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Como a (des)informação sobre o Irã chega até a gente?

Uma conversa com Adriana Carranca, jornalista enviada a diversos países do Oriente Médio – inclusive ao Irã

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23 de janeiro de 2026
17:00

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“Para uma iraniana, falar tem se tornado insuportavelmente difícil. Parece que sempre alguém está falando por você. Se afinal te deixam falar, é apenas para confirmar aquilo que eles já acreditam. Eles perguntam: ‘vocês esperam ajuda dos Estados Unidos ou de Israel? O número de mortos é mesmo 12 mil?’, Mas ninguém nos perguntou nada quando o regime fascista que nos governa se tornou campeão em execuções”, discursou a representante do movimento iraniano “Feminists4Jina”, durante uma manifestação em Berlim na semana passada.

A cobrança da jovem iraniana, representante de uma organização que emergiu depois das gigantescas manifestações de 2022, em protesto por Jina Mahsa Amina, que morreu depois de ter sido presa por usar o véu “de modo incorreto”, faz todo o sentido quando a gente acompanha as notícias e comentários sobre o Irã, que praticamente não tem imprensa independente nem livre acesso à Internet.

Do lado da direita ocidental, o que se vê é a redução de um país com mais de 4 mil anos de história, com uma cultura riquíssima e uma população de 86 milhões de habitantes, a uma terra de terroristas fanáticos e religiosos barbudos, que deve ser invadida pelos Estados Unidos. De outro lado, no mesmo Ocidente, há uma esquerda que não entende os protestos monumentais por liberdade que vem desde a Revolução Islâmica – que, em 1979, levou os aiatolás ao poder e à imposição da Sharia (a lei islâmica) – atribuindo-os simplesmente à influência de potências interessadas em desestabilizar o regime e expandir seu domínio sobre o Oriente Médio.

Porém, a realidade é bem mais complexa, como alertou a jovem ativista iraniana na Alemanha, herdeira de um feminismo combativo que já levou duas mulheres de seu país a conquistar o Nobel da Paz: Narges Mohammadi, presa pela última vez no ano passado, que conquistou o prêmio em 2023; e Shirin Ebadi, que ganhou o Nobel 20 anos antes, e foi entrevistada no Irã pela jornalista Adriana Carranca, a quem recorri para tentar entender um pouco melhor sobre o país em que ela trabalhou como enviada especial.

“Muitas pessoas que apoiaram a Revolução Islâmica, como a própria Shirin Ebadi, acreditavam que o Aiatolá Khomeini instauraria uma democracia. Ele falava em democracia islâmica, que é algo que soa para muitas pessoas, embora o Irã não seja um país tão religioso nem totalmente xiita – tem muitos ateus, muitos Zoroastristas (religião anterior ao Islã). Boa parte dos ativistas que derrubaram a monarquia – que era odiada pela população – acreditavam que haveria um estado democrático, como havia na época do (Mohammad) Mossadegh, o primeiro-ministro nacionalista que foi derrubado (em 1953) pelos britânicos e americanos. Veja que ironia”, diz a jornalista.

“Hoje, o líder supremo tem praticamente a última palavra em tudo, inclusive para confirmar a eleição à presidência. E tem a última decisão em praticamente todas as outras áreas. Ele está desde 1989, é um cara de mais de 80 anos, em descompasso com a juventude do país, que está cansada de ser vigiada e importunada pela política de costumes”, explica.

Para Carranca, os jovens (70% da população nasceu depois da revolução) e as mulheres (que ocupam 67% das vagas nas universidades) não vão desistir da democracia, de uma imprensa livre, do acesso à Internet, e de direitos iguais para as mulheres. “Mesmo os jovens carregam essa herança cultural do império persa e se compreendem como um lugar de 4,5 mil anos de história. Eles vêem esse regime como passageiro: o que são quarenta anos diante de cinco mil anos de uma cultura maravilhosa?”, pergunta Carranca, lembrando que o movimento reformista, de oposição ao regime, se iniciou assim que a população se deu conta de que os aiatolás não queriam democracia.

“Havia muitos jornais independentes reformistas, em farsi, e aí o governo fechava, eles reabriam, certamente eles ainda existem até hoje, mas são ainda mais perseguidos em momentos de crise. A maior parte das informações que temos vem de ONGs, de iranianos fora do país – os da diáspora – que têm acesso às redes, e de alguns correspondentes internacionais. Não é fácil conseguir um visto de jornalista para o Irã, por isso a maioria deles são britânicos-iranianos, americanos-iranianos, que trabalham para agências e jornais ocidentais, mas não é fácil obter informação do regime mesmo estando lá. Isso dificulta, mas por si só não impede a circulação de informações sobre o país – ontem mesmo eu estava conversando com uma iraniana”, conta Adriana Carranca.

“Esses protestos mais recentes foram diferentes dos anteriores porque reuniram muito mais gente do interior, de comerciantes, é uma população mais heterogênea do que aquela formada principalmente por mulheres e jovens urbanos que protestaram pela morte de Mahsa. Tem um componente econômico forte, e não apenas pelo bloqueio ao Irã, mas também pelas decisões do próprio regime, por suas falhas, por seu investimento em áreas não prioritárias para os iranianos, que estão sofrendo com o custo de vida, com os apagões, com a deterioração da infraestrutura. O regime está corroído por dentro, falta aparecer uma liderança capaz de se apresentar como uma alternativa política, porque os protestos ainda são muito descentralizados”, explica.

Pergunto para ela se uma intervenção dos Estados Unidos não complicaria ainda mais a vida da oposição iraniana. “Certamente, porque quando há uma ameaça externa, os protestos param. Os iranianos são nacionalistas, eles acabam apoiando o governo nesses casos, como a gente viu durante os bombardeios de junho passado. Uma forma que os Estados Unidos poderiam ajudar é promovendo, investindo financeiramente nos grupos iranianos de direitos humanos, de monitoramento, não como uma intervenção externa. Os iranianos querem e podem reconstruir sua democracia, sem paternalismo”.

Volto ao Instagram das jovens mulheres do “Feminists4Jina” e anoto a parte final daquele impactante discurso em Berlim. “Ninguém nos perguntou nada por quase 5 décadas, levante após levante, enquanto as pessoas amadas por nós eram executadas, presas, ou baleadas pelo país, seus corpos desaparecidos ou vendidos para as famílias. Ninguém perguntou como o estupro e o assassinato se tornaram tão baratos e fáceis. Ninguém nos perguntou nada porque nossas vidas só importam quando se tornam relevantes para os países ocidentais ou para as audiências ocidentais”.
“Nós exigimos vida, nós exigimos dignidade, nós exigimos liberdade”, essa é a voz do Irã. Para começar a ouvi-la é bom desconfiar dos porta-vozes ocidentais – de direita ou esquerda, da imprensa ou de governos.

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