Buscar
Crônica

Um gol e dois pastel

Futebol é muito mais do que aparenta, é dividir um pastel na feira com o pai e carregar memórias que atravessam gerações

Crônica
23 de maio de 2026
04:00

Nos adicione como fonte preferencial no Google.

Eu não gostava muito de futebol, mas adorava pastel. Talvez por isso, todo aquele esforço de acordar às 6 da manhã aos domingos – fizesse frio ou calor, chuva ou sol – parecesse valer a pena. Depois do jogo do meu pai, era certo, comeríamos pastel. Assim eu tinha forças para levantar da cama, mesmo com o céu ainda escuro, e ia feito um zumbi até a cozinha tomar um leite com chocolate enquanto ele passava o café e ouvia as notícias no rádio.

O ônibus cruzava a cidade em direção ao campinho de terra. Meu pai já ia trocado, as chuteiras enfiadas no meião desbotado e o uniforme exalando cheiro de amaciante. Quando chegávamos, era preciso cumprimentar todo mundo. E eu ia, de um em um, a mãozinha de criança quase esmagada por aquela dezena de mãos firmes e calejadas. “Fala, Caneta!”, “Bom dia, Canetinha!”.

Depois, achava um lugar na mureta e ficava assistindo ao jogo, por vezes prestando pouca ou nenhuma atenção nos lances. Pensava no colégio, em algum desenho animado, na vizinha da frente, no sabor de pastel que eu poderia pedir na feira (embora sempre acabasse escolhendo queijo). Então vinha o apito final, o que nunca significava o fim do futebol, como fui descobrindo com o tempo. Ainda precisava esperar meu pai tomar banho e voltar para conversar com os amigos, beber cerveja, jogar dominó.

Eu ficava ali, flutuando por entre as mesas e vidrado na brasa da churrasqueira, a antena sempre alerta para fisgar o que os adultos diziam. Era engraçado como alguns tentavam disfarçar ou falar mais baixo quando iam compartilhar bobagens impróprias para menores. Só faziam me chamar mais a atenção. Meus ouvidos, treinados, captavam tudo.

Aí eu e meu pai trocávamos olhares em alguma oportunidade e pronto, era hora de ir. O momento do pastel. Nos banquinhos de plástico da barraca de feira, dividíamos uma garrafa de caldo de cana com limão ou abacaxi e falávamos sobre qualquer assunto. Na volta para casa, eu normalmente dormia em seu ombro, embalado pelo sacolejar do ônibus. Tudo parecia mais lento, a nova semana anunciada pela melancolia dos programas de auditório que já dominavam a televisão.

Quando cresci, comecei a entrar nos jogos. Os mais velhos cansavam ou alegavam dores nos joelhos, coxas e tornozelos e, nos minutos finais, meu pai pedia para eu completar o time. Foi duro. Ninguém aliviava e eu não era exatamente a nova joia do futebol brasileiro. Nasci com dois pés esquerdos, apesar de ser destro. Mas peguei gosto, entendi o ritmo, perdi a timidez. Aumentei os meus minutos em campo e não acordava mais ansioso somente pelos pastéis de fim de tarde, queria jogar.

Fizemos muitas partidas juntos, eu e meu pai. Confesso que não lembro qual foi a última. Um domingo, ele não me acordou às 6 da manhã. Parei de cruzar a cidade até o campinho de terra, não vi mais os seus amigos que também tinham virado os meus amigos. Muitos anos se passaram e algo me chamou de volta. Nada mágico, sobrenatural, só uma vontade repentina de voltar. E foi o que fiz.

Sigo até hoje. Não posso dizer que melhorei, pelo contrário. Agora sou eu quem alega dores espalhadas pelo corpo, mas entendi que o futebol é muito mais do que aparenta. Do mesmo jeito que pode ser nada para alguns, pode ser tudo para outros. Eu, por exemplo, acho que é tudo. Futebol são as pessoas que eu encontrava e ainda encontro toda semana. Algumas se foram e outras continuam lá, levam seus filhos, um amigo ou outro. Futebol é o campinho de terra que insiste em existir nessa cidade que só pensa em prédios, prédios e prédios. É o domingo de manhã, o ônibus que cruza a cidade, o cheiro de amaciante. E futebol, claro, é um pastel, daqueles bem dourados, que eu e meu pai vamos dividir em um banquinho de plástico na feira para sempre.

Edição:

Essa crônica foi publicada numa parceria entre a Escola de Formação de Escritores do Instituto Vera Cruz e a Agência Pública.

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Aviso

Este é um conteúdo exclusivo da Agência Pública e não pode ser republicado.

Quer escrever uma crônica para esta coluna? Mande um email para cronicadesabado@apublica.org e coloque no assunto Crônica para Avaliação e seu nome completo.

Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Assine nossas newsletters
Fique por dentro

Artigos mais recentes

Sessão sobre a PEC da segurança pública no Senado

Segurança Pública: PEC da redução da maioridade penal no Senado pode ter relator do PT

|

Senado aprova PEC da Segurança Pública e proposta de mudança na maioridade penal pode ser analisada nesta quarta

Audiência Pública – ADI 8027/DF - no STF sobre proibição das bets no Brasil

Contas espalham conteúdo falso sobre bets nas redes enquanto STF discute proibição

|

Perfis no X/Twitter divulgam histórias irreais sobre apostas ao mesmo tempo em que audiência pública reúne lobistas

Com a 1ª vitória do PT em 12 anos, a cidade do Rio deixou de ser reduto bolsonarista?

|

Lula virou na capital fluminense, onde a família Bolsonaro ganhou 22 de 24 pleitos desde 1988

Pantanal entra oficialmente na rota da aridez, aponta plano do governo

|

Cientistas alertam que é preciso uma mudança na forma como o país produz alimentos e maneja a pecuária

Fuga de Flávio abre caminho para bolsonarismo abraçar políticos para além do sobrenome

|

Para Especialistas derrota eleitoral enfraquece herdeiros do ex-presidente, mas não elimina força política do movimento

‘Primavera Brasileira’: como ato de estudantes virou onda global contra extrema direita

|

Marcha em Niterói iniciou efeito borboleta progressista que contou com fandoms e Janones e hoje inspira outros países

Brasília (DF), 07/12/2025 - O Levante Mulheres Vivas realiza ato na área central de Brasília para denunciar o feminicídio e todas as formas de violência contra mulheres

‘O sistema do Estado é horrível’: Caraguatatuba é campeã em violência contra a mulher

|

A jornada de duas vítimas de violência doméstica em busca de acolhimento e justiça no litoral norte de São Paulo

Crianças brincam em rua do Complexo da Penha e Alemão

Um ano após chacina, as crianças da Penha precisam voltar a ser crianças

|

Enquanto políticos que apoiaram operação foram eleitos, moradores pedem olhar humano para comunidade

A fuga de Flávio Bolsonaro: a verdadeira rota que levou o senador de Brasília até Miami

|

Muita desinformação sobre o paradeiro do candidato derrotado circulou, mas ele só saiu do Brasil às 22h50 de terça (27)