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Neste 8 de março, não nos deem flores – elas estão cheirando a velório

O show do ódio está no ar na semana em que se declara “amor” pelas mulheres

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6 de março de 2026
17:00
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“Parabéns, pelo seu dia, guerreira”. Fico imaginando quantas de nós vamos receber esse tipo de cumprimento no dia 8 de março, acompanhado de flores, bombons e presentinhos que combinam com a louvada “delicadeza” das mulheres. O adjetivo “guerreira”, mais do que reconhecimento da força, soa algo cínico, como se o perigo, que nos tira a paz, não viesse precisamente deles – dos homens que nos homenageiam.

Elogios que mais se assemelham a uma condenação. Seja nos versos do poeta, “uma mulher tem que ter um molejo de amor machucado, uma beleza que vem da tristeza de se saber mulher, feita apenas para amar, para sofrer e ser só perdão”; ou no sermão do pastor, “Deus delegou à mulher o papel de auxiliar do marido, ele é o líder, mas o papel dela é de extrema importância, pois ela foi criada com intuição e sensibilidade aguçadas para o cuidado e para manter a harmonia familiar”.

Na linguagem crua do predador, “delicada” ou “submissa” significa disponível, violável, vulnerável como um cão abandonado, a quem se espanca apenas por não poder se defender. A resistência, ou a “tristeza”, da presa não é mais que excitação para o macho consolidar seu poder; o “não” desesperado da vítima é um convite para a violência, seja na nudez indefesa da menina ou no hábito da freira idosa no convento.

Não se trata de metáforas de gosto duvidoso, mas de fatos concretos, tirados de acontecimentos recentes. Uma adolescente que vai com o namorado, colega de escola, para um encontro amoroso em um apartamento em Copacabana e é apanhada na armadilha do estupro coletivo, xingada, violada e espancada por outros quatro homens da maneira mais covarde. Uma freira de 82 anos de idade, morta e estuprada em um convento no Paraná por um homem de 33 anos, a quem ousou interpelar.

Como provam as estatísticas, não são casos isolados. No ano passado, o Brasil registrou um estupro a cada 6 minutos, mais de 83 mil casos, o que representa cerca de 10% do número real, segundo um estudo do Ipea divulgado em março do ano passado. Não é à toa que 82% das mulheres relataram ter “muito medo” de serem estupradas em uma pesquisa realizada pelo Instituto Patrícia Galvão em 2025. 

E tem mais: também no ano passado, 1.568 brasileiras foram mortas por serem mulheres, vítimas de feminicídio. A maior parte delas (59,4%) assassinada por seus parceiros íntimos ou ex-parceiros (21,3%). Quantas terão recebido flores e juras de amor de seus algozes antes de serem mortas?

Desde crianças, sofremos abusos mais ou menos graves em casa, nas ruas, nas escolas – uma pesquisa da ONG Serenas que ouviu 1.300 professores do Ensino Fundamental ao Médio constatou que 70% dos docentes já viram meninos sexualizando meninas ou fazendo cantadas indesejadas no ambiente escolar; 42% deles também presenciaram meninos tocando e acariciando meninas de forma desrespeitosa ou sem consentimento.

Se isso não for cultura do estupro, não sei como chamar.

E parece que estamos andando para trás. Não temos mais educação sexual nas escolas, por exemplo, e sequer podemos falar sobre igualdades e desigualdades de direitos entre gêneros. Termos como “ideologia de gênero”, que nunca foram mais do que ilusão, e ameaças bem concretas aos professores impedem o debate mais do que necessário em um momento de superexposição de crianças e adolescentes à pornografia e à presença de grupos e padrões misóginos nas redes sociais.

Perguntei à reitoria do Colégio Pedro II, onde estudavam a vítima e três dos acusados do estupro em Copacabana, esses expulsos da escola, quais são suas políticas de prevenção de violência e assédio. A resposta: “Agradecemos o interesse da Agência Pública em abordar as ações desenvolvidas pelo Colégio na área de educação sexual e prevenção ao assédio. No momento, não teremos disponibilidade para conceder entrevista sobre o tema. Informamos, contudo, que a Instituição está elaborando uma nota oficial para tratar do assunto de forma detalhada, a qual será encaminhada assim que estiver finalizada.”

Nesse 8 de março, não queremos mais justificativas, desculpas, flores e bombons. Também não queremos mais o spray de pimenta na bolsa, o coração disparado de susto, o medo de sair de casa. As políticas de combate à violência contra a mulher e à desigualdade de gêneros, assim como a construção de redes de apoio sólidas, têm que ser prioridade do Estado e da sociedade. E o olhar honesto para o espelho, o dever de cada homem.

Lembro de outra vítima de estupro coletivo, essa uma menina de 16 anos atacada por mais de 30 homens, em 2016. Além da violência extrema, os agressores gravaram um vídeo e divulgaram nas redes sociais, merecendo aplausos e comentários jocosos de outros homens – seria mesmo exagero dizer que todo homem é um estuprador em potencial? Entrevistada no Fantástico, sobre que punição esperava para os agressores, ela respondeu: “Só desejo que eles tenham uma filha mulher”.

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