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Mães são maioria nos casos de violência contra a mulher, apontam pesquisas

Segundo levantamento do DataSenado de 2025, 74% das mulheres que sofreram violência no país tinham um ou mais filhos

Reportagem
11 de maio de 2026
13:13

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Catarina Bessell/Agência Pública

Hanna Castro tinha apenas 17 anos e um filho de um ano quando sofreu uma tentativa de feminicídio do então companheiro, em Salvador (BA). Na época, início dos anos 2000, ela registrou um boletim de ocorrência, mas conta que a viatura chegou à rua onde ela morava, não encontrou o marido e foi embora. Mesmo se sentindo em perigo, ela decidiu permanecer no casamento em nome do filho.

“Por mais contraditório que pareça, o meu maior medo não era só morrer, era que meu filho crescesse sem mãe. E, naquele momento, eu acreditava que, ficando e suportando tudo, conseguiria evitar esse fim”, afirma.

Pouco tempo depois, o companheiro também foi violento com o filho, e a sucessão de eventos depois disso foi trágica. Durante um conflito, uma pessoa interviu e entrou em luta corporal com o companheiro de Hanna. Quando este último tentou fugir, invadiu uma casa, porém o morador estava armado e atirou. O tiro atingiu uma quarta pessoa, que não tinha nada a ver com a situação, e não resistiu ao ferimento. Desde então, o ex-companheiro de Hanna desapareceu. 

Por que isso importa?

  • Pesquisa do Instituto Brasileiro de Economia aponta que o país conta com mais de 11 milhões de mães que criam os filhos sozinhas.
  • Levantamento baseado na Pnad Contínua do IBGE mostra que mães solo apresenta rendimento médio de R$2.322, 40% menor do que o de pais com cônjuge.

“Ele não desistiu, ele só foi interrompido. Meu filho foi a razão pela qual eu escolhi viver. Ser mãe, no meio de tudo aquilo, não me prendeu, foi o que começou a me libertar”, diz Hanna, que lançou recentemente um livro sobre a sua história e os sinais de violência em relacionamentos amorosos. 

Segundo a última Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher, feita pelo DataSenado e divulgada em novembro de 2025, 74% das mulheres que sofreram violência nos 12 meses anteriores à pesquisa são mães de um ou mais filhos. Outros estudos, como do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, também mostram que as mães são maioria, 51,7%, entre as vítimas de violência. 

De acordo com o levantamento do DataSenado 17% das mulheres ouvidas não denunciaram seus agressores por preocupação com os filhos. O motivo é mais citado do que “acreditar que não haverá punição” e “acreditar que foi a última vez”. Os dados também mostram que sete em cada 10 agressões foram presenciadas por crianças, sendo a maioria (79%) os próprios filhos. Pelas estimativas, 1,4 milhão de mulheres foram agredidas na presença de seus filhos ou filhas.

Essas crianças e adolescentes, que são chamados de “vítimas invisíveis”, podem desenvolver problemas de saúde mental, dificuldades escolares e de socialização. O Fórum Brasileiro de Segurança Pública estima que cerca de 2 mil crianças se tornam órfãos do feminicídio por ano no Brasil. A Agência Pública já mostrou que a iniciativa do governo federal de pagar uma pensão para essas crianças é positiva, mas ainda faltam mecanismos de acompanhamento psicossocial para complementar o auxílio.

Para Regina Celia Barbosa, vice-presidente do Instituto Maria da Penha, o fato de uma mulher ter filhos é um fator preponderante para a violência. “É um fato que crianças são usadas como chantagem para exercício do poder sobre as mulheres, mas elas também são usadas como uma extensão da violência para atingir a própria mulher”, afirma.

Esse tipo de agressão é classificada como violência vicária, quando se maltratam os filhos para que a mulher faça o que o agressor quer, como desistir de separar ou de denunciar. “É importante frisar que filhos não são um problema que causam mais violência, mas sim um artefato usado pelos agressores para intensificar o dano. Eles também são vítimas”, pontua Barbosa.

Em abril deste ano, foi sancionada a lei que transforma a violência vicária em uma forma de violência doméstica e familiar contra a mulher. A nova lei também cria e tipifica o crime de vicaricídio, que entrou no rol dos crimes hediondos já em seu surgimento.

Edição:
Arquivo pessoal/cortesia

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