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Corte de verba da polícia científica deixa corpos sem refrigeração no IML de Santos

Governo Tarcísio reduziu em quase 64% o orçamento destinado à manutenção de instalações

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5 de fevereiro de 2026
04:00
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Raimundo Rosa/PMS

Quando as ondas de calor atingem a cidade de Santos, no litoral paulista, os moradores do bairro Estuário, na zona portuária, ligam os ventiladores, abrem as janelas e espirram aromatizantes em suas casas para lidar com o forte cheiro de putrefação vindo do Instituto Médico Legal (IML) da cidade.

Segundo o Sindicato dos Peritos Criminais do Estado de São Paulo (Sinpcresp), o motivo do cheiro forte é a falta de refrigeração adequada aos corpos que ficam expostos nas salas de autópsia em temperatura ambiente, o que escancara os problemas estruturais que a polícia técnico-científica vive sob a gestão do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos).

O odor, segundo peritos e moradores, é o sintoma mais visível de um problema maior: um levantamento feito pela Agência Pública constatou a redução de quase 64% do orçamento destinado ao programa de melhoria, manutenção e construção das instalações físicas destinadas à Polícia Técnico-Científica, de 2023 até 2026, de acordo com as Leis Orçamentárias Anuais (LOAs) dos quatro anos.

No ano de 2023, o primeiro da gestão do governo Tarcísio, o orçamento para instalações físicas, aprovado pela LOA, foi de R$ 23,9 milhões. Para 2026, no entanto, o montante é de R$ 8,7 milhões.

O investimento nas instalações físicas da polícia científica foi reduzido ano a ano, caindo pela metade em 2024, com R$ 12 milhões investidos, para R$ 6 milhões em 2025 e um leve aumento para 2026, com R$ 8,7 milhões.

A polícia técnico-científica é a responsável pela produção de provas periciais para investigações criminais e decisões da Justiça. Ela realiza perícias em locais de crimes e exames em vestígios como armas, drogas, documentos e objetos. Também atua na área médico-legal, com necropsias e laudos sobre lesões corporais, fundamentais para apurar mortes e violência.

“Talvez ele [Tarcísio] não tenha o menor conhecimento, a menor noção do que é a Polícia Científica, de qual é a sua importância para o Estado. Porque, se tivesse, jamais ele deixaria chegar nesse ponto”, disse Bruno Lazzari, presidente do Sinpcresp.

Falta de estrutura causa mau cheiro no IML de Santos

Parte dos corpos que chegam ao IML de Santos ficam expostos à temperatura ambiente, porque a maca que deveria colocá-los nas geladeiras mais altas está quebrada. Sendo assim, alguns ficam sobre mesas espalhadas pelo IML, até que se libere espaços nas geladeiras.

“Para um familiar que já está sensibilizado com a situação [da morte de um ente querido], o impacto emocional deve ser muito grande. Afinal aquela situação torna-se uma lembrança permanente”, argumentou Lazzari.

A queima do café torrado foi uma das tentativas da moradora Daniela Tavares, de 39 anos, para espantar o cheiro podre que vem do IML, em frente à sua casa. Segundo ela, no entanto, nada é forte o suficiente para aliviar a fetidez.

Por que isso importa?

  • Orçamento para instalações físicas da polícia científica caiu de R$ 23,9 milhões em 2023 para R$ 8,7 milhões este ano;
  • Cortes deixaram o IML de Santos sem equipamentos adequados para a refrigeração de corpos. Moradores convivem com o mau cheiro vindo das instalações.

Há dois meses, a filha de Tavares brincava na porta de casa, quando o vento bateu e o fedor fez com que a brincadeira acabasse. “Tinha até urubus sobrevoando o prédio [do IML] naquele dia, de tão forte que o cheiro estava”, contou a moradora.

O prédio da polícia científica de Santos, que abriga o IML, foi inaugurado em 2023. A nova sede do instituto foi recebida com protestos dos moradores do bairro Estuário, que organizaram até mesmo um abaixo-assinado contra a construção. “Nós espalhamos adesivos pelo bairro escrito: ‘IML não!”’, lembrou Tavares.

“O prédio de Santos, infelizmente, está muito longe da estrutura que entendemos ser a adequada. É praticamente um galpão que foi adaptado”, disse o presidente do sindicato.

Diante da denúncia feita pelos vizinhos do IML, Lazzari disse que o Sinpcresp avalia os riscos a que os servidores estão submetidos ao trabalhar nessas condições.

“Corpos em decomposição possuem um cheiro muito desagradável. Trabalhar nessas condições é insalubre. Os gases liberados por cadáveres em decomposição são tóxicos e inflamáveis”, alertou.

Pelo menos uma vez na semana, uma servidora da polícia científica, que preferiu não se identificar, contou que sente mal-estar ao chegar na sede de Santos, por conta do cheiro que vem do IML. “É mais comum as pessoas reclamarem de dor de cabeça, porque fica o dia inteiro exposto ao cheiro”, contou.

Problemas em outras unidades do estado

Os problemas nas instalações físicas, entretanto, se estendem às outras unidades da polícia científica espalhadas pelo estado. Além da precariedade dos edifícios, faltam até mesmo materiais de higiene.

Uma perita criminal que atua na capital e também pediu para manter sua identidade em sigilo, contou à Pública que as viaturas utilizadas pela equipe “são raramente lavadas, porque não há orçamento destinado a esse serviço”.

“Você vai a um lugar totalmente insalubre, volta com sangue no pé e material biológico contaminado, [entra na viatura] e não tem dinheiro para lavar viatura […] tem material biológico de muitos dos mortos que foram atendidos”, explicou.

Os problemas estruturais se repetem em Votuporanga e Assis, no interior de São Paulo, onde os prédios sofrem com infiltrações e viaturas antigas sem circulação. Em dezembro de 2025, o sindicato denunciou que faltavam luvas para manusear objetos apreendidos e precisavam arcar com equipamentos de proteção individuais, que não eram fornecidos pelo estado.

“Eu tenho que levar o meu material próprio, porque não tem nem sabão pra lavar uma louça e às vezes falta papel higiênico”, disse a perita criminal que trabalha em São Paulo.

Em Assis, segundo o sindicato, três viaturas disponíveis para a equipe de peritos estão paradas por mau funcionamento. Segundo servidores que atuam na unidade, os veículos são antigos e, mesmo com pedidos de trocas, nada foi feito.

Na unidade de Araçatuba, também no interior de São Paulo, os materiais coletados durante as perícias são deixados pelo chão, porque não há local adequado para armazenar os objetos apreendidos, que serão posteriormente periciados, longe de refrigeração e ambiente seguro.

Procurada para comentar os casos citados na reportagem, a Secretaria da Segurança Pública (SSP), sob a gestão do secretário Nico Gonçalves, disse que não houve descontinuidade ou “desinvestimento em sua estrutura e serviços”, embora os dados públicos mostrem o oposto. Também que a SSP “manteve uma política consistente e contínua de investimento e custeio na área de segurança e perícia oficial.”

Sobre a sede da Polícia Científica de Santos, a pasta negou que haja problemas de funcionamento no IML de Santos e informou que “a superintendência acompanha permanentemente a demanda da unidade para dimensionar melhor a sua capacidade de resposta.”

A nota finaliza dizendo que o Estado tem buscado melhorar os seus serviços, “assegurando a plena operação da Polícia Técnico-Científica e das perícias criminalísticas, além da preparação de investimentos estruturantes – como modernização de instalações – com execução escalonada e responsável ao longo dos exercícios.” [Leia a nota na íntegra]

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