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Crônica

A Bossa da Fossa, Adeus à Ro Ro

A fossa em música ou poema não é sofrimento a ser aplacado, repelido — muito pelo contrário

Crônica
17 de janeiro de 2026
04:00
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O buraco da dor é sempre mais embaixo. Mas há quem discorde. Volta e meia, chegam-me anúncios de cursos online para treinar o cérebro contra emoções inúteis. Prometem o milagre desastroso de curar a dor de um fim de amor, affair, obsessão, ou seja lá o nome. Garantem que basta hackear o sistema de recompensa, reprogramar a expectativa, descondicionar os circuitos neurais e, abracadabra, estamos livres do incômodo! A ideia, por mais estúpida que pareça, tem ganhado bastante adesão.

Pode ser hipótese apressada, mas talvez o curso tenha algo a ver com a pesquisa do Pew Research Center, mostrando que 56% dos usuários de aplicativos de namoro sentem que sempre há alguém “melhor” no cardápio. Essas plataformas não querem que você encontre o grande amor, mas que continue deslizando, experimentando encontros – de preferência, sem sofrer demais entre um match e outro. Para sustentar esse ciclo infinito, talvez só com um cérebro reprogramável mesmo.

Indo além dos afoitos diagnósticos do presente, o desejo de imunidade afetiva intriga não porque revela algo sobre o coração frívolo da nossa época, mas porque significa o fim de uma das culturas mais antigas, belas e férteis que conhecemos: a fossa.

Fossa — do latim fossa, buraco, cova — é fonte de criação extraordinária. Acabar com ela seria um ecocídio cultural. Fossa existia antes do próprio nome e seguirá firme depois do apocalipse dos apps. Nos anos 1950 e 60, “estar na fossa” nomeava o estado de melancolia amorosa que Lupicínio Rodrigues fixou em canções de quem sabe do que fala e sente. Foi quem popularizou a “dor de cotovelo”, a sofrência no balcão do bar. Chegou a propor uma taxonomia: a dor federal, devastadora, que só curava com porre pesado, a estadual, mais suportável, e a municipal, tão chinfrim que nem dava samba. Quanto pior (a dor), melhor (a arte) — mote antigo, sabemos.

As rainhas da fossa também sabiam, e sabiam do fracasso (amoroso) em sua força, talvez melhor até que Beckett, hoje tão citado. Nora Ney, com “Ninguém Me Ama” (1952) — “Vim pela noite tão longa, de fracasso em fracasso / E hoje, descrente de tudo, me resta o cansaço” — foi a primeira mulher a ganhar disco de ouro no Brasil. Maysa cantava “Demais” como quem sangra um lamento denso e rude: “Vou passar minha vida esquecendo você”. Ângela Maria e sua xará, Angela Ro Ro, que se foi agora, deixando em nós um travo amargo, como costuma acontecer quando partem as artistas de talento puro. Nora, Maysa e as Angelas são herdeiras de uma tradição que não pede licença nem desculpas pelo ardor, pelo escândalo da intensidade, pelo desespero de perder o prumo, o esteio e o rumo. Cantaram as canções das dores difíceis. Com a soberba de quem afunda pra valer.

Angela Ro Ro viveu a desmesura sem concessões. E com talento de sobra, mandava 40 rosas de uma vez, se declarava do palco. Havia algo de Aquiles naquele excesso — o herói irado que Homero colocou no centro da Ilíada pela força com que sentia e se consumia, arrastando todo o seu povo com ele. Os gregos não temiam a emoção desmedida. A força da fraqueza era motivo de canto, e nela se vislumbrava nossa humanidade frágil, teimosa, absurda e indomável.

Da grande família dos intensos também faz parte a autora uruguaia-espanhola Cristina Peri Rossi, que narrou amores lésbicos com uma beleza franca e rara. Rossi falava do final de uma paixão como de um desastre íntimo, como sobreviver a uma queda de avião.

A fossa em música ou poema não é sofrimento a ser aplacado, repelido — muito pelo contrário. É um território onde se descobre quem se consegue ser longe das sociabilidades bem aceitas e das intensidades suportáveis. A voz áspera e hipnótica de Angela, tão perfeitamente amalgamada ao som do seu piano, formando um só corpo grave e sentido, nunca prometeu alívio rápido, preferindo a sabedoria que só ganha quem sabe chafurdar na lama da perda, no final bem infeliz do que custa demais a terminar.

Antes de terminar esta crônica, me deixei levar por Angela em entrevistas na TV — e, aliás, recomendo. Numa delas, dizia: “Eu mesma sou a mulher dos meus sonhos, pois nunca vi uma pessoa passar por tanta coisa numa pequena existência. Estou encantada comigo.” Também estamos, do lado de cá, e seguimos encantados com Angela.

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