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Crônica

Se essa rua fosse nossa

A rua fechou e foi bom mas ao reabrir tudo pareceu tão distante em tempo e espaço

Crônica
10 de janeiro de 2026
04:00

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Faz uns meses, no bairro aqui ao lado, a prefeitura fechou uma rua, de uma ponta a outra da quadra, para refazer o calçamento. E obrigou a que todos os carros que estavam estacionados nos dois lados da via fossem retirados. E então, no fim de semana, sem trânsito e nem trambolhos de lata atrapalhando a passagem, o espaço se transformou. Primeiro foram as crianças que logo de manhã desceram dos prédios armadas de bicicletas, skates, patinetes, bolas, cordas para pular e giz para pintar o chão. Em seguida, um adulto trouxe uma cadeira de praia e colocou-a bem no meio da rua enquanto lia o jornal e tomava um pouco de sol. Outro vizinho gostou da ideia, desceu com uns banquinhos, uma mesa e um jogo de baralho. Logo apareceu uma caixa de som e não demorou para surgir uma geladeirinha dessas portátil cheia de cerveja e refrigerante. Como era natural, em seguida um grupo se ofereceu para ir comprar carvão, pão e carne enquanto outro arranjava mais um par de mesas, cadeiras e uma pequena churrasqueira. 

E a tarde passou assim, num instante. As crianças fizeram novos melhores amigos e convidaram-se mutuamente para as futuras festas de aniversários. Os cachorros fizeram xixi em todas as árvores da rua, cheiraram-se, morderam-se e até namoraram enquanto os humanos adultos aprendiam os nomes uns dos outros e descobriam, surpresos, que os filhos vão ao mesmo colégio, que são da mesma cidade do interior, que torcem para o mesmo time de futebol ou que estão filiados ao mesmo partido político. Quando começou a escurecer já estava decidido: seria feito um abaixo-assinado para que a rua nunca mais voltasse a abrir. Um vizinho, um pouco menos animado (talvez não tivesse bebido nem uma cerveja), ponderou que era um pleito irrealizável já que aquela rua era muito movimentada, que por ali passavam várias linhas de ônibus e que, além de tudo, onde é que eles mesmos iam estacionar os seus carros? Houve um começo de bate-boca, uma jovem disse que a prefeitura que mudasse as linhas dos ônibus e construísse um estacionamento público perto, que é para isso que pagamos impostos. Por fim, com os ânimos um pouco mais calmos, chegou-se a uma proposta mais razoável: o importante mesmo era que a rua fechasse aos fins de semana, sábado de tarde e todo o domingo, para sermos mais específicos. Foi nomeada uma comissão que representaria o grupo e um porta-voz, e fez-se um brinde.

Nos dias seguintes foram recolhidas assinaturas e na outra semana o documento já tinha sido entregue a um assessor do prefeito, que até agora não disse nada. “E nem dirá”, me disse, bastante cética, umas das vizinhas. E o que aconteceu foi o que todo mundo já sabe, a rua foi reaberta, os carros voltaram a passar (e a estacionar) no asfalto novo, os ônibus trouxeram outra vez o barulho e a fumaça, e de noite uma ambulância, um carro de polícia ou caminhão dos bombeiros faz questão de recordar que a vida é uma coisa perigosa, efêmera e sem sentido. Os vizinhos esqueceram os nomes uns dos outros e não voltaram a conversar, quando muito se cumprimentam. Já nenhuma criança brinca naquela rua e nenhum cão voltou a andar sem coleira. “Olha, se não tivéssemos tirado fotos eu até duvidaria de que aquilo aconteceu”, me conta um dos protagonistas daquele fim de semana que parece tão distante em tempo e espaço.  

Há duas semanas houve eleições municipais. O prefeito se reelegeu sem dificuldades.  

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