Três linhas de trens da cidade de São Paulo ganharam as manchetes da imprensa devido à greve que começou nesta terça-feira, 4 de agosto. Essas mesmas linhas, que passaram a ser totalmente operadas pela empresa privada Trivia no final julho, já eram notícia nas semanas anteriores por um motivo que tem relação com a paralisação: uma série de acidentes estavam acontecendo nos trens.
O caso com maior repercussão ocorreu no dia 23 de julho. Após um curto-circuito, chamas e fumaça tomaram conta de um vagão da Linha 12-Safira. Era a primeira semana de gestão exclusiva da Trivia Trens no processo de concessão. Por trás do acidente que carbonizou um vagão e assustou os passageiros, uma denúncia correu nos bastidores: segundo a Agência Pública apurou, funcionários da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos, a CPTM, teriam alertado a Trivia sobre problemas no sistema elétrico e a falta de preparo dos novos funcionários para lidar com eles. Foi justamente um curto-circuito o motivo apresentado pela Trivia como provável causa para o incêndio que paralisou três linhas de trem no dia 23 de julho.

De acordo com a apuração com funcionários da CPTM envolvidos no processo de transição das linhas para a concessão privada, no dia do acidente, um manobrador da estatal comunicou via rádio problemas na rede elétrica para a central de controle da Trivia. O funcionário afirmou que a resposta da empresa foi lenta e, no fim, foram os próprios funcionários da CPTM e da empresa terceirizada CAF (que fabrica e presta serviço para o sistema de trens da capital) que socorreram os passageiros para sair do trem em chamas. Eles apontam, inclusive, que sem ajuda, os passageiros teriam ficado presos no vagão.
Questionada sobre a denúncia, a Trivia respondeu, em nota, que “cumpriu com todas as etapas previstas em contrato de forma estruturada, incluindo a preparação das equipes com capacitações e treinamentos intensivos”. A concessionária diz que “conta atualmente com cerca de 2,4 mil colaboradores, dos quais 2,1 mil atuam diretamente nas frentes de Operação e Manutenção”, que “receberam mais de 1,3 mil horas de treinamentos práticos e teóricos”.
Apesar da gravidade do acidente – que felizmente não deixou feridos – a reportagem apurou que as falhas estão longe de ser um problema pontual. A Pública ouviu maquinistas e técnicos nos últimos seis meses, que denunciam que a nova operadora teria aumentado a quantidade de trens que andam na linha, o que aumentaria o desgaste do sistema. Segundo os técnicos, essa mudança deveria ser acompanhada de uma ampliação das capacidade das subestações de energia, para evitar curtos como o do dia 23. Questionada sobre esse ponto, a Trivia não respondeu sobre o assunto.
A Trivia Trens é parte do grupo Comporte, que pertence à família do empresário Nenê Constantino, fundador da empresa de linhas aéreas Gol e dono de várias viações de ônibus. Enquanto a Trivia opera diretamente as linhas 11, 12 e 13, a Tic Trens, que também é parte do grupo Comporte, através de sociedade com a CRRC, de Hong Kong, opera a linha 7. O leilão vencido pela Trivia aconteceu em 2025, em um contrato de mais de R$ 14 bilhões.
Os maquinistas e técnicos ouvidos pela Pública também apontaram problemas no treinamento dos funcionários contratados pela Trivia. Segundo eles, a formação ficou aquém dos cursos que eram feitos antes da concessão. Além disso, os novos maquinistas seriam colocados para operar com diferentes colegas, muitos deles sem experiência de monitoria. Eles também questionam o aumento na jornada de trabalho, que aumentaria o risco de erros humanos.
Tudo isto, segundo eles, gerou incidentes nos trens, ainda no período de transição. Portas que abriam do lado errado nas estações, trens que passavam sem parar ou estacionavam fora dos limites das plataformas de embarque, e veículos avançando no sinal vermelho são exemplos dessas falhas, segundo as denúncias.
Os trabalhadores também questionaram a redução nas equipes de empresas terceirizadas, que prestam apoio ao funcionamento dos trens, o que afetaria a segurança dos passageiros. Eles denunciam que casos de passageiros que passam mal dentro dos vagões ou que necessitam de auxílio no embarque ou desembarque ficavam sem resposta, por exemplo, por falta de pessoal.

Procurada, a CPTM afirmou em nota que “a preparação das equipes da concessionária ocorreu de forma gradual e estruturada, abrangendo treinamentos técnicos operacionais e de manutenção, atividades práticas em campo e períodos de prática operacional supervisionada”. Ainda segundo a companhia, “Ao longo desse processo, os profissionais receberam capacitação teórica, treinamento em simuladores, quando aplicável, e acompanhamento direto das equipes técnicas da CPTM, de acordo com cada sistema e função”. “Todos os profissionais da concessionária inseridos na condução monitorada são devidamente habilitados como operadores de trens e participaram das atividades de acordo com os procedimentos definidos para o processo de transição.”
A Agência de Transporte do Estado de São Paulo (Artesp) respondeu que, “no contrato com a Trivia Trens, a transição operacional está determinada em etapas, com mecanismos de monitoramento e acompanhamento que, ao não serem plenamente atendidos, garantem segurança jurídica para o retorno da operação conjunta”. Disse ainda que “instaurou procedimento de apuração para identificar as causas das ocorrências e apurar a responsabilidade da concessionária pelas falhas registradas na prestação do serviço”. “A Agência adotará todas as medidas administrativas cabíveis para garantir o cumprimento das obrigações assumidas pela concessionária e a adequada prestação do serviço aos usuários, incluindo a aplicação das penalidades previstas em contrato”.
Entenda a greve dos trens em SP
A greve dos trabalhadores da CPTM foi decidida na noite de 3 de agosto, terça-feira. As linhas 11 Coral, 12 Safira e 13 Jade foram diretamente afetadas com a paralisação, já que após o acidente no final de julho, a operação havia voltado para a CPTM, por decisão da Artesp.
A paralisação não tem um prazo definido para acabar. Os trabalhadores questionam diversos pontos no processo de privatização das linhas, como demissões de quase 500 funcionários.
Série de acidentes afetam trens em SP
No dia 2 de maio deste ano, uma operação nas proximidades da Estação Engenheiro Goulart, na Zona Leste, terminou mal. Um vagão do Expresso Aeroporto descarrilou, e os passageiros precisaram caminhar pela via até a plataforma.
Segundo a Pública apurou, o problema teria sido computado como responsabilidade da CPTM e de seus funcionários, o que eles contestam. O caso inclusive gerou afastamento de funcionários em razão do acidente, de acordo com a apuração.
Questionada, a CPTM afirmou que “não aplica punições a seus empregados por ações ou eventuais falhas cometidas por profissionais de terceiros.” e que o acidente “decorreu de um problema técnico no aparelho de mudança de via (AMV) na região da Estação Engenheiro Goulart”.
Os descarrilamentos também se tornaram um problema recorrente nas linhas administradas pela empresa ViaMobilidade, que opera duas linhas de trens urbanos desde a concessão, em 2021, e uma de metrô, desde 2018. Em 2026, segundo a empresa, as duas linhas de trens atingiram a marca de 1 bilhão de passageiros. Segundo levantamento da Globo, já foram registrados 14 casos de descarrilamento nas linhas de trens e metrô operadas pela empresa, contra 3 nas geridas pela CPTM e uma de responsabilidade da empresa privada ViaQuatro (agora parte do grupo Motiva).
A Promotoria de Justiça do Consumidor da Capital instaurou, na última terça-feira, 28 de julho, um inquérito civil para apurar a concessão das linhas 11, 12 e 13 de trens metropolitanos para a Trivia. A promotora Patrícia de Carvalho Leitão destaca que, em apenas três dias de operação da concessionária, foram registradas pelo menos sete falhas operacionais graves. Ela encaminhou o inquérito também para a Promotoria de Patrimônio Público e Social.
No dia 21, a estação Brás ficou mais de 20 minutos sem circulação de trens, o que provocou confusão nas plataformas. Houve problemas também na Barra Funda, com o esvaziamento de composição em operação. No dia seguinte, houve redução de velocidade em dois trechos próximos ao Tatuapé e falhas de catracas em outras duas estações.
A promotora destaca que os problemas começaram a surgir ainda no período de operação assistida, sob supervisão formal da CPTM. Um levantamento feito pela TV Globo mostrou um aumento no número de falhas nas linhas de trem e metrô na região metropolitana da capital paulista, com um aumento proporcionalmente maior nas linhas concedidas para empresas privadas. O maior aumento percentual foi na Linha 7-Rubi, sob a operação da TIC Trens, de 3 no primeiro semestre do ano passado, para 21 falhas no período equivalente deste ano. A concessionária assumiu a linha em novembro de 2025.
Um inquérito civil do Ministério Público investiga possíveis irregularidades na concessão para a empresa. A investigação teve início a partir de uma recomendação do Tribunal de Contas do Estado (TCE-SP).
Em nota, a concessionária afirma que a investigação não tem relação com falhas operacionais e foi instaurada antes do início da operação comercial pela empresa.
Em abril deste ano, a Promotoria de Patrimônio Público e Social já havia instaurado um segundo inquérito contra a ViaMobilidade em razão das falhas de operação: o descarrilamento parcial de um trem da linha 9, a morte de um funcionário durante um serviço de manutenção na rede aérea, e também um trem que teria circulado com a porta aberta.
O inquérito também apura queixas de atrasos, longos intervalos entre os trens, falhas de energias e sinalização e falta de manutenção em trilhos. É o segundo inquérito da promotoria contra a empresa. O anterior foi concluído em 2023, com um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC), que terminou com o pagamento de uma indenização de R$ 150 milhões.

Problemas nas privatizações viram pedra no sapato de Tarcísio
As privatizações têm gerado críticas à gestão de Tarcísio de Freitas (Republicanos), governador de São Paulo desde 2023 e candidato à reeleição. Além dos problemas com os trens, o militar carioca tem sido cobrado pelos acidentes envolvendo a companhia de água e saneamento Sabesp, privatizada com entusiasmo por Tarcísio em 2024.
Em setembro de 2025, uma idosa de 79 anos morreu em casa após um cano da Sabesp se desprender e atingir a sua casa. Em março deste ano, uma pessoa morreu e nove ficaram feridas após um reservatório de água da Sabesp em construção se romper em Mairiporã, na região Metropolitana de São Paulo. Em maio, no distrito do Jaguaré, na zona oeste de São Paulo, duas pessoas morreram após explosões na rede de gás durante uma obra da empresa, que atingiu quase 50 imóveis. Já em julho, uma obra feita por uma terceirizada da Sabesp abriu uma cratera em Osasco, na Região Metropolitana, deixando nove pessoas desabrigadas.
Com uma performance pirotécnica com o martelo dos leilões da B3 na mão direita, Tarcísio fez das privatizações o principal feito da sua gestão desde quando era ministro da Infraestrutura do governo Jair Bolsonaro (PL). No caso do leilão vencido pela Trivia, as violentas marteladas vieram acompanhadas dos aplausos animados do prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), aliado fiel do governador.
Após os acidentes com os trens, Tarcísio chamou o problema de “inaceitável” e ameaçou romper a concessão. No fim do mês passado, ele já havia falado em não fazer novas privatizações de linhas do Metrô.
A solução apresentada pela Artesp de devolver a operação para a CPTM pode se tornar mais um capítulo na disputa entre os sindicatos de trabalhadores e o governo paulista sobre o futuro de profissionais concursados de uma série de categorias. Em junho, a empresa apresentou proposta para suspender o contrato em regime de CLT para 491 colaboradores de diferentes áreas, que foi recusada pelo sindicato. A estatal tinha, em maio deste ano, 3.980 funcionários nas áreas de Operação e Manutenção. O objetivo da proposta era que esses setores passassem a contar com 2.171 trabalhadores.
Em uma assembleia na última sexta-feira, dia 31 de julho, os sindicatos cobraram a empresa sobre o futuro dos trabalhadores após o término do novo prazo de operação temporária nas linhas da Trivia.

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