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Programa atômico do Irã foi criado pelos EUA que hoje lança “Fúria Épica” sobre o país

Há quase 70 anos, Estados Unidos ofereciam um intercâmbio de pesquisas nucleares contando que a parceria seria duradoura

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2 de março de 2026
15:00
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Divulgação U.S. Central Command (CENTCOM)

Em 1957, o então presidente americano, Dwight D. Eisenhower, inaugurou a era atômica do Irã, dando início a um robusto programa de cooperação nuclear entre os dois países, chamado “Átomos para a Paz”. Passados quase 70 anos, outro presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, lançou contra o Irã neste sábado (28) uma operação militar chamada “Fúria Épica”, sob o pretexto de destruir esse mesmo programa nuclear.

Entre um evento e outro, houve um mar de mudanças – o Irã passou das mãos de um regime monárquico, que era simpático aos Estados Unidos nos anos 1950, para outro, controlado por clérigos religiosos que, desde 1979, faz da oposição aos americanos uma profissão de fé. Nessa trajetória, mudaram tanto os aliados quanto os inimigos, mas um elemento permaneceu inalterado: a capacidade técnica e os recursos tecnológicos do Irã para desenvolver armas atômicas, a partir de um conhecimento instalado originalmente pelos próprios Estados Unidos.

Em todos esses anos, nunca existiu nenhuma informação produzida por observadores internacionais que atestasse a existência de ogivas nucleares no Irã. O país é signatário dos principais tratados internacionais na matéria, esteve aberto ao longo de todos esses anos a inspeções de órgãos técnicos. Ainda aderiu, em 2015, a um acordo proposto pelos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança das Nações Unidas (Estados Unidos, Reino Unido, França, Rússia e China), além da Alemanha, que, na prática, tornava impossível que o país persa viesse a enriquecer urânio em percentuais aptos para uso militar. Mesmo assim, os atuais governos dos Estados Unidos e de Israel consideram que Teerã vinha caminhando secretamente para burlar esses mecanismos, a ponto de justificar uma ação armada. 

A dor de cabeça que os americanos contraíram para si foi fruto de um presidente Eisenhower ao mesmo tempo ingênuo e prepotente demais. A ingenuidade está no fato de não conseguir prever à época que os ventos favoráveis aos Estados Unidos, que sopraram no Irã a partir de 1953, não mudariam de direção, como de fato mudaram em 1979. A prepotência deve-se à presunção americana de que os iranianos permaneceriam indefinidamente presos à órbita de influência de Washington, sem jamais bascular na direção da China e da União Soviética, como acabou acontecendo. E a combinação desses dois fatores é o que, quase sete décadas mais tarde, levou à atitude intervencionista de Trump no Irã.

Americanos e britânicos têm, como aliados, um longo histórico de intervencionismo no Oriente Médio, e o Irã foi um exemplo claro do efeito nefasto desse comportamento. O país persa passou a ser governado a partir de 1951 por um primeiro-ministro civil e laico – dois elementos incomuns numa região pródiga em produzir líderes religiosos e militares. Mohammed Mossadeg tinha estudado ciência política em Paris e lecionava na Universidade de Teerã, antes de assumir o cargo. Sob todos os aspectos, seria um líder palatável para americanos e europeus, não fosse o fato de ser também nacionalista.

Em 1953, Mossadeg decidiu estatizar a indústria petrolífera de seu país, o que contrariava os interesses da Companhia Anglo-Iraniana de Petróleo, mais tarde chamada Birtish Petroleum, até tornar-se a hoje conhecida BP. 

Os Estados Unidos e o Reino Unido instigaram o então xá do Irã a conspirar contra seu próprio primeiro-ministro. Reza Pahlavi tinha até então um cargo em grande medida protocolar, como a rainha da Inglaterra, mas americanos e britânicos propuseram que ele depusesse Mossadeg e assumisse o poder de forma absoluta. O xá entrou no acordo, prometendo em troca manter os aliados ocidentais no controle da exploração petrolífera.

Mossadeg ainda recebeu apoio de parte da população iraniana, que saiu às ruas em sua defesa. Pressionado pela reação inesperada, o xá fez um recuo estratégico, se mudando para Roma, enquanto um militar, Fazlollah Zahedi, assumiu o cargo. A armação de americanos e britânicos tinha como pano de fundo o temor de que, em plena Guerra Fria, o Irã fosse cooptado pela União Soviética. Mossadeg nunca foi comunista, mas bastou seu nacionalista para justificar esses temores. Em agosto de 1953, Mossadeg caiu e foi preso. O xá governou por dois anos em dobradinha com Zahedi, e depois seguiu por 26 anos comandando uma ditadura personalista, sozinho. 

Foi nesse mesmo ano de 1953, que Eisenhower tomou posse como presidente dos Estados Unidos. Uma de suas primeiras decisões foi lançar uma iniciativa ousada para intercambiar material e conhecimento atômico com países então tidos como parceiros dos Estados Unidos. O programa “Átomos para a Paz” foi anunciado ao mundo na Assembleia-Geral das Nações Unidas, em Nova York, em 8 de dezembro de 1953 – portanto, menos de um ano depois de Eisenhower ter chegado à Casa Branca.

Antes de tudo isso, ainda em 1945, os americanos tinham realizado, em Hiroshima e Nagasaki, no Japão, os dois primeiros – e até agora únicos – ataques com bombas nucleares da história da humanidade, provocando a morte imediata de mais de 100 mil pessoas e causando danos irreversíveis. A ação marcou o fim da Segunda Guerra Mundial e o início da Guerra Fria, durante a qual os Estados Unidos e a União Soviética passaram a protagonizar uma corrida armamentista que tinha no componente atômico sua expressão mais ameaçadora. 

Atrair países aliados para suas respectivas esferas de influência era à época a prioridade para americanos e soviéticos. O xá, que havia aceitado o plano de britânicos e americanos contra Mossadeg, esperava agora pelos benefícios dessa empreitada conjunta. Foi nesse cenário que a cooperação atômica oferecida pelos Estados Unidos caiu como uma luva.  

Depois de ter cometido em Hiroshima e Nagasaki um dos crimes de guerra mais brutais de que se tem notícia, os americanos estavam ávidos não apenas por assegurar sua primazia atômica sobre os soviéticos, como também por reverter parte do enorme passivo moral resultante dessa ação chocante. Por isso, Eisenhower proclamou, no púlpito da Assembleia-Geral da ONU, a intenção de compartilhar esse “invento miraculoso da humanidade” com nações amigas.

Quatro anos depois do discurso de Eisenhower em Nova York e da queda de Mossadeg em Teerã, o xá celebrava o desembarque em sua capital de um enxoval de possibilidades atômicas, apresentado pela Casa Branca. A Universidade de Teerã passou a sediar o centro de pesquisas nucleares, dando início a um intenso intercâmbio acadêmico, por meio do qual toda uma geração de cientistas iranianos foi estudar nos Estados Unidos. 

A era dos aiatolás e as mudanças de parceiros atômicos

O primeiro reator nuclear da história iraniana foi dado pelos americanos em 1967. Menos de dez anos depois, em 1976, o xá fez com que o orçamento nacional destinado ao programa atômico iraniano já tivesse passado de 31 milhões de dólares para 1 bilhão de dólares. O golpe em Mossadeg tinha sido exitoso, a cooperação atômica andava de vento em popa e a ameaça soviética tinha sido afastada. Nada parecia perturbar os desígnios do programa “Átomos para a Paz”, até que, em 1979, estudantes nacionalistas aliados a clérigos religiosos protagonizaram uma revolução que pôs fim aos 26 anos de ditadura do xá, instaurando no lugar dela o regime dos aiatolás, que perdura até hoje.

Com o poder mudando de mãos no Irã, o controle do programa atômico mudou também. Subitamente, os maiores inimigos dos Estados Unidos passaram a deter uma tecnologia que Washington pretendia manter restrita apenas para si e para seus aliados. Por mais que o governo americano cortasse relações diplomáticas com esse novo Irã, dos aiatolás, e interrompesse a cooperação técnica e científica com a Universidade de Teerã, nada seria capaz de reverter a capacidade atômica instalada até ali, nem o conhecimento adquirido.

Sem os antigos parceiros americanos, o novo Irã se voltou para novas amizades atômicas. Uma das principais delas foi com o Paquistão, cujo cientista Abdul Qadir Khan havia se tornado um dos maiores difusores do conhecimento nuclear fora do eixo americano, chegando a assessorar a Coreia do Norte e a Líbia, além do Irã. Além disso, o país se aproximou da China que, em 1991, reconheceu ter fornecido urânio a Teerã e à Rússia.

Nos últimos 20 anos, os Estados Unidos conseguiram, de alguma forma, circunscrever os riscos do programa nuclear iraniano à área meramente civil, por meio do acordo chamado P5+1, que, a partir de 2015, passou a impor um controle estrito sobre as reservas de urânio do país e sobre seus níveis de enriquecimento. Pela proposta, o urânio iraniano seria enriquecido fora do país, e entregue em percentuais úteis apenas para o uso civil e medicinal. Mas, em 2018, Trump rompeu esse acordo e passou a forçar um fim militar para o programa todo. 

Em 2025, já em seu segundo mandato, ele bombardeou, junto com Israel, instalações nucleares do Irã, proclamando que o programa atômico do país tinha sido obliterado. Agora, em 2026, Trump voltou à carga, com novos bombardeios, que culminaram desta vez com a morte do líder supremo do Irã, Ali Khamenei, o que abre uma nova página na história das relações entre os dois países, sem que seja possível vislumbrar ainda todas suas consequências.

Edição:
Casa Branca/Daniel Torok

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