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Ao abandonar meta de carbono zero, JBS dá ‘pedalada’ climática

Após captar 1 bilhão de dólares em títulos verdes, empresa diz que compromisso assumido em 2021 era “ambição ousada

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30 de julho de 2026
10:00
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Imagine isso: um amigo te pede R$ 1 mil emprestados para reformar uma casa e transformá-la em um imóvel para alugar. Ele faz uma vaquinha e pede empréstimos a outras pessoas. A promessa é levantar uma grana e garantir a todos retorno do capital com juros.

Quando ele apresenta o projeto, com um bonito jardim e uma linda piscina, o investimento parece uma boa ideia. O problema é que, passado algum tempo, você descobre que este amigo desistiu da reforma da casa. Sem te avisar ou a qualquer um dos outros, ele resolveu usar o dinheiro para outras coisas.

Indignado, você questiona o muy amigo. Ele responde que o plano da reforma não era uma promessa, mas apenas uma “ambição ousada”.

Agora pense que algo semelhante, mas em uma escala milhões de vezes maior, acaba de ocorrer no mercado de capitais. A JBS, a maior empresa de produção de carne do mundo, anunciou que uma promessa feita a investidores em 2021 – a de se tornar uma empresa sustentável – não era uma meta, mas apenas um desejo.

“Ambição ousada” foi exatamente a expressão usada pelo diretor de sustentabilidade da companhia para justificar o recuo. Em entrevista ao Financial Times, Jason Weller afirmou que a empresa, uma multinacional nascida no Brasil, foi demasiado ambiciosa há cinco anos ao propor eliminar sua pegada de carbono. Agora, ele diz, a JBS não tem como controlar as emissões de gases de efeito estufa causadas pelas fazendas de seus fornecedores.

No entanto, a JBS usou estas metas climáticas para vender títulos financeiros com selo de sustentabilidade e captar um bilhão de dólares no mercado internacional, dinheiro que está sendo investido na expansão da empresa a outros mercados.

Na ocasião do anúncio da JBS carbono zero, em 2021, uma linda peça publicitária brilhou no horário nobre prometendo “uma revolução verde” junto aos pequenos pecuaristas. Desde então, ao invés de reduzirem, as emissões de carbono de seus fornecedores cresceram 22,6%, de acordo com a própria empresa.

A contribuição da pecuária para o aquecimento global é bastante significativa. De acordo com a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO/ONU), 14,5% das emissões globais provêm da criação de gado. No Brasil, esta atividade responde por 51% das emissões totais – e o impacto é crescente graças ao aumento do rebanho bovino, causador do acúmulo de metano na atmosfera.

A JBS não está obrigada por nenhum órgão de governo a cumprir metas de redução de gases de efeito estufa. Mas quem embarcou no discurso ambiental para comprar os títulos verdes foi enganado. Um caso descarado de greenwashing, na expressão em inglês. A empresa passou uma maquiagem verde nos seus produtos para torná-los mais atrativos, mas, no fundo, é mais do mesmo.

Ao abandonar sem qualquer pudor a sua meta, a empresa dos irmãos Wesley e Joesley Batista deixou muita gente de cabelo em pé. E não estou falando de ambientalistas. Não apenas o principal jornal de finanças do mundo – o Financial Times – deu destaque ao fato, mas muitos outros canais do mercado financeiro fizeram ampla cobertura há duas semanas, quando a empresa anunciou que não iria cumprir mais seu objetivo de se tornar carbono neutra em 2040.

O tal do mercado ESG (sigla para os ativos que respeitam o ambiente, o social e a governança) deu uma pequena chacoalhada com a pedalada climática da JBS.

Esse retrocesso gera dúvidas sobre transparência e prestação de contas no mercado de capitais.

Nos últimos anos, esses papéis privados, os green bonds, se tornaram uma febre. Bancos multilaterais e governos também emitem seus próprios títulos verdes. Ao contrário de outros títulos ou ações de empresas, eles possuem o objetivo claro de financiar projetos sustentáveis.

A empresa e os governos oferecem não apenas juros atrativos a quem vai lhes emprestar dinheiro, mas também um propósito. No caso da JBS, a meta era obter uma redução das queimadas e do desmatamento (na sua cadeia de fornecimento), as principais fontes de emissão de gases de efeito estufa no setor da carne.

O argumento da multinacional para não atuar na redução de carbono é semelhante ao que vem utilizando para resistir a eliminar o desmatamento em sua cadeia produtiva. Como a produção de gado não é centralizada pela companhia e os bois costumam crescer em mais de uma fazenda antes do abate, os chamados fornecedores indiretos são responsabilizados pelos danos ambientais.

Ficam algumas perguntas. Se tornar a maior empresa de proteína animal de todo mundo não seria também uma ambição ousada? Ou ainda: se a JBS é capaz de garantir o cumprimento das regras sanitárias para poder exportar a mercados externos tão importantes como a China e a União Europeia, por que não seria capaz de evitar a compra de fazendas desmatadoras? Estamos falando de uma companhia que representa 10% das exportações brasileiras e cujas emissões foram, em algum momento, comparadas às de um país do tamanho da Espanha.

Muitas ONGs já estavam apontando a falta de seriedade da JBS em apresentar planos para reduzir sua pegada de carbono e controlar o desmatamento de seus fornecedores. Algumas delas, como a Mighty Earth e o Greenpeace, estão inclusive movendo processos nos EUA e na Holanda (atual sede da JBS) por conta do desrespeito com os compromissos que a própria empresa assinou.

Em uma primeira vitória, durante o processo de abertura de capital da JBS na bolsa de Nova York, a justiça norte-americana determinou que a empresa pagará uma compensação por ter anunciado a meta de carbono zero aos investidores mesmo sabendo que não iria cumpri-la. Em novembro de 2025, a multinacional fez um acordo de 1,1 milhão de dólares com a Procuradoria-Geral dos EUA.

Resta saber se os investidores que compraram os títulos verdes vão cobrar a empresa ou se estão apenas interessados em receber os juros prometidos. Se eu tivesse emprestado dinheiro a um amigo que promete uma coisa, mas não cumpre, pegaria de volta.

Para saber mais: são muitas as investigações que mostram os descalabros da cadeia produtiva da carne e seus impactos na Amazônia, no Cerrado e além:

Bloomberg: How big beef is fueling the Amazon’s Destruction;

Cobertura da Repórter Brasil sobre a JBS;

Agência Pública: Ações judiciais ligam JBS à destruição de Resex mais desmatada da Amazônia.

Edição:

Errata: na semana passada, escrevi que a associação dos produtores do Mato Grosso assinou a moratória da soja, mas essa informação estava errada.

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