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Crônica

A ciência é perfeita, exceto quando não é

Ninguém coloca as falhas no Lattes nem publica o que não deu certo

Crônica
28 de fevereiro de 2026
04:00
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No meu ofício de comunicar ciência, aprendi a identificar um tipo especial de silêncio. É o que se instala depois de uma pergunta sobre o que deu errado. O cientista se desconcerta, surpreso. Porque ninguém publica o fracasso. Ninguém estampa no Lattes o experimento que não funcionou. Mas, nos bastidores, nas conversas aqui e ali, as histórias de erro são também folclore, uma espécie de tesouro escondido em laboratório. 

Que o diga o biólogo Filipe Abreu. Ainda na iniciação científica, ele precisava capturar piolhos-de-cobra em cavernas para um experimento. As armadilhas comerciais não serviam. Foi então que ele teve a ideia, quase poética, de usar os próprios cabelos como isca. Finos, resistentes. Perfeitos. E por sete meses, ele semeou a caverna com seus fios, um a um.

O resultado? Um retumbante nada. Os bichos, com a sabedoria de suas muitas pernas, simplesmente se desvencilharam. Filipe, que hoje se autodeclara “calveludo”, não descobriu nada sobre os bichos, mas aprendeu tudo sobre o método científico: antes de se sacrificar, teste a armadilha.

Se o erro de Filipe foi solitário, o da ecóloga Deliane Penha foi uma catástrofe coletiva, nascida da mais pura alegria. Imagine a cena: depois de um esforço monumental, ela e sua equipe conseguem umas raras mudas de espécies nativas da Amazônia. Um golaço. O trabalho de transplante das mudas dura o dia todo. Ao final, exaustos, eles não sentem o cansaço, mas uma euforia que transborda.

A felicidade era tanta, tão completa, que eles se esqueceram do básico. Esqueceram do gesto mais primitivo, mais óbvio: a água. No dia seguinte, o viveiro não continha um experimento promissor, mas um cemitério de pequenas árvores. A pergunta de alguém – “vocês molharam as mudas?” –  não foi só uma pergunta, mas a constatação da derrota. A prova de que a alegria, em excesso, pode ser sua própria armadilha na ciência.

E sabe aquelas histórias que correm à boca pequena, quase como um aviso e que ninguém sabe se são verdadeiras? A minha preferida é a da marmita. Sim, a marmita. Uma aluna de iniciação científica, num dia de faxina no laboratório, encontrou um recipiente esquecido na geladeira. O conteúdo, já turvo, parecia suspeito. Sem pensar duas vezes, jogou tudo fora.

O que ela não sabia era que aquele recipiente não guardava o resto do almoço já passado de alguém. Guardava uma linhagem de células tumorais, cultivada e estudada por décadas. Décadas de trabalho, de investimento, de potencial cura, descartadas com o mesmo desdém com que se joga fora um iogurte vencido. 

Dos anônimos aos deuses, ninguém escapa. Alexander Fleming e sua penicilina acidental são a poesia do erro. O homem esqueceu sua amostra de bactérias em cima da mesa; quando voltou, percebeu que ela estava contaminada por fungos e, assim, descobriu a penicilina, que revolucionou a medicina. 

Nem mesmo Linus Pauling, o gigante da química, o dono de dois prêmios Nobel, fica de fora da lista. Na corrida para decifrar o DNA, ele se apressou. E propôs um modelo de três fitas. Uma estrutura que, como disse seu colega de corrida James Watson, revelava que “um gigante tinha esquecido a química do ensino médio”. Uma prova de que a pressa e a vaidade são capazes de cegar até a mente mais genial.

E é aqui que você, talvez, me pergunte: se o iniciante perde os cabelos, se a especialista se afoga na própria alegria, se uma cura em potencial pode ir para o lixo e se o gênio se engana de forma tão espetacular, como confiar na ciência? Como defendê-la?

A força da ciência não vem da ausência de erros, mas da sua obsessão em caçá-los. É um sistema construído para se autocorrigir, já disse a historiadora Naomi Oreskes. É uma arena onde uma comunidade de gente teimosa e cética passa os dias colocando à prova as ideias uns dos outros. A verdade na ciência não nasce de uma revelação solitária, mas do barulho, da crítica, do escrutínio implacável.

Está no biólogo que aprende a testar, na ecóloga que nunca mais se esquece de regar, no gigante que é corrigido por seus pares. A ciência nos lembra que, mesmo na busca pela mais sublime das verdades, continuamos, para nossa sorte, apenas e irremediavelmente humanos.

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