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Reportagem

A resistência das universidades no Irã contra os governos

Repressão dos regimes do Irã desde o século 20 fez das universidades um núcleo de oposição aos governos

Reportagem
3 de fevereiro de 2026
04:00

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Faculdade de Belas Artes da Universidade de Teeran, Zereshk

Durante a onda de protestos no Irã, enquanto os Estados Unidos avaliam uma intervenção militar, muitos iranianos continuam enfrentando dificuldades para pagar por itens básicos, em meio ao colapso da economia.

As manifestações antigovernamentais começaram no Grande Bazar de Teerã, um dos maiores e mais antigos mercados do mundo, em dezembro de 2025. A partir dali, chegaram rapidamente aos campi universitários do Irã.

A resposta do governo foi rápida e conhecida: as autoridades ordenaram as universidades a migrar as aulas para o formato online, citando preocupações climáticas. Quando os estudantes continuaram a se organizar, o regime simplesmente fechou as universidades por completo.

Sou iraniana-americana e estudo os movimentos sociais iranianos há mais de 25 anos. Como educadora, também já liderei universidades americanas, ao mesmo tempo, em que mantive vínculos com instituições acadêmicas iranianas. Também testemunhei pessoalmente o ataque sistemático à liberdade acadêmica durante a presidência de Mahmoud Ahmadinejad, entre 2005 e 2013.

As universidades do Irã contam a história da própria nação: uma história de esperança persistente diante de uma repressão implacável e de uma vida intelectual que se recusa a ser extinta mesmo sob enorme pressão.

As universidades iranianas há muito tempo são espaços de reforma política e imaginação, onde os impulsos autoritários da República Islâmica se chocam contra as demandas do povo por liberdade.

O coração da reforma

O Irã possui 316 universidades credenciadas em todo o país, incluindo a Universidade de Teerã e a Universidade Islâmica Azad. As universidades iranianas têm sido centros de atividade política e protesto desde pelo menos meados da década de 1950.

Movimentos estudantis surgiram com força na década de 1940, após a abdicação de Reza Shah, um oficial militar iraniano que governou o país como xá, ou monarca, de 1925 a 1941.

Esses grupos ganharam impulso durante o movimento de nacionalização do petróleo, liderado pelo primeiro-ministro eleito democraticamente Mohammad Mossadegh. Os estudantes apoiaram as promessas de Mossadegh de um Irã democrático e livre, onde os benefícios dos recursos – como o petróleo – seriam distribuídos primeiro aos próprios iranianos, antes de se estenderem ao resto do mundo.

Os Estados Unidos lideraram um golpe militar apoiado pela CIA que derrubou Mossadegh e instalaram Mohammad Reza Pahlavi como xá do Irã em 1953.

Os campi universitários voltaram a se tornar espaços críticos de consciência política e oposição.

Engajamento de longa data

A movimentação nas universidades continuou por décadas. Estes espaços foram centrais na revolução de 1979, com estudantes se unindo a clérigos, esquerdistas e nacionalistas para derrubar a monarquia, liderada pelo xá Reza Pahlavi.

No entanto, uma vez consolidada, a República Islâmica rapidamente se voltou contra as instituições que haviam ajudado a tornar possível a revolução.

Durante as décadas de 1980 e 1990, a repressão no corpo docente levou à prisão de tantos professores, que a temida penitenciária de Evin ganhou o apelido sombrio de “Universidade de Evin”.

A vida acadêmica era rigidamente policiada, os livros eram rotineiramente proibidos e a vigilância governamental se tornou rotina. Como Azar Nafisi documentou posteriormente no livro de 2003 “Lendo Lolita em Teerã”, o engajamento intelectual muitas vezes sobrevivia apenas em grupos de leitura clandestinos e reuniões privadas.

Ainda assim, a repressão nunca conseguiu apagar o ativismo estudantil. Quando a organização formal se tornou impossível, ela se deslocou para a clandestinidade. Quando os campi eram fechados, as ideias continuavam a circular.

Distensão e a volta da repressão acadêmica

A eleição de Mohammad Khatami em 1997 alterou brevemente a dinâmica de repressão acadêmica.

Khatami concorreu como candidato reformista, com forte apoio dos jovens. Como presidente, ele amenizou um pouco a repressão sobre a vida acadêmica. As universidades reabriram discretamente como espaços de debate e pesquisa.

Realizei meu trabalho de campo sobre o movimento juvenil e a revolução sexual no Irã a partir de 1999. A pesquisa teria sido impensável alguns anos antes.

Mas a abertura promovida por Khatami se mostrou frágil. A ascensão de Ahmadinejad ao poder em 2005 foi um retorno à repressão agressiva. As universidades voltaram a ser tratadas como ameaças ideológicas. Alguns membros do corpo docente foram presos ou demitidos, organizações estudantis foram desmanteladas e os conteúdos de cursos e leituras passaram a ser fortemente censurados.

A ironia era evidente. Em meados dos anos 2000, o Irã tinha uma das maiores taxas de alfabetização e uma das maiores proporções de pessoas com ensino superior per capita da região.

Ainda assim, o governo começou a restringir os cursos que as mulheres podiam escolher e as disciplinas a serem ensinadas. Áreas inteiras de conhecimento, como engenharia, educação e aconselhamento, passaram a ser consideradas suspeitas. Professores que resistiam enfrentavam assédio e demissão. Protestos estudantis eram reprimidos com força e detenções.

Apesar disso, a mobilização liderada pela juventude persistiu. Cada grande ciclo de protestos nas últimas duas décadas – incluindo a revolta estudantil de 1999 – foi impulsionado por jovens, muitos deles estudantes universitários.

As universidades na atual revolta

Os recentes fechamentos de universidades iranianas ressaltam os temores do regime diante da resistência, não apenas pelo que é ensinado em sala de aula (já que os currículos podem ser controlados), mas pelo poder que os jovens podem adquirir quando se reúnem em espaços compartilhados.

Dormitórios, bibliotecas e refeitórios são locais onde a consciência política se forma, onde queixas individuais se transformam em reivindicações coletivas e onde a dissidência ganha impulso.

Hoje, ao alienar sistematicamente os estudantes com má administração econômica, repressão social e erosão da liberdade acadêmica, o governo criou sua melhor oposição: os jovens manifestantes. Analistas têm identificado cada vez mais esse padrão como uma das falhas estratégicas centrais do regime.

Lentes para o Irã

O que acontece hoje nas universidades iranianas não é uma história paralela, mas um dos indicadores mais claros de para onde o país pode estar caminhando.

A liberdade de ensinar, ler, questionar e debater reflete a liberdade que os cidadãos iranianos buscam na vida pública de forma mais ampla. Assim como as mulheres têm resistido ao controle estatal sobre seus corpos, milímetro por milímetro, as universidades têm resistido ao confinamento intelectual página por página, expandindo os limites do pensamento, mesmo sob ameaça de punição.

Durante décadas, estudantes e professores iranianos demonstraram uma coragem extraordinária ao sustentar esses pequenos, porém vitais, atos de desafio. Eles mantiveram vivo o que os iranianos chamam de “koorsoo”: uma pequena e teimosa chama de esperança que persiste mesmo na escuridão.

A história sugere que sociedades que travam guerra contra suas instituições intelectuais acabam perdendo mais do que o controle – perdem a legitimidade. As universidades do Irã há muito tempo são o coração da reforma. Hoje, esse coração bate mais forte e pode mais uma vez moldar o curso da história da nação.

Essa reportagem foi publicada originalmente pelo The Conversation e republicada em parceria pela Agência Pública.

Asalehi/Wikimedia Commons

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