Master: Em mensagens, Vorcaro declarou lado sem margem para dúvida: “apoiamos a direita”

|

Banqueiro preso no escândalo do Banco Master tinha entre contatos Flávio Bolsonaro e Nikolas, a quem disse ter ajudado

Meta bloqueia conteúdos políticos pró-Lula e contra Flávio acusando terrorismo e nudez

|

Ministério Público Federal abre investigação contra a empresa e X por violação à liberdade de expressão

Um jumento na filarmônica

|

Contrabaixista na Europa volta ao Recife e reencontra crianças de projeto social que o iniciou na música há 20 anos

Em foto, Eduardo Bolsonaro aparece cercado de apoiadores da extrema direita na festa de gala da Hispanic Heritage

Eduardo Bolsonaro vive noite de celebridade na festa da extrema direita nos EUA

|

Ao som de “La Bamba” e “Macarena”, festa teve clima de vitória de Flávio Bolsonaro e ingressos de R$ 15 mil a R$ 50 mil

A misoginia de diálogos de Vorcaro e CEO que expôs atrizes: “Mulher não pode fazer isso”

|

CEO da Globo demitido hoje fez comentários machistas sobre Deborah Secco e Sabrina Sato, e chamou prefeita de vaca

Líder da oposição no Senado, senador Rogério Marinho (PL-RN) durante entrevista

Chefe da campanha de Flávio Bolsonaro esteve no Senado mas não votou na 6×1

|

Rogério Marinho (PL-RN) fez uma reunião de 3h, se encontrou com aliados e saiu sem falar com a imprensa

Daniel Vorcaro, do Banco Master, e Fred Kachar, do Grupo Globo

A linha direta de Vorcaro dentro do Grupo Globo: “Quer que peça pra corrigir?”

|

Vazamento de mensagens do ex-banqueiro a Fred Kachar expôs interferências editoriais e levou à demissão do executivo

Montagem feita por IA com imagens do presidente Lula e do candidato Flávio Bolsonaro

Meta barra mais conteúdos pró-Lula e progressistas que pró-Flávio, aponta levantamento

|

Levantamento documentou mais de mil casos de restrições e banimentos nas plataformas em outubro

Plenário do Senado Federal durante sessão que votou PEC do fim da Escala 6x1

Fim da escala 6×1 é a maior mudança na jornada do trabalhador brasileiro desde 1988

|

Com 75 votos a favor e um contra nos dois turnos de votação, PEC aprovada garante dois dias de descanso a trabalhadores

Um quarto dos senadores que apoiam a PEC da Flexibilidade tem antepassados escravocratas

|

Levantamento da Agência Pública no Projeto Escravizadores mapeou famílias de mais de cem políticos brasileiros

Tropa do Esquadrão de Polícia Montada que atua no entorno dos estádios de futebol, passam por instrução, na sede de Itapuã em Salvador.

No meio do caminho tinha uma norma – o que explica mortes causadas por policiais da Bahia

|

Instrução normativa de 2019 dificultou investigação de policiais militares; estado é onde as polícias mais matam

Integrantes da Bancada Indígena do Congresso Nacional, Sônia Guajajara (à esquerda) e Célia Xakriabá (à direita)

Bancada indígena diminui no Congresso e lideranças se preparam para desmonte e retrocesso

|

Representantes do movimento indígena citam risco às demarcações, imposição do Marco Temporal e aparelhamento da Funai