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Crônica

O tapete mágico

Seremos amantes eternos num romance que atravessará séculos

Crônica
31 de janeiro de 2026
04:00
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Em uma noite de muito calor, nos deitamos lado a lado com as costas nuas, sentindo o frescor da cerâmica branca que formava o piso de uma casa que não era nossa. A luz do quarto apagada, clima perfeito para dois vampiros ingênuos e saciados. Ficamos em um silêncio agradável por um tempo indefinido, contemplando pela abertura da janela a fugacidade das nuvens sobre a cidade e suas formações misteriosas por entre estrelas. O vento aparecia de vez em quando como uma visita rara e agradável. Foi assim que detivemos nossos olhos um no outro para compartilhar nossos pensamentos.

Vou transformar este momento em literatura, viu? Assim, seremos amantes eternos num romance que atravessará séculos, lhe digo com o exagero de quem lê poesia. Você sorri com seu jeito peculiar de tamborilar os dedos na boca. Envolvida pelo ar apaixonado da noite, você pousa os dedos sobre meus lábios como se fosse capaz de conter o léxico milenar que nos constitui. E me diz ainda sorrindo: deixe de maluquice. Rio também. Minha mão entrelaçada à sua. Há muito, muito tempo, a literatura é essa tapeçaria de histórias repletas de aventura e magia que os humanos compartilham entre si (às vezes, nada acontece e eu acho que isso é literatura também). Combinamos palavras, como nesta crônica, para criar futuros e superar com astúcia o assombro do caminho extremo.

Foi no filme iraniano “Gosto de Cereja”, de Abbas Kiarostami, que ouvi: “Quando você está infeliz, machuca outras pessoas”. E minha cabeça se perguntou: É justo maltratar a si mesmo ou outra pessoa quando enfrentamos cenários difíceis? Neste momento, nada no mundo nos afeta, estamos contentes, num espaço idílico de bem-aventurança. Uma alegria interior, boba, esplêndida. Você me fala coisas generosas. É gentil comigo. Correspondo. Os infinitos problemas do mundo continuam existindo para nossa incredulidade e indignação, apesar de estarmos agora um tanto alheios a isso e muito emocionados com a vida.

No meio da alegria, irrompem os versos da poeta uruguaia Cristina Peri Rossi: “As poucas vezes / em que fui feliz / senti um medo profundo / como iria pagar a fatura?” A vida e suas inquietações. A mente e seu atemporal medo do desconhecido. Seus olhos, cheios de luz e sonhos, umedecem. Como diz a canção? “Um passo à frente e você não está mais no mesmo lugar”. Meu rosto fica molhado quando encosta no seu e eu beijo seus olhos. Me encontro na exuberância de seus olhos. Devaneio.

Estar com alguém que deseje estar com você aonde quer que você vá. Passear por aí. Uma companhia para construir momentos memoravelmente felizes. Duas pessoas com vontades próprias. Assim é melhor. Escutar o que o outro tem a dizer. Não tem nada de sobrenatural nisso. O tempo desliza suave por dentro da noite enquanto conversamos. O vento atravessa a janela com leveza para nos acariciar. Com entusiasmo, relembramos um dos contos de “As Mil e Uma Noites”, a velha história de Aladim e seu tapete mágico voador. E, sem que nos cause qualquer surpresa, o objeto lendário surge no quarto escuro para nos transportar ao reino de nossos desejos.

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