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‘Nunca vi isso aqui’: moradores de Juiz de Fora relatam caos após chuva recorde

Cidade mineira enfrenta fevereiro mais chuvoso de sua história, além de mortes provocadas por deslizamentos

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25 de fevereiro de 2026
08:00
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Juiz de Fora (MG), 24/02/2026 - Familiares acompanham busca e resgate de pessoas em escombros de casas soterradas por lama após fortes chuvas
Tânia Rêgo/Agência Brasil

Já chovia muito quando, por volta das 22h desta segunda-feira, 23 de fevereiro, Anderson Mendes, 29 anos, ouviu um barulho muito alto, seguido pelo alerta “severo” da Defesa Civil em seu celular. O aviso advertia sobre o risco de alagamento e deslizamento. Pouco depois, a confirmação chegou pela síndica no grupo de WhatsApp do prédio: acabara de ocorrer um deslizamento de terra, mas ainda era impossível saber exatamente o que estava acontecendo. Um pedido: que todos ficassem alertas. 

Não demorou muito para Mendes, morador de Paineiras, bairro de Juiz de Fora, na zona da mata mineira, ouvir um barulho “muito forte se aproximando”, “um barulho muito assustador”. Ele não teve dúvidas: saiu correndo para o corredor, ainda sem camisa, onde encontrou com vizinhos, igualmente apavorados. Já da entrada do prédio, eles tiveram um vislumbre do que estava acontecendo: uma casa estava caída, a rua parecia devastada e a chuva descia do céu muito forte. Alguém gritou: “cuidado, vai cair mais!”. Mendes voltou, vestiu uma camiseta, pegou o celular, o carregador e saiu correndo no meio da chuva mesmo. Enquanto isso, outros moradores desesperados também deixavam o edifício, alguns acompanhados por seus animais de estimação.

Mendes, que é dançarino e ator, conhecido pelo nome artístico de Andy Mendes, passou a noite abrigado na escola musical onde trabalha, algumas ruas mais para baixo, sem ainda saber exatamente o que tinha acontecido. Pela manhã, ele recebeu um novo alerta da Defesa Civil – dessa vez de risco “extremo”.

Acordei, fui do lado de fora e era aquele cenário de tragédia. Muito barro na rua, a água ainda caindo. Só hoje [terça-feira, 24 de fevereiro] tivemos dimensão do que aconteceu. O topo do morro que fica no final da rua deslizou, dá para ver a vala gigantesca que se formou. O barranco desceu, carregou uma casa e a terra atravessou totalmente outra casa, vazando aqui na frente da rua, tampou toda a rua”, relatou à Agência Pública.

Por que isso importa?

  • Na tarde de terça-feira (24), a Defesa Civil retirou todos os moradores de 24 ruas de Juiz de Fora, em quatro bairros, em função da possibilidade de mais chuva
  • Cerca de 600 famílias estão sendo alocadas em escolas municipais das regiões mais atingidas

Ele soube que os bombeiros conseguiram resgatar algumas pessoas soterradas, mas que é possível que ainda haja vítimas encobertas pelos entulhos. Mais notícias começaram a chegar de outras partes da cidade: um amigo que vive no bairro Parque Burnier, um dos mais atingidos, perdeu a mãe, soterrada. “Outras pessoas tiveram perdas materiais, há muita gente precisando de ajuda”, relatou.

A experiência de Mendes é apenas uma de centenas de uma noite de horror em Juiz de Fora. A cidade mineira de meio milhão de habitantes enfrenta o fevereiro mais chuvoso de sua história, com 584 milímetros acumulados no mês, o dobro do esperado para o mês, segundo a prefeitura.

Vários pontos da cidade sofreram com o volume das chuvas
Corpo de Bombeiros registra transbordamento do rio Paraibuna, que corta Juiz de Fora

O rio Paraibuna, que corta a cidade, subiu rapidamente e chegou a transbordar, assim como outros córregos. A tempestade que começou na noite de segunda-feira, 23 de fevereiro, deixou ao menos 30 mortos e 3.500 desabrigados, segundo números do Corpo de Bombeiros, Defesa Civil estadual e Prefeitura de Juiz de Fora divulgados até a manhã desta quarta-feira, 25 de fevereiro. 

A prefeita Margarida Salomão (PT) decretou estado de calamidade pública na madrugada de terça, reconhecido pelo governo federal pela manhã. Essa decisão facilita os trabalhos de socorro, ações de assistência humanitária e o restabelecimento dos serviços essenciais. As aulas foram suspensas na rede municipal e os cidadãos foram orientados a evitar sair de casa, já que muitas ruas estão obstruídas por deslizamentos e quedas de árvores. A prefeitura também decretou luto oficial por três dias.

A previsão meteorológica é de mais chuva até sexta-feira. Segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), o acumulado para parte de Minas Gerais, além de Espírito Santo, Rio de Janeiro e parte de São Paulo, pode ser superior a 100 milímetros de chuva por dia.

“Está todo mundo com medo do que pode acontecer”, disse Mendes, que foi para a casa da irmã em outro bairro da cidade, já que a rua onde mora permanece obstruída, e com risco de deslizamento de outras partes do morro. Por isso, ele e os demais moradores foram orientados a não retornar para o prédio. A Defesa Civil também decidiu evacuar diversas ruas do bairro e de outras regiões da cidade. Ao todo, há a previsão de retirada de cerca de 600 famílias desses locais, segundo a prefeitura, que vai acolher a população em escolas municipais.

No caminho até a casa da irmã, Mendes percebeu vários pontos no asfalto que pareciam estufados, prestes a abrir. “Eu nunca vi isso aqui”, disse sobre o caos em Juiz de Fora. A reportagem conversou com outros moradores da cidade que repetiram essa mesma frase.

“Eu estou sem acreditar, porque nunca vi isso aqui na cidade. Tem notícia por toda a cidade, no centro, nos bairros periféricos”, contou Artur Marasco, de 33 anos.

Depois de receber informações de colegas de que uma amiga do trabalho poderia ter sido atingida, Marasco, que trabalha como recepcionista e é ator, foi até a rua onde ela mora para entender o que tinha acontecido. Encontrou uma cena difícil de descrever: a casa onde a amiga vivia com a mãe e a irmã, em um segundo andar, foi destruída, quase por inteiro. A construção foi invadida pela terra de um barranco que cedeu pela pressão da chuva. Parte do terraço da casa, que fica num bairro próximo ao centro da cidade, foi parar do outro lado da rua, em cima de uma árvore, segundo Marasco. A casa que fica na parte debaixo, corre sério risco de desabamento, relata.

Artur Marasco registrou situação da residência de uma amiga que foi atingida pelo deslizamento de um barranco

Segundo Marasco, os bombeiros ainda não conseguiram localizar os corpos da mãe e das duas irmãs e precisarão demolir parte da estrutura e retirar os escombros para continuar as buscas.

A prefeitura disponibilizou uma lista de pontos de recolhimento de itens de doação e de acolhimento de pessoas desalojadas e desabrigadas.

Juiz de Fora é uma cidade com relevo acidentado, tomada por morros e com muitas pessoas vivendo próximas ou em áreas de encosta. Essas características fazem com que a cidade seja uma das que mais recebem alertas para riscos de desastres do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), como noticiou o UOL.

Ainda assim, uma tragédia dessas dimensões, com tantas perdas humanas, é inédita na cidade, segundo moradores ouvidos pela Pública.

Além de Juiz de Fora, outros municípios da Zona da Mata mineira foram impactados pelas fortes chuvas. Em Ubá, de cerca de 104 mil habitantes, o volume de chuva foi de 170 milímetros em apenas três horas e pelo menos seis pessoas morreram na “maior tragédia da história” da cidade, segundo o prefeito José Damato (PSD).

Edição:

*25/02/2026 às 10h51: Atualizamos o número de mortos e desabrigados.

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