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A comida está cara? Lamento informar, pode piorar

A inflação dos alimentos assombra o mundo todo, e a emergência climática mostra que esse impacto veio para ficar

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20 de agosto de 2026
12:00
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Vou começar pedindo licença à minha colega colunista aqui da Pública, a Clara Saliba, pois vou me intrometer no campo dela, a economia. Não estudei economia, mas sempre me interessei por esta relação entre o desenvolvimento econômico e a natureza. Tive a sorte de começar minha carreira no jornalismo cobrindo macroeconomia. Foi a partir do olhar econômico que eu me liguei nas questões ambientais.

Nos dias de hoje, há um indicador que reflete como poucos essa relação entre a demanda por recursos naturais e o nosso cotidiano: a inflação.

Tivemos na semana passada uma notícia boa de que, no mês de julho, o Índice de Preços ao Consumidor, o IPCA, indicador oficial da taxa de inflação do Brasil, ficou abaixo do esperado – 4,4% no acumulado de 12 meses. Ou seja, um percentual menor do que o teto da meta anual de 4,5%. A notícia foi ainda melhor pois a queda no índice se deve principalmente à deflação de 0,67% nos alimentos. Uma redução no custo da alimentação não ocorria desde julho de 2022.

Entretanto, essa melhora não se reflete na percepção das pessoas. Quando falamos de inflação, um indicador exato, é notável como prevalecem os sentimentos. “O consumidor sentiu no bolso”, é um dos clichês favoritos. Ou ainda: “O supermercado está uma fortuna” e “não dá para comer fora toda hora.”

Essas percepções e sentimentos não são esotéricos ou descolados da realidade. Muito pelo contrário! A nossa preocupação com o custo da comida está baseada em um problema estrutural: por conta das guerras e dos eventos climáticos extremos, o preço dos alimentos tem subido de forma constante. Isso sem falar nos choques repentinos. Em abril deste ano, por exemplo, o feijão deu um salto de 20%.

Um estudo da Fundação Getúlio Vargas mostrou que o preço dos alimentos, nos últimos dez anos, aumentou mais do que a taxa média de inflação. Enquanto na última década a alta acumulada no IPCA foi de 44%, o indicador para Alimentos e Bebidas subiu 64%.

“Não é uma sensação, é uma constatação. Os preços realmente estão muito mais altos. Você tem 20 pontos percentuais de alta a mais para alimentos, e isso faz uma grande diferença, porque os salários são corrigidos pelo IPCA”, disse o economista André Braz, coordenador dos Índices de Preços do FGV IBRE, em entrevista ao Jornal Nacional, “Se o seu salário dos últimos seis anos foi corrigido em média em torno de 45%, mas a sua despesa de supermercado subiu 65%, então não são quedas pontuais [no valor do alimento] que vão fazer esse aumento todo dissipar.”

A inflação de alimentos passou a ser um problema na maioria dos países. Isso começou na pandemia devido às disrupções nas cadeias globais de fornecimento. Mas a alta se mostrou persistente e tomou um rumo ainda mais grave em 2022, quando começou o conflito entre a Rússia e a Ucrânia, que afetou tanto o mercado de fertilizantes como o de grãos. Foi exatamente em março daquele ano, um mês após o início da guerra, que o preço da soja bateu o recorde histórico – R$ 200 por saca.

Desde então, a soja permanece com valor acima de sua média histórica. A soja mais cara certamente alegra o setor agroexportador, mas também influencia no preço da proteína animal por aqui, em especial do frango. Para ligar os pontos com a questão ambiental, temos visto que a expansão da soja na Amazônia e no Matopiba (região agrícola no Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia) retomou o fôlego a ponto de termos grandes atores da cadeia atacando o acordo que garantia a produção apenas em áreas livres do desmatamento – a chamada moratória da soja.

A soja talvez possa parecer um mercado distante do nosso dia-a-dia, mas o preço do café certamente ficou na cabeça de todo mundo. No ano passado, em fevereiro, o café atingiu seu recorde histórico. Como podemos ver no gráfico abaixo, o preço do grão já vinha subindo desde 2020, ano da pandemia, e só no comecinho deste ano ele começou a dar uma aliviada. Mas aí, outro choque no preço dos alimentos chegou com a guerra dos Estados Unidos e Israel contra o Irã. O conflito no Estreito de Ormuz causou um salto nas cotações do petróleo e, por consequência, no custo dos combustíveis. Vejam, o café já começou a subir de novo!

Se por um lado muitas explicações para a alta nos alimentos se concentram nas guerras, por outro o fator climático passou a ser uma variável incontornável. As análises de risco de diversos bancos já trazem o impacto do El Niño nestes próximos meses como um fator de pressão inflacionária.

A última ata do Comitê de Política Monetária do Banco Central trouxe uma observação de que “entre os riscos de alta para o cenário inflacionário e as expectativas de inflação, destacam-se (…) impactos potenciais de segunda ordem de choques de oferta, relacionados ao petróleo e seus derivados, e a efeitos climáticos sobre a produtividade agrícola e custos de energia.”

Uma destas análises, a do banco de investimentos Morgan Stanley, detalha quais as commodities estão em risco ou quais são aquelas que se tornam uma oportunidade de investimento frente à crise que podem gerar os eventos extremos. Surpreendentemente, está dito ali que o Brasil pode se dar bem, pois novamente o preço da soja e do açúcar devem subir. A razão, explica o boletim, é que áreas produtivas ao sul da América do Sul receberão mais chuvas, enquanto competidores na Ásia podem sofrer com secas neste ano. Por outro lado, a inflação dos alimentos pode obrigar o Banco Central a aumentar a taxa de juros.

Em sua coluna da semana passada, a colega Clara explicou com maestria por que as taxas de juros, determinadas pelo Banco Central de cada país, são o principal instrumento para controlar a inflação. O problema é que, com os juros nas alturas, estamos sufocando a economia do país e endividando pessoas e empresas. Além disso, juros mais altos desestimulam a produção, aumentando o desemprego.

A combinação de alta inflação dos alimentos com economias em retração e eventos climáticos extremos significa mais gente na pobreza, passando fome. Algo que as Nações Unidas e suas agências têm alertado com grande frequência: estamos novamente em um momento em que a fome volta a ser uma crise global, com estimativa de 50 milhões de pessoas sem as condições básicas para se alimentar a cada dia.

Por isso fica a questão: apenas a política monetária do Banco Central será capaz de segurar o preço dos alimentos? Quem levanta esta lebre não sou eu, mas o gestor do maior fundo soberano do mundo, o da Noruega. Nicolai Tangei, que comanda um patrimônio de US$ 1,3 trilhão em investimentos e, por isso, uma voz sempre ouvida pelo mercado. Ele disse em uma entrevista ao Financial Times em abril de 2023 que os impactos climáticos sobre a produção de alimentos provavelmente vão durar por muitos anos. Um dia é o café e o óleo de oliva. No outro, batatas. Parece pontual, ele disse. Mas com mudanças climáticas, a comida cara veio para ficar.

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