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Na Copa do Mundo, o adversário mais forte será o calor

Cerca de 25% dos jogos podem ocorrer em condições climáticas insalubres, em que temperatura alta se soma a muita umidade

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14 de maio de 2026
17:00

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Se o Brasil chegar à final da Copa do Mundo de futebol neste ano, quando entrar em campo poderá ter à frente, além da outra seleção, um adversário extra: um calor perigoso para a realização de uma atividade de alta performance. O jogo, que será realizado no dia 19 de julho, no estádio MetLife, em Nova Jersey, tem o dobro do risco de ocorrer em uma situação de calor extremo do que havia há 32 anos, quando o Brasil disputou a final, nos mesmos Estados Unidos.

E olha que na Copa de 1994, a situação já não tinha sido fácil. A seleção conquistou o tetra sob um calor de 38 °C. Com a piora do aquecimento global desde então, a expectativa é que condições insalubres, que incluem não só temperatura alta, mas também muita umidade, afetem 25% das partidas. Pudera. A temperatura média global naquele ano foi de menos de 0,5 °C acima dos níveis pré-industriais. Em 2024, bateu 1,5 °C.

O alerta foi divulgado nesta quinta-feira, 14 de maio, há menos de um mês do início da competição pela World Weather Attribution (WWA), grupo de cientistas ligados ao Imperial College de Londres que avalia o quanto as mudanças climáticas tornam eventos meteorológicos extremos mais propensos a ocorrer ou mais intensos. 

Há uma preocupação crescente de que a Copa do Mundo, que será dividida entre EUA, no México e no Canadá, no meio do verão do hemisfério norte – que tem sofrido com ondas de calor severas nos últimos anos – traga riscos de saúde tanto para os atletas quanto para os fãs. Não é à toa. Na Copa América, em 2024, realizada justamente nos EUA, um bandeirinha desmaiou em campo por causa do forte calor em Kansas City.

Considerando o horário dos jogos, os cientistas calcularam a probabilidade de eles ocorrerem em condições que excedem os limites de segurança estabelecidos pelo sindicato global dos jogadores, o FIFPRO. Pela conta, um quarto das 104 partidas do torneio poderão ser disputadas em situação de estresse térmico, medido pelo índice WBGT (temperatura de bulbo úmido), que combina temperatura, umidade, radiação solar e vento para medir o estresse térmico sobre o corpo humano. 

Segundo os cientistas, 26 partidas têm chance de ocorrer em condições acima de 26 °C de WBGT. Neste patamar, o FIFPRO recomenda pausas para resfriamento durante o jogo. Em cerca de cinco partidas, o WBGT pode passar de 28 °C (equivalente a 38 °C num calor seco ou 30 °C em alta umidade), nível em que o adiamento deveria ser considerado. 

Essa análise que considera vários indicadores é importante porque, além do calor, uma umidade muito alta reduz a evaporação do suor, o que limita a capacidade do corpo de se resfriar sozinho. A partir de 28 °C de WBGT aumentam os riscos de desidratação severa, exaustão térmica e até golpe de calor, condição que pode levar à falência de órgãos e à morte. Não só para os atletas, mas também para o público que estiver assistindo.

A preocupação é ainda maior porque parte significativa dos jogos será disputada em estádios abertos, sem sistemas de refrigeração. Somente 3 dos 16 estádios têm ar condicionado. Um dos que não têm é justamente o estádio da final em Nova Jersey, onde o Brasil também fará sua estreia, no dia 13, jogando a partir das 18h (horário local).

De acordo com a análise do WWA, há uma chance em oito de que a final seja disputada acima do limite de 26 °C de WBGT e um risco próximo de 3% de atingir níveis ainda mais perigosos, em torno de 28 °C. Considerando os jogos do Brasil, a seleção pode ter dificuldades desde o começo. Seu terceiro jogo, contra a Escócia, ainda na primeira fase, será em Miami, onde os pesquisadores consideraram como “quase certa” as chances de condições de 26 °C de WBGT.

Pode parecer pouco. Mas, para um evento dessa magnitude, com atletas submetidos ao limite físico e centenas de milhares de pessoas espalhadas entre estádios e áreas de fan fest, os cientistas consideram o risco alarmante. “O fato de a final da Copa do Mundo enfrentar um risco não desprezível de ser disputada sob um calor de nível de cancelamento deveria servir de alerta para a Fifa e para os fãs”, afirmou Friederike Otto, climatologista do Imperial College London e uma das líderes da WWA.

O alerta não veio só dos climatologistas. Um grupo de especialistas em saúde, calor e mudanças climáticas também acaba de enviar uma carta aberta alertando que os protocolos atuais da entidade não são suficientes para proteger jogadores, trabalhadores e torcedores diante de temperaturas extremas agravadas pelas mudanças climáticas.

O documento afirma que o calor extremo representa uma ameaça direta ao bem-estar de jogadores, trabalhadores e torcedores, especialmente idosos e pessoas com condições pré-existentes. Os especialistas defendem medidas preventivas mais robustas para a competição, como ajustes de horários das partidas, ampliação de áreas de sombra, oferta abundante de água e estruturas de resfriamento, revisão de protocolos médicos e maior transparência nos critérios usados para definir quando uma partida deve ser interrompida ou adiada.

Os médicos também fazem uma crítica política à Fifa por manter vínculos comerciais com empresas responsáveis pelas emissões que alimentam o aquecimento global. A Saudi Aramco, maior empresa de petróleo do mundo e estatal da Arábia Saudita, é patrocinadora da Copa. Segundo os autores, a “promoção ativa [dos combustíveis fósseis] representa um conflito de interesse com a proteção do bem-estar dos jogadores”.

O dilema já tinha aparecido na Copa do Catar, transferida excepcionalmente para o fim do ano, em 2022, para escapar do calor extremo do Golfo. Agora, está mantida no meio do verão, ocorrendo em sua maioria em um país que vem sofrendo com ondas de calor mais frequentes e intensas, mas cujo líder zomba da existência do aquecimento global. No caso da Copa do Mundo, o problema estará bem visível, praticamente um 23° jogador em campo, disputando a partida contra todos.

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