Buscar
Coluna

Reflexões climáticas de fim de ano

A COP já passou, as eleições vêm aí, e o clima tem de estar no centro mais do que nunca

Coluna
18 de dezembro de 2025
17:00
Não deixe a Publica sumir
Nos adicione como fonte preferencial no Google.

Nas últimas semanas, depois de voltar de Belém, fui questionada por muita gente – de amigos a parentes, de conhecidos em comércios do bairro e da academia, até mesmo pelos colegas de trabalho e pelos chefes que acompanharam de perto meu trabalho –, sobre o que eu tinha achado da COP30. Se deu certo, em alguma medida, ou se foi um fracasso, se o Brasil se saiu bem ou se passou vergonha. Teve gente que simplesmente me perguntou se eu gostei de ter ido para lá.

Acho que tem um bocado de curiosidade natural por ser um evento internacional tão grande, realizado em terras nacionais, e que mobilizou tanta atenção da mídia, da política, do empresariado. Mas também dos haters.

Arrisco dizer que nunca antes uma COP gerou tamanha quantidade de desinformação, com tanta gente se esforçando para minimizar os riscos do aquecimento global, para dizer que essas conferências não servem para nada e que Belém ia “flopar” (do inglês to flop, fracassar).

O Observatório da Integridade da Informação, que atua para combater desinformação sobre a crise climática, fez um levantamento sobre as mais de 900 mil menções à COP30 nas redes sociais durante as duas semanas de conferência e descobriu que entre os 700 posts que tiveram maior alcance, 227 eram enganosos, ou 35% daquilo que chegou a mais gente.

A equipe que conduz a iniciativa, também responsável pelo perfil Mentira tem Preço, no Instagram, destacou que “as histórias que se repetiam pareciam playlist de fim de ano”, com mensagens como “COP flopada”, “vergonha”, “hipocrisia”, “circo climático”.

Alimentando a curiosidade das pessoas, isso tudo se soma ao fato de que talvez para muita gente tenha sido mesmo difícil entender o que estava sendo discutido em Belém, o que a conferência precisava resolver e o que conseguiu na prática, qual é a efetividade desse tipo de reunião para lidar com o desafio da crise climática.

Como parte do corpo de milhares de jornalistas com a missão de traduzir aquilo, reconheço essa incompreensão com um certo pesar, mas também com humildade e uma boa dose de senso de desafio e de mea culpa. Se quase todos os anos estamos escrevendo, ao fim das COPs, que seus resultados ficaram aquém do necessário, que houve alguns avanços, mas ainda não na velocidade requerida pela urgência do problema – o que é verdade –, entendo que, no mínimo, isso possa gerar um desânimo ou, pior, reforçar a falsa ideia de inutilidade, de “flop”.

A gente, imprensa, precisa se esforçar mais para tornar mais palatável e acessível esse tema tão vital para a sobrevivência da nossa própria espécie e de todas as outras com quem dividimos esse planeta. (Inclusive, se puder, responda esta pesquisa rápida sobre nossa cobertura da COP30 e nos ajude a fazer matérias mais relevantes, mais cuidadosas e mais conectadas com o que realmente importa para você.)

Mas o desafio vai além. As pessoas já sentem na pele o aumento do calor, dos eventos extremos, das doenças. Vivem as consequências das mudanças climáticas no seu dia a dia, mas não necessariamente relacionam essa realidade com quem está por trás do problema.

Com quem precisa ser cobrado a agir para reverter o curso do aquecimento do planeta: governantes, claro, mas também a indústria de petróleo que não quer largar o osso, o agronegócio predatório que não se responsabiliza pelo desmatamento, as big techs que deixam a desinformação correr solta e, de quebra, está aumentando o consumo de energia e água do planeta.

E fazer com que eles ajam passa também por relacionar isso tudo com o poder do voto, com quem está nos governos municipais, estaduais e federais e, principalmente, com quem está nos legislativos das três esferas.

Passa por entender que eleição tem tudo a ver com clima. Que serão os eleitos do ano que vem quem terá o poder para fazer essa roda girar. Para criar os mecanismos para planejarmos como vamos abandonar nossa dependência dos combustíveis fósseis, zerar desmatamento, nos adaptarmos para sermos mais resilientes às tragédias climáticas que serão cada vez mais frequentes. Desmontar legislação ambiental, ceder aos lobbies do petróleo, do gás e do carvão e do agro predatório vão na direção contrária disso.

*

Queridos leitores, esta é a última newsletter deste ano. Entraremos em recesso aqui na Pública nas próximas duas semanas, mas eu vou me ausentar também por mais alguns dias depois, então só voltarei por aqui no final de janeiro.

Queria agradecer demais pela companhia de vocês neste ano tão complexo e cheio de notícias e desejar a todos um bom descanso, comemorações felizes com as pessoas que vocês mais amam. E, do fundo do meu coração, que em 2026 a humanidade consiga dar passos significativos na luta contra a crise do clima.

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Aviso

Este é um conteúdo exclusivo da Agência Pública e não pode ser republicado.

Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Assine nossas newsletters
Fique por dentro

Artigos mais recentes

O ex-senador Eduardo Suplicy é detido em reintegração de posse próximo a Cohab Educandário

Levantamento aponta um caso de violência política a cada 37 horas durante campanha de 2026

|

Monitoramento exclusivo da Pública por 17 dias chegou a 11 casos cujos agressores são, na maioria, agentes de segurança

Dos clubes de tiro ao poder: segmento de armas injeta mais de R$ 1,2 milhão nas eleições

|

Empresários do setor doaram para 96 candidatos – PL, Republicanos e Novo lideram recebimento de recursos

Visita à Heritage Foundation de Sérgio Sant'Ana e Eduardo Bolsonaro

Empresário que fundou Instituto com Eduardo Bolsonaro presta serviço para campanhas

|

Empresa de Sérgio Sant’Anna recebeu R$340 mil; empresário diz que ICL está “inativo” e que se afastou do ex-deputado

O senador Flávio Bolsonaro, durante sessão da Comissão de Desenvolvimento Regional do Senado

Flávio Bolsonaro, os hospitais federais e a pandemia de Covid no Rio de Janeiro

|

Contratos superfaturados, demissões e hospitais sucateados: como Flávio influenciou a saúde do Rio no governo do pai

Ex-jogador da seleção brasileira de basquete dos anos 1980 Nilo Guimarães. Ele foi secretário de esportes de Mogi da Cruzes, na região metropolitana de São Paulo, por 12 anos (2009-2020).

Empresa de ex-secretário de Esportes de Mogi recebeu dinheiro de emenda Pix de Mario Frias

|

Sócio de Nilo Guimarães na Pulsa Uniformes diz que material foi entregue, mas não envia comprovação

A execução de Davi Sebba e a teia de policiais que Goiás levou 14 anos para julgar

|

Letalidade policial quase triplicou em 2012, ano do crime; governador era Marconi Perillo, candidato ao cargo em 2026

Investigação e processos criminais: o rastro legal dos deputados da Comissão de Segurança

|

CSPCCO: 12 deputados ligados a forças de segurança foram parte em procedimentos criminais, que vão de calúnia a agressão

Rio de Janeiro (RJ), 08/03/2023 - Ato denúncia em frente à Câmara Municipal, organizado pelo campanha Levante Feminista contra o Feminicídio

Na Amazônia Legal, 9 em cada 10 vítimas de feminicídio em 2025 não tinham medida protetiva

|

Levantamento em oito estados mostra que mulheres morrem desprotegidas; recurso jurídico é alternativa para evitar crime

Nossa Senhora Aparecida vira evento eleitoral e aprofunda crise entre ministros do STF

|

Monitoramento mostra que debate nas redes ultrapassou boato inicial e passa de 12 milhões de interações em poucos dias

Fachada do Congresso Nacional, em Brasília.

Os candidatos das Big Techs nas eleições 2026

|

Levantamento mostra quais políticos brasileiros têm atuado a favor dos interesses das grandes corporações de tecnologia