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Crônica

As 48 horas que não existiram

Como a vida nos marca e o valor inestimável de cada momento compartilhado

Crônica
25 de julho de 2026
04:00

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O tempo sempre me pareceu menos uma medida exata do que uma presença espessa. Como alguém que caminha ao nosso lado sem fazer alarde, mas que, num súbito arbítrio, decide apressar o passo ou deter-se de vez. Aprendi a tatear essa estranha relação ao observar duas histórias que desaguaram e se misturaram em mim.

No dia 24 de novembro, o médico chamou a mim e à minha mãe para conversar. O ar estava denso, não havia como desviar do que já se anunciava. Ele nos disse que “talvez vocês devessem se despedir do Sr. Carlos [meu pai], pois ele não deve resistir por muito mais tempo”. Aquela frase cavou um espaço oco e vagaroso no meu peito, como se o próprio tempo tivesse se esticado dolorosamente só para que eu pudesse sorver o peso dela.

E então, num mistério insondável, passaram exatamente trinta dias. Um mês inteiro em que o tempo resolveu, por algum motivo obscuro, ser generoso. Trinta dias de despedidas que nunca se fechavam por completo, de conversas que entrelaçavam esperança e aceitação, e de silêncios que diziam tudo. Eu sabia que estava perdendo meu pai, mas também sabia, com uma lucidez cortante, que ainda havia tempo. E recebi isso também como um gesto de gentileza.

Cresci aprendendo a ler o tempo também como um sinal. Sendo católica de berço, tenho o vício de decifrar as datas como uma espécie de “linguagem de Deus”. Meu pai nasceu no dia 22 de maio, dia de Santa Rita, a santa das causas impossíveis. Depois de 81 dias internado, por ter contraído uma síndrome rara enquanto tratava um câncer, ele recebeu alta no dia 19 de março, dia de São José, padroeiro das famílias e da boa morte, um cuidado simbólico.

E então ele morreu no dia 24 de dezembro, às vésperas do nascimento de Cristo. Às 15h da tarde, na hora da misericórdia, que dizem ter sido também a hora da morte de Cristo. Mais uma coincidência que nunca foi só coincidência para mim. Era como se o tempo, além de passar, também se ocupasse de tecer pequenos sentidos ao longo do caminho.

Mesmo assim, nada disso impede o que ele faz de mais inevitável: seguir.

Foi já nesse outro tempo, o do luto, que ouvi a Ana Paula Renault falar do pai no Big Brother Brasil, logo no início do reality show. Havia ali uma intimidade que eu reconhecia nas minhas próprias entranhas. Um jeito de falar que não era só de filha, mas também de melhor amiga. E então veio um acontecimento e um detalhe que ficaram cravados em mim como uma pergunta suspensa: dois dias.

Depois de mais de cem dias na casa, sem qualquer contato com o mundo exterior, faltavam apenas dois dias para o fim. Dois dias para que ela saísse, reencontrasse o pai e dividisse com ele o momento que tanto buscara ali. E o tempo não esperou; seguiu indiferente. O pai dela morreu dois dias antes da sua vitória no jogo.

Quando eu soube, logo pensei no quanto a vida fora cruel com ela naquele instante. Enquanto eu tive um mês, ela não teve dois dias. Desde então, fico voltando a essa comparação inútil, quase como quem tenta extrair lógica de um abismo. O tempo, que comigo pareceu hesitar, com ela foi direto. E, no fim, eu sei que nenhuma das duas saiu ilesa.

Ter trinta dias não torna a perda menor, e perder dois dias não diminui o amor que existia ali. Mas essas medidas dizem muito sobre como o tempo se comporta: ele pode ser paciente em um momento e absolutamente indiferente em outro. O tempo me permitiu acompanhar e me despedir, ainda que de forma imperfeita. Mas também me fez perdê-lo cedo demais, quando eu ainda tinha muito a viver ao lado dele.

E, quando penso na Ana Paula, penso nesse limite tão pequeno que fez toda a diferença. Dois dias que não puderam ser adiados. 48 horas que nenhum prêmio nem esforço conseguem comprar de volta. Hoje ela tem milhões, tem a vitória que buscou, mas não tem o tempo que lhe faltou.

Pra mim, em todos os lugares, culturas e economias, o tempo sempre vai ser a moeda mais valiosa que existe (e a mais injusta), porque ele se distribui de formas diferentes, sem explicar seus critérios. Dá um mês para uns, tira dois dias de outros, e, ainda assim, nunca é suficiente.

Hoje eu vivo em um meio-termo entre a gratidão e a revolta. Agradeço pelos trinta dias que tive, pelo privilégio de me despedir. Mas também me revolto com o fato de que não tive mais, e de que, no fim, o tempo decidiu encerrar a história ali, sem mais nem menos. E, quando me vem à mente a história da Ana Paula, penso que, de um jeito ou de outro, nós duas fomos atravessadas pela mesma certeza: o tempo não espera.

No fim, tudo o que ele nos permite fazer é sentir. Sentir profundamente e desesperadamente, enquanto, num piscar de olhos, ele acaba.

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