Começo a coluna aproveitando o gancho do meu colega Gustavo Faleiros, que gentilmente me trouxe para conversa ao falar sobre a inflação de alimentos, em sua coluna da semana passada. (Para quem ainda não leu, Gustavo traz uma excelente explicação sobre o impacto das mudanças climáticas no preço dos alimentos.)
Trago aqui mais algumas camadas desse problema tão complexo, me baseando no relatório “A Inflação de Alimentos No Brasil: Um Fenômeno Estrutural, Específico E Sistêmico”, do economista Valter Palmieri Junior., e nas formulações dos que são, indiscutivelmente, os maiores especialistas no assunto: o Instituto Fome Zero (IFZ).
Como bem colocado pelo Gustavo, a inflação de alimentos se tornou uma preocupação em vários países, especialmente a partir da pandemia do COVID-19. Mas, aqui no Brasil, o fenômeno propriamente dito é mais antigo, e já é percebido há duas décadas.
A inflação de alimentos acontece quando os preços de alimentos e bebidas crescem mais do que a inflação como um todo. Ou seja, quando o Índice de Preços de Alimentos e Bebidas (IPAB) cresce mais do que o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) –pelo qual normalmente medimos a inflação no Brasil.
E isso acontece praticamente todo ano desde 2007. De lá para cá, o preço dos alimentos subiu 1,6 vez mais do que o restante dos preços. Por isso, especialistas vêm alertando para o problema da inflação dos alimentos há bastante tempo.
Mas, desde a pandemia, uma coisa mudou: o grupo que puxava o crescimento do IPAB até então era, sobretudo, o da alimentação fora do domicílio. Ou seja, preços de comida em bares, lanchonetes e restaurantes. Desde 2020 é o grupo de alimentos consumidos no domicílio quem cresce mais, acumulando uma alta de 65% em apenas seis anos!
Essa mudança tem efeitos perversos. A despesa com alimentação é incontornável: todos precisam comer. É claro que existem diferenças na alimentação de pessoas com mais e menos dinheiro, mas, no limite, todos gastam com isso. É uma conta que pesa mais para quem ganha menos e precisa destinar uma parcela maior de seu orçamento para a comida.
Dados do IBGE mostram que a alimentação representava, em 2018, 23,8% dos gastos das famílias que ganhavam até dois salários-mínimos. Já para as que ganhavam mais de 25 salários-mínimos, era apenas 11,5%. Com a escalada dos preços desde então, é bem provável que essa proporção tenha subido, com ainda mais intensidade para os mais pobres.
Comer fora muitas vezes é um luxo, a base da alimentação da maioria dos brasileiros é de refeições preparadas em casa. Essa opção segue sendo a mais barata, mas seu custo vem crescendo com maior rapidez.
Aqui, vale destacar: são os alimentos in natura e minimamente processados – aqueles colhidos diretos do pé ou compostos de poucos ingredientes – que recebem a maior alta de preços, o que também é grave do ponto de vista nutricional.
O preço das frutas cresceu 2,8 vezes mais do que a inflação geral nos últimos vinte anos, e o dos legumes, 1,9 vez mais.
Em resumo, o biscoito recheado é mais barato que a maçã. Assim, quem tem menos renda também está perdendo, aos poucos, o direito a uma alimentação saudável.
No relatório, Palmieri Junior. destaca cinco principais fatores que explicam a inflação de alimentos. Um deles, o Gustavo trouxe: as mudanças climáticas.
Escolho focar em outro: nosso modelo agroexportador. Em especial porque, curiosamente, defensores históricos do agronegócio decidiram ligar, neste período eleitoral, para o custo de vida dos brasileiros.
Flávio Bolsonaro (PL-RJ) mencionou, em seu discurso de lançamento da campanha, a preocupação das famílias brasileiras com os preços nas prateleiras.
Nikolas Ferreira (PL-MG) lançou um vídeo em que faz compras no mercado e, com preços mentirosamente inflacionados, reclama do custo das coisas.
No vídeo, o Nikolas acompanha uma mulher fazendo uma compra de cinco alimentos (café, ovo, feijão, leite e picanha), que soma R$255,96. Porém, o jornalista Guga Noblat foi a um supermercado de Brasília (DF) e comprou as mesmas coisas, a fim de fazer uma checagem de preços, e chegou a uma conta de R$137,36 – 86% a menos.
Acontece que é incoerente defender a expansão desenfreada do agronegócio e depois reclamar de uma de suas consequências mais imediatas, como fazem ambos os candidatos mencionados e muitos outros.
Explico.
A guinada agro do Brasil levou à redução expressiva dos hectares destinados ao cultivo de alimentos básicos, que foram perdendo espaço, principalmente, para a soja, o milho e a cana de açúcar, mais vendidos no mercado externo, como mostra o gráfica abaixo.

Isso mudou bastante a dinâmica e os custos de produção agrícola no Brasil, mesmo para alimentos que são mais consumidos internamente do que exportados. O feijão, por exemplo.
Como explica Palmieri Junior, ao privilegiar as culturas de exportação, recursos fundamentais, como terras, crédito e incentivos fiscais são deslocados para esses cultivos, o que acaba esvaziando a produção dos demais alimentos, que se tornam menos atrativos.
Também o preço da terra sobe, porque a agricultura se torna uma zona de investimento lucrativo, o que também encarece os alimentos à mesa.
Ainda que esse deslocamento produtivo não signifique uma escassez literal da comida no supermercado, certamente influencia sua dinâmica de preços, tanto pela falta de incentivos quanto pela redução da oferta.
O modelo agroexportador que prioriza o cultivo de commodities ao de alimentos não é o único fator para a elevação do preço da comida. Mas é um bem importante.
E em um mundo de instabilidades internacionais, guerra e mudanças climáticas, é um dos poucos sobre os quais a política interna ainda consegue decidir.
Talvez não possamos controlar totalmente o preço dos combustíveis e fertilizantes ou o tamanho do El-Niño – mesmo que a ação humana contribua para todos esses fatores.
Mas a forma como produzimos comida ainda é uma escolha política nossa.
Direcionar incentivos produtivos para alimentos – como feijão, arroz, mandioca e batata – em vez de commodities, como a soja, retomar os estoques reguladores da CONAB (Companhia Nacional de Abastecimento) e investir na logística de transporte e armazenagem para o mercado interno são políticas públicas importantes, eficazes e, sobretudo, muito possíveis. Mas requerem vontade política.
Por isso, fica o apelo para que a soberania alimentar seja uma bandeira – atenta, e não demagógica – também nestas eleições.
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