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Crônica

Spike, o cacto: o primeiro de seu nome

O que descobri com o ritual da minha avó e que nenhum manual ensina

Crônica
28 de março de 2026
04:00
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Uma das minhas memórias mais nítidas da minha avó não é uma imagem, e sim um ritual. Lembro dela atravessando o quintal devagar, banhada pela luz que entrava pelas frestas do portão enferrujado, cantarolando e conversando com as plantas como quem atualiza uma amiga íntima. O espaço não era grande, mas na minha cabeça de criança, parecia uma floresta particular.

Sempre que precisava afastar um galho ou colher uma flor, ela pedia: “Licença, minhas queridas”. O pedido se repetia nos dias de poda, quando a tesoura e o inseticida entravam em cena. Nada ali era feito sem aviso, nem sem afeto. Crescer naquela casa despertou um lado místico em mim. Entre histórias, superstições e santos, aprendi cedo uma verdade: as plantas sentem.

Os anos passaram. Minha avó já não caminha pelo quintal, mas o hábito de ter plantas por perto floresceu em mim, talvez como uma tentativa de mantê-la. Hoje, idealizo um apartamento cheio de verde, mas, na vida real, me adapto ao que é possível: espadas-de-são-jorge, cactos, jiboias. Plantas resistentes, que talvez estejam preparadas para lidar com o temperamento do seu dono.

Por um tempo, tudo prosperou. Até que notei algo: minhas plantas pareciam sentir comigo. A comprovação veio com a morte do meu cacto mais antigo: Spike, o primeiro de seu nome, que não resistiu após um período de ansiedade. Antes dele, outras suculentas também se foram, apesar de todos os cuidados descritos nos manuais. Faltava algo que nenhum manual ensina: equilíbrio. Elas sobreviveram a possíveis afogamentos, mas não às minhas fases de desordem interna.

Reparei que, nos dias de alegria, as folhas pareciam mais vivas. Não que as plantas exijam uma felicidade constante — muitas vezes, foram elas que me fizeram levantar da cama em dias de desânimo. Mas percebi que as mortes aconteciam quando eu me perdia em mim mesmo. O aviso vinha em tom de tragédia, quase teatral, quase shakespeariano. Nunca fui muito fã de Shakespeare, mas minhas plantas parecem gostar de uma boa tragédia. Talvez devesse apresentá-las a Homero, para variar o repertório.

Cuidar de plantas é um exercício de autocuidado disfarçado. A vida adulta se parece com ter raízes na terra: receber nutrientes não basta. É preciso movimento, tempo e, acima de tudo, luz. Girassóis sabem disso. Nós esquecemos.

Assumo a culpa pela partida de muitas que, como Spike, tentaram me lembrar de que a vida precisa de equilíbrio. Que viver exige claridade, mesmo para quem prefere a sombra. Pequenas vitórias — um bom diálogo, um banho demorado, o silêncio — funcionam como adubo. É assim que a gente germina de novo.

Não concluo nada, porque crônicas raramente se concluem. Elas deixam sementes. Talvez minha avó já soubesse, quando pedia licença às plantas, que aquele gesto nunca foi só sobre folhas. Era, desde o princípio, um jeito de pedir licença para cuidar de si — e dos outros.

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