Buscar
Reportagem

Recusa familiar na hora da doação de órgãos varia em função do governo?

Dados históricos sugerem que não, mas aceitação e ampliação desse cenário tem tudo a ver com política pública de saúde

Reportagem
5 de março de 2026
04:00

Nos adicione como fonte preferencial no Google.

Na foto, Mateus Miranda da Silva (realizou transplante de córnea no olho esquerdo em 2024, e aguarda na fila para realizar o procedimento do olho direito)
Teresa Maia/Agência Pública

Diante do luto, quase metade das famílias brasileiras, mesmo em situação de ajudar outros pacientes em necessidade de órgãos e tecidos, nega a coleta para transplantes. A recusa familiar no Brasil se mantém, há mais de uma década, em torno de 45%, uma realidade que varia de forma expressiva entre os estados e atravessam governos de diferentes espectros políticos. Mas, afinal, o quanto a política tem a ver com essa realidade?

Levantamento feito pela Agência Pública mostra picos e quedas do índice desde 2013. Em alguns casos, as variações coincidem com transições administrativas, o que poderia sugerir impacto de mudanças na condução das políticas estaduais de saúde. Especialistas e gestores, no entanto, afirmam que bons índices independem de política partidária e têm direta relação com o tripé: continuidade institucional, qualificação técnica e acesso à informação.

Por que isso importa?

  • A cultura da doação é algo que demonstra maturidade da política de saúde de um país e não deve ser encarada como bandeira empunhada por apenas esquerda ou direita, independentemente da polarização política em que o país se encontra.

Um bom exemplo é Santa Catarina, que consolidou, ao longo dos últimos anos, uma das menores taxas de negativa familiar no país, orbitando em torno de 30% no último quinquênio. O coordenador da SC Transplantes, Joel de Andrade, afirma que o estado adotou, desde 2005, um modelo inspirado na Espanha, referência mundial em doação, com foco na formação dos profissionais que atuam na linha de frente.

“Baseia-se na presença de coordenadores hospitalares de transplantes treinados, apoio institucional centralizado, auditoria contínua, incentivos financeiros, educação permanente e uma relação estratégica com os meios de comunicação”, destaca Andrade, citando o curso de Comunicação em Situações Críticas, criado para capacitar profissionais de saúde a aprimorar o processo de comunicação com familiares. “Desde sua implementação, mais de 3 mil profissionais foram treinados e a taxa de negativa familiar caiu de 70% para menos de 30%”.

No Paraná, onde os índices passaram a se manter abaixo de 35%, a Secretaria de Saúde do Estado (SESA-PR) também atribui a redução consistente da recusa familiar quanto à doação de órgãos e tecidos ao fortalecimento do sistema estadual. O modelo inclui padronização de fluxos, monitoramento de indicadores e reorganização das Organizações de Procura de Órgãos.

O secretário de Estado de Saúde do Paraná, Beto Preto, afirma que a continuidade do modelo foi decisiva. “O grande diferencial é a qualificação e a capacitação contínua, somadas ao compromisso dos profissionais que atuam em todas as etapas do processo para transformar a realidade de quem aguarda por um transplante. Investimentos estruturais e campanhas publicitárias são ações fundamentais que complementam e fortalecem o Sistema Estadual de Transplantes”, afirmou.

Em números absolutos, São Paulo lidera com folga o ranking de estados com mais transplantes de órgãos realizados anualmente desde o início dos anos 2000, o que se explica parcialmente por sua população massiva, a demanda que essa realidade cria, e pela ampla rede de saúde concebida para atendê-la.

Projeto de saúde deveria independer de gestão estadual

O levantamento feito pela Agência Pública identificou momentos de inflexão em diferentes estados, ora com alta, ora com queda nas taxas de recusa, muitas vezes coincidentes com transições ou consolidações de governo. No Maranhão, por exemplo, houve alta em 2015, durante a gestão de Flávio Dino (PCdoB), e queda em 2024, sob Carlos Brandão (PSB). Já em Mato Grosso, a curva caiu em 2014, no governo de Silval Barbosa (PMDB), e voltou a subir em 2021, na administração de Mauro Mendes (União Brasil).

No entanto, para o médico e membro do conselho da Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos Lucas Nacif, a recusa tem menos relação direta com a coloração partidária dos governos, mas com falta de informação historicamente consistente para promover a diminuição dessa taxa com base nos seguintes fundamentos que não deveriam ser negligenciados: “A divulgação, a informação, a ajuda dos governantes, financiamento para que essa informação chegue [às famílias] e para que esses profissionais possam fazer que isso chegue lá [no objetivo]”.

Ao contrário de Santa Catarina e Paraná, em Goiás, os percentuais de recusa familiar para doação de órgãos se mantiveram no patamar mais elevado ao longo de toda a série histórica e chegaram a 70% em 2025, sob a gestão do governador Ronaldo Caiado (União). A Secretaria da Saúde de Goiás avalia que o fenômeno é multifatorial, pois a decisão ocorre em momento de fragilidade emocional e é influenciada por fatores culturais, sociais e religiosos.

Desde 2019, segundo a secretaria, não houve descontinuidade da política de transplantes, mas intensificação das capacitações e do monitoramento. “Os principais desafios não se concentram em ausência de estrutura, mas na necessidade contínua de qualificação das equipes, padronização de fluxos hospitalares e fortalecimento da comunicação com familiares”, informou a pasta, que afirmou ainda estar finalizando o Plano Estadual de Transplantes, que estabelece metas, diretrizes e planejamento estratégico para os próximos quatro anos.

“O plano contempla ações estruturadas voltadas à qualificação assistencial, ao fortalecimento da comunicação com familiares e à ampliação da cultura da doação, com foco na redução da recusa familiar e na melhoria progressiva dos indicadores estaduais”, complementou.

Edição:
Pedro França/Agência Senado
Beto Barata/Agência Senado

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Leia também

Após meio milhão de transplantes em 25 anos, Brasil tem 45% de recusa em doação de órgãos


Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Assine nossas newsletters
Fique por dentro

Artigos mais recentes

Imposto do pecado: Governo alivia para indústrias e adia proteção popular, alma da reforma

|

Indústrias do refrigerante e mineração terão 2027 de impostos baixos ou zerados frente a impacto à saúde e meio ambiente

Como a quebra do banco Ueno, no Paraguai, acabou com o governo do presidente Santiago Peña

|

Crescimento do Ueno teve ajuda política e dinheiro público; presidente foi acionista de empresa do grupo ligado ao banco

Queimaduras, terror psicológico e salários atrasados em data centers na Europa

|

Investigação revela realidade dos trabalhadores nos centros de desenvolvimento de infraestrutura de IA na Europa

Sessão sobre a PEC da segurança pública no Senado

Segurança Pública: PEC da redução da maioridade penal no Senado pode ter relator do PT

|

Senado aprova PEC da Segurança Pública e proposta de mudança na maioridade penal pode ser analisada nesta quarta

Audiência Pública – ADI 8027/DF - no STF sobre proibição das bets no Brasil

Contas espalham conteúdo falso sobre bets nas redes enquanto STF discute proibição

|

Perfis no X/Twitter divulgam histórias irreais sobre apostas ao mesmo tempo em que audiência pública reúne lobistas

Com a 1ª vitória do PT em 12 anos, a cidade do Rio deixou de ser reduto bolsonarista?

|

Lula virou na capital fluminense, onde a família Bolsonaro ganhou 22 de 24 pleitos desde 1988

Pantanal entra oficialmente na rota da aridez, aponta plano do governo

|

Cientistas alertam que é preciso uma mudança na forma como o país produz alimentos e maneja a pecuária

Fuga de Flávio abre caminho para bolsonarismo abraçar políticos para além do sobrenome

|

Para Especialistas derrota eleitoral enfraquece herdeiros do ex-presidente, mas não elimina força política do movimento

‘Primavera Brasileira’: como ato de estudantes virou onda global contra extrema direita

|

Marcha em Niterói iniciou efeito borboleta progressista que contou com fandoms e Janones e hoje inspira outros países