Buscar
Análise

Doutrina “Donroe”: ataque à Venezuela é aviso aos demais governos da região

No mesmo dia em que sequestrou Nicolás Maduro, Trump ameaçou Gustavo Petro, da Colômbia, e Claudia Sheinbaum, do México

Análise
3 de janeiro de 2026
17:28

Nos adicione como fonte preferencial no Google.

Donald Trump durante reunião da Operação Resolução Absoluta (Operation Absolute Resolve, em inglês), que interveio na Venezuela
Official White House/Daniel Torok

“Bem-vindos a 2026, e sob o governo Trump, a América está de volta”, afirmou o secretário de Defesa norte-americano Pete Hegseth durante a conferência de imprensa realizada na tarde deste sábado, após o governo americano invadir ilegalmente a Venezuela e sequestrar o presidente Nicolás Maduro.  

O governo de Donald Trump construiu duas narrativas contraditórias para invadir e “administrar” a Venezuela, segundo palavras do próprio presidente. De acordo com a primeira, Nicolás Maduro é acusado pelos crimes de conspiração de narcoterrorismo, envio de cocaína e posse de metralhadoras e dispositivos destrutivos. É esta a base do indiciamento de Maduro e sua esposa pela Justiça de Nova York, para onde o presidente venezuelano está sendo levado depois de ser sequestrado em Caracas pelas forças militares e agentes da DEA, a Drug Enforcement Agency.

A segunda narrativa diz respeito ao “roubo” de petróleo “pertencente” a empresas americanas pelo governo venezuelano em 2006. Naquele ano, Hugo Chávez mudou a Lei Orgânica de Hidrocarbonetos para garantir que a estatal venezuelana PDVSA teria maioria acionária para a exploração de petróleo na Faixa do Orinoco, o maior campo de petróleo do mundo. Petroleiras americanas como a ConocoPhillips e Exxon Mobil não concordaram e processaram a Venezuela. O Banco Mundial, através de sua câmara de arbitragem, ordenou o governo venezuelano a pagar mais de 1 bilhão em recompensa, o que ainda não foi integralmente pago. 

Por um lado, a insistência do governo dos EUA em reforçar essas duas narrativas demonstra que existe um esforço em convencer o público – pelo menos o interno – da legalidade dessas ações. Por outro, o motivo mais sincero para a ação – e também proclamado em alto e bom som – é colocar em prática a “doutrina Donroe”, uma versão que “vai muito além” da velha doutrina Monroe, criada em 1823 pelo então presidente dos EUA James Monroe para assegurar que não haveria interferência dos poderes europeus sobre a América Latina, numa época pós-colonialismo. Seu lema era “a América para os Americanos”.

“Segundo nossa nova estratégia de segurança nacional, a dominância americana no hemisfério ocidental nunca mais será questionada”, afirmou Trump, durante a conferência de imprensa, explicando a “Doutrina Donroe”. “Durante décadas, outras administrações negligenciaram – ou até mesmo contribuíram para – as crescentes ameaças à segurança em nosso hemisfério. Sob a administração Trump, isso parou”.

“Estamos agora reafirmando o poder americano em nossa região da forma mais poderosa”. 

Para Trump, “o futuro será determinado pela capacidade de proteger o comércio, o território e os recursos que são centrais para nossa segurança nacional”.  

“Estas são as leis de ferro que sempre ditaram o poder global”, concluiu. 

A lei dos negócios

As ações de “segurança nacional” dos EUA sempre tiveram motivações econômicas. Mas a nova doutrina retira o verniz ideológico e assume o tom característico de Trump: tudo é negócio. Isso ficou claro na conferência de imprensa dada pelo presidente e membros do governo dos EUA na tarde deste sábado. Falou-se muito de petróleo e pouco de democracia – uma mudança significativa no discurso externo americano.

Durante a conferência, Trump deixou claro, por exemplo, que não vê futuro na dupla Eduardo Gonzales e Maria Corina Machado. Eduardo Gonzales foi, segundo diversos relatos jornalísticos criteriosos, eleito nas eleições de 2024. Seriam eles os interlocutores tradicionais, se os EUA quisessem manter a postura centenária que dizia agir em nome da democracia. Mas Trump afirmou que não falou com Maria Corina Machado, figura de destaque da oposição venezuelana , e ainda que “seria muito difícil para Machado ser a líder. Ela não tem o apoio no seu país”. 

Por outro lado, Trump disse que o secretário de Estado, Marco Rubio, conversou “longamente” com Delcy Rodriguez, vice-presidente eleita pelas mesmas eleições fraudadas, e uma das principais vozes do chavismo, e ela teria dito que estava “disposta a fazer o necessário para tornar a Venezuela grande de novo”. 

A mensagem é clara: Delcy até pode ficar, mas tem que entregar o petróleo. 

No final da conferência, Trump deixou claro que iria governar com “um grupo” – que ainda estava sendo decidido qual seria – e que “as botas” estarão em campo para garantir o petróleo. 

“Vamos fazer com que nossas grandes empresas petrolíferas dos Estados Unidos, as maiores em qualquer lugar do mundo, entrem, gastem bilhões de dólares, consertem a infraestrutura muito danificada, a infraestrutura de petróleo, e comecem a gerar dinheiro para o país”.  

Além de “reconstruir” a infraestrutura petrolífera do país, que chamou de decadente, com investimento privado das petroleiras, Trump prometeu explorar muito mais petróleo do que atualmente, e que os EUA “iriam vendê-lo” para outros países.  

A “Doutrina Donroe”, aplicada neste sábado, também deixa claro que nenhum governante está seguro – e qualquer governo que antagonize com ela pode enfrentar o mesmo destino de Maduro. E, para isso, a narrativa da guerra ao narcotráfico parece ser a melhor saída. 

Primeiro, cria-se a narrativa de que determinado presidente tem relações com o narcotráfico. Segundo, se constrói um caso na Justiça americana contra esta liderança. Então, tem-se a desculpa de que qualquer invasão não é um ato de guerra, mas de cumprir a justiça. Um caso clássico de Lawfare. 

A narrativa do narcotráfico também cumpre uma função na política interna, pois ao se tratar de uma ação relacionada ao combate ao narcoterrorismo, realizada pelas agências de segurança pública como a DEA, a invasão de qualquer país não necessitaria de aprovação do Congresso. 

México, Colômbia e Brasil 

O governo brasileiro juntou-se, apenas às 10h, aos poucos países da região que condenaram o sequestro de Maduro. Segundo Celso Amorim afirmou à Agência Pública, o Brasil foi pego de surpresa pelo ataque.  

Na sua declaração, o presidente Lula condenou o ataque e afirmou que “a ação lembra os piores momentos da interferência na política da América Latina e do Caribe e ameaça a preservação da região como zona de paz”.

A resposta, entretanto, parece frágil diante da nova doutrina Donroe. Afinal, já há indícios que a Venezuela pode ser apenas o começo.    

Pouco antes de participar da coletiva de imprensa, Donald Trump deu uma entrevista à FOX News na qual fez uma ameaça direta à presidente do México, Claudia Sheinbaum, seguindo a mesma linha narrativa. “Nós somos muito amigáveis com ela, ela é uma boa mulher. Mas os carteis governam o México, ela não governa o México”, disse, questionado pelo apresentador, que chegou a dar uma risada cúmplice com o tom misógino adotado por Trump a seguir: “Podemos ser políticos em relação a isso, e dizer, ‘sim, sim, ela tem muito medo dos cartéis’… Eu perguntei várias vezes, ‘você gostaria que nós combatêssemos os cartéis?’, ‘não, não Senhor presidente, por favor’. Então nós temos que fazer alguma coisa, algo terá que ser feito em relação ao México”. 

A mesma ameaça foi reiterada, mais uma vez, contra o presidente Gustavo Petro, da Colômbia. Questionado durante a coletiva de imprensa, Trump afirmou que Petro “tem fábricas de cocaína, tem fábricas onde está produzindo cocaína. Ele está produzindo cocaína e estão enviando para os Estados Unidos, então ele realmente precisa cuidar do seu rabo.” – ou seja, ficar atento.  

Petro já é alvo de sanções do governo americano por ter “permitido que os cartéis de drogas prosperassem” e ter se “recusado a conter essa atividade”, segundo o Secretário do Tesouro Scott Bessent. 

Essas ameaças reforçam que a narrativa do combate ao narcotráfico – ou melhor, o “narcoterrorismo” – é o principal pretexto ao qual os EUA se agarrarão para interferir no continente. Um alerta para as eleições de 2026 no Brasil e que antecipa que o tema do combate ao crime será o mais importante do ano – e que pode haver um aprofundamento de campanhas de desinformação que buscam relacionar o PT e Lula a organizações criminosas como o PCC. 

Cuba também foi mencionada na conferência. Questinado por um jornalista, Trump disse que “é muito similar” à Veenezuela, “no sentido que queremos ajudar as pessoas de Cuba, mas queremos ajudar as pessoas que est!ão fora de Cuba também”. E completou: “Eu acho que Cuba é algo que vamos acabar tratando, porque cuba é uma nação que está fracassando”.

Marc Rubio foi mais direto: “Se eu morasse em Havana e trabalhasse para o governo, eu estaria preocupado agora”.

Para a jornalista Luz Mely Reyes, fundadora e diretora do site venezuelano Efecto Cucuyo, e atualmente vivendo no exílio nos EUA, a fraca resposta da comunidade internacional à ação militar americana é um apoio tácito ao plano que “a Venezuela termine sendo o experimento do corolário Trump, um experimento do que será a nova doutrina Trump”. 

“No final eu sempre disse isso: nós, venezuelanos, estamos sozinhos”, analisa. 

As reações “mornas” não surpreendem, segundo ela, “porque o estabelecimento da ditadura de Maduro também foi produto de uma reação titubeante dos países da região” – Brasil, México e Colômbia foram incapazes de assegurar que os resultados eleitorais de 2024 fossem cumpridos, diz ela.

Agora, as respostas “mornas” da UE, da Rússia e da China apontam na mesma direção: a nova doutrina Donroe procura apenas redistribuir as áreas de domínio entre as potências mundiais. 

“Esta estratégia vê o mundo de esferas de influência, não um mundo de alianças, que foi o que definiu a política dos EUA nos últimos 70 anos. Essa é uma mudança enorme na forma de elaborar a política regional”, explica Ricardo Zuniga, ex-diplomata e ex-secretário adjunto interino dos Estados Unidos para Assuntos do Hemisfério Ocidental. “Os críticos dizem que o que está acontecendo é que EUA estão cedendo para a China e a Rússia, dentro de uma visão de dividir o mundo em três partes, com os EUA ficando com o controle estratégico das Américas”.

Talvez a grande revelação desta manhã é que, diante da Doutrina Donroe, a menos que haja uma grande e coordenada reação global, nós, latino-americanos, estaremos irremediavelmente sozinhos.

Official White House/Daniel Torok
Presidência da Colômbia

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Assine nossas newsletters
Fique por dentro

Artigos mais recentes

Flávio Bolsonaro & família: as perguntas que a Pública já respondeu e você precisa saber

|

Rumor? Exagero? Mentira? Reunimos um guia de questionamentos que estão na cabeça do eleitor para nossas investigações

Imagem aérea de local desmatado em Rurópolis

Segundo turno das eleições será referendo sobre futuro da Amazônia

|

Volta a índices de desmatamento do governo Bolsonaro podem aproximar floresta de ponto de não retorno

Willer Tomaz de Souza, empresário e advogado brasileiro, proprietário do escritório de advocacia Willer Tomaz Advogados Associados em Brasília

Empresa ligada a Willer Tomaz foi administrada por diretor da Polícia Civil do DF

|

Diretor de TI da PCDF administrou empresa de advogado investigado no Caso INSS; lei proíbe administração por policiais

Diretor do Instituto Sivis, Jamil Assis, durante audiência pública no Senado sobre regulação de redes sociais com foco em moderação de conteúdo e remoção de contas de usuários.

Departamento de Estado dos EUA financia ONG que questiona liberdade de expressão no Brasil

|

Instituto Sivis recebeu aporte de R$ 150 mil. Entidade negou ingerência externa e diz ter autonomia

‘Dark Horse da Shopee’: 2º filme sobre Bolsonaro teve convite a Vorcaro e é alvo da Ancine

|

Agência apura custo declarado de apenas R$ 4,5 mil de ‘A Colisão de Destinos’, que pode ter contado com grana de emendas

Sem educação, clima ou fome: O dito e não dito na propaganda eleitoral de Flávio Bolsonaro

|

Discurso de guias que foram ao ar na TV mostra aposta em "medo" e "mulheres" e ignora temas como educação, fome e clima

Quando o patrão pede voto

|

Desde setembro, foram 24 denúncias diárias de assédio eleitoral no trabalho; 99% dos casos são apurados, diz MPT

Master: Em mensagens, Vorcaro declarou lado sem margem para dúvida: “apoiamos a direita”

|

Banqueiro preso no escândalo do Banco Master tinha entre contatos Flávio Bolsonaro e Nikolas, a quem disse ter ajudado

Clubes de tiro fazem anúncios proibidos de descontos em armas para apoiar Flávio Bolsonaro

|

Empresas não podem fazer campanha de candidatos; clubes fazem ofertas de rifles com número de urna de Bolsonaro

Meta bloqueia conteúdos políticos pró-Lula e contra Flávio acusando terrorismo e nudez

|

Ministério Público Federal abre investigação contra a empresa e X por violação à liberdade de expressão

Um jumento na filarmônica

|

Contrabaixista na Europa volta ao Recife e reencontra crianças de projeto social que o iniciou na música há 20 anos

Em foto, Eduardo Bolsonaro aparece cercado de apoiadores da extrema direita na festa de gala da Hispanic Heritage

Eduardo Bolsonaro vive noite de celebridade na festa da extrema direita nos EUA

|

Ao som de “La Bamba” e “Macarena”, festa teve clima de vitória de Flávio Bolsonaro e ingressos de R$ 15 mil a R$ 50 mil