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O que significa ser socialista nos EUA hoje?

A ascensão dos socialistas democráticos é uma realidade, mas há dúvidas se conseguirão fazer frente a Trump

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18 de agosto de 2026
12:00

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Desde que Zohran Mamdani venceu a eleição para a prefeitura de Nova York em 2025 — juntamente com outros dois candidatos ao Congresso por Nova York, apoiados pelos Socialistas Democráticos da América (Democratic Socialists of America, DSA, na sigla em inglês) e praticamente garantindo suas vitórias nas eleições de novembro deste ano —, líderes e ativistas democratas têm travado um debate acalorado sobre a direção política do partido.

O Partido Democrata deveria defender um programa ousado que inclua assistência médica universal garantida, uma economia de energia renovável totalmente reformulada, uma jornada de trabalho de 32 horas com salário integral, tributação pesada sobre grandes corporações e bilionários, e o fim das intervenções militares em outros países, entre outras questões? Ou o Partido Democrata deveria oferecer um programa moderado, concentrando-se quase exclusivamente em questões relacionadas à inflação, ao custo de vida, à oposição a centros de dados, à divulgação de todos os arquivos do caso Epstein e ao fim da guerra no Irã?

Alguns argumentaram que as eleições em Nova York não servem como termômetro das preferências do eleitorado. No entanto, a escolha, em 4 de agosto, do Dr. Abdul El-Sayed como candidato do Partido Democrata em uma disputa crucial em Michigan pelo controle do Senado dos EUA abalou os líderes da ala dominante do partido, que previam que ele perderia para o seu oponente republicano, apoiado por Trump.

El-Sayed, um epidemiologista de saúde pública de origem egípcia, venceu a disputa acirrada contra um democrata moderado que recebeu apoio financeiro significativo do Comitê de Assuntos Públicos Americano-Israelense (AIPAC). Essa organização de direita pró-Israel apoia as políticas do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu e critica duramente as posições de El-Sayed sobre o Oriente Médio. Embora El-Sayed se defina como progressista e não como socialista, Trump imediatamente atacou o candidato carismático, acusando-o de comunista e de “homem de ódio”, além de recorrer a uma retórica antimuçulmana já conhecida para incitar a xenofobia entre o eleitorado.

Uma semana depois, a derrota apertada — por uma margem de 4 mil votos, ou 0,5% — de Francesca Hong, membro declarada da DSA, nas primárias do Partido Democrata para o governo de Wisconsin, trouxe um suspiro de alívio a essas mesmas forças políticas preocupadas. Nas semanas que antecederam a eleição, Hong enfrentou fortes críticas por posições assumidas no passado, incluindo uma publicação de seis anos atrás que criticava o Dia de Ação de Graças como um feriado colonial e outras que pediam a abolição da polícia após a morte de George Floyd. David Crowley, um executivo de condado afro-americano que havia desistido da disputa, retornou à corrida de última hora e conquistou uma vitória apertada. Ele enfrentará Tom Tiffany, um republicano de extrema-direita integrante do Freedom Caucus, que recebeu o apoio entusiasmado de Trump.

Naquela mesma noite, Peggy Flanagan, a vice-governadora progressista de Minnesota, garantiu a indicação democrata ao governo do estado, derrotando seu adversário moderado por uma vantagem de dois dígitos. Minnesota, Michigan e Wisconsin — estados do norte do Meio-Oeste que abrigam tanto grandes áreas agrícolas quanto densas populações urbanas — são conhecidos como swing states (estados decisivos ou oscilantes). Neles, uma maioria estreita do eleitorado alterna a preferência entre candidatos democratas e republicanos nas eleições presidenciais e, nos últimos anos, tem definido o resultado final nacional.

Katie Wilson, que se autodenomina socialista democrática, mas não é membro da DSA, foi eleita prefeita de Seattle, no estado de Washington. Em outras disputas, jovens candidatos insurgentes derrotaram congressistas e legisladores estaduais veteranos, sinalizando um desejo de renovação entre os democratas que buscam cargos públicos e estão dispostos a dialogar com — e mobilizar — eleitores desiludidos em um sistema eleitoral no qual o voto não é obrigatório.

Em suma, em todo o país, socialistas democráticos — ou aqueles que compartilham visões semelhantes — estão vencendo primárias para cargos estaduais e locais. Isso leva críticos a argumentar que uma guinada tão acentuada à esquerda entre os candidatos pode prejudicar o ímpeto da oposição — composta por democratas moderados, independentes e até alguns ex-apoiadores de Trump — num momento em que os índices de aprovação do presidente continuam a cair.

Segundo a revista The Economist, a mais recente pesquisa de acompanhamento da YouGov aponta uma taxa de aprovação geral do presidente de 34%, com 61% de desaprovação de sua gestão e 4% de indecisos. Diante desses números, a maioria dos analistas prevê que os democratas conquistarão o controle da Câmara dos Representantes e, talvez, até mesmo do Senado nas eleições de novembro. Será que a visibilidade de candidatos declaradamente de esquerda, de diversas vertentes, poderia comprometer essa possibilidade?

Uma Alternativa Socialista

A DSA foi fundada em Detroit, Michigan, em 1982, a partir da fusão do Comitê Organizador Socialista Democrático — liderado pelo escritor e ativista Michael Harrington — com membros do Partido Socialista da América, do Movimento Nova América e de outras forças da Nova Esquerda. Em 2000, a base de membros da DSA girava em torno de 7 mil pessoas em todo o país.

A campanha presidencial de 2016 do senador Bernie Sanders, de Vermont, representou um ponto de virada para a DSA, permitindo que a organização conquistasse maior apoio nacional. A retórica inflamada e o programa radical de Sanders mobilizaram milhões de jovens em sua tentativa de obter a indicação do Partido Democrata, disputada com Hillary Clinton (que, posteriormente, foi derrotada por Donald Trump). A segunda tentativa frustrada de Sanders nas primárias presidenciais de 2020, contra Joe Biden, garantiu, no entanto, que as ideias socialistas democráticas permanecessem amplamente conhecidas nos Estados Unidos. Durante aquela disputa, ao ficar claro que não conquistaria a indicação presidencial do Partido Democrata, Sanders retirou-se da corrida. Ele também declarou apoio imediato a Biden, trazendo consigo muitos jovens politizados que ajudaram a derrotar Trump na eleição daquele ano.

Embora Sanders não seja filiado à DSA, seu apoio às ideias socialistas democráticas ajudou a organização a crescer. Atualmente, ela conta com mais de 120 mil membros que lançam candidaturas pelo Partido Democrata, embora a DSA não integre a estrutura oficial do partido. Dois membros da DSA ocupam hoje cargos no Congresso dos EUA. Ambas foram eleitas em 2018: Alexandria Ocasio-Cortez, de origem porto-riquenha e da classe trabalhadora, representa partes da cidade de Nova York; Rashida Tlaib, advogada palestino-americana, representa centros urbanos de Michigan, onde se concentra a maior população do Oriente Médio nos Estados Unidos.

Até o ano passado, mais de 250 membros da DSA haviam sido eleitos para cargos locais e estaduais, com 90% de vitórias desde 2019. Entre 2016 e 2025, 128 candidatos apoiados em nível nacional conquistaram cargos eletivos.

Quando Franklin D. Roosevelt (1933-45) assumiu a presidência após a quebra da Bolsa de Valores de 1929 e o início da Grande Depressão, ele reconfigurou o Partido Democrata para representar uma ampla coalizão que ia desde democratas conservadores e segregacionistas do Sul até descendentes da onda de imigrantes do final do século 19 e do início do século 20, o movimento trabalhista e setores da esquerda. Ao apoiar decisivamente a legislação de direitos civis em meados da década de 1960, o presidente democrata Lyndon B. Johnson (1963-69) perdeu o eleitorado branco do Sul para o presidente republicano Richard Nixon (1969-74). Nesse processo, porém, os democratas consolidaram a lealdade dos eleitores negros.

Desde então, o Partido Democrata tem enfrentado um debate contínuo sobre a direção mais eficaz a seguir, com diferentes facções pressionando por um rumo mais à esquerda ou por posições mais moderadas, enquanto eleitores independentes oscilam no apoio a candidatos dos dois principais partidos. A DSA conferiu uma identidade organizacional aos progressistas de esquerda, e seus candidatos obtiveram grande êxito em estados onde o eleitorado tende a votar nos democratas, especialmente em distritos congressuais onde os republicanos têm poucas chances de vitória nas eleições gerais.

Dissidência Interna

Defensores de uma guinada à esquerda no Partido Democrata argumentam que candidatos progressistas e socialistas democráticos apresentaram um programa radical que mobilizou jovens eleitores a participar de campanhas eleitorais de base, nas quais dezenas de milhares de voluntários percorrem casas conversando com os eleitores sobre questões cruciais que enfrentam atualmente. Apresentar uma mensagem de esquerda que promete enfrentar o alto custo de vida — especialmente os preços de produtos básicos, moradia e assistência médica — revigorou eleitores que haviam perdido a confiança no espírito combativo dos políticos democratas.

Além disso, a oposição ao apoio dos EUA à guerra de Israel em Gaza gerou um debate acalorado no partido, colocando em lados opostos democratas conservadores e moderados — que apoiam as políticas dos EUA e de Israel — e membros mais liberais e de esquerda, que se opuseram à guerra. Refletindo essa mudança significativa de ânimo na política do Partido Democrata, em meados de julho, metade dos democratas da Câmara dos Representantes votou contra conceder mais ajuda militar a Israel.

A atual “guerra de escolha” no Irã também levou políticos democratas (assim como alguns republicanos) e a maioria da população a se posicionarem contra a mais recente incursão de Trump no Oriente Médio. Na pesquisa mais recente do Politico, apenas um terço da base “MAGA” de Trump acredita que a guerra valeu a pena o custo econômico, uma queda em relação aos 50% registrados em maio. Uma pesquisa realizada no mês passado pela Fox News — canal de extrema-direita — revelou que 56% se opõem à ação militar dos EUA, incluindo 40% fortemente contrários à guerra, enquanto 67% acreditam que o conflito durará pelo menos um ano.

A incapacidade da Casa Branca de apresentar uma estratégia de saída convincente e os comentários improvisados de Trump sobre a intenção de manter o controle de longo prazo do Estreito de Ormuz — numa altura em que poucos navios têm conseguido passagem segura — também fizeram com que grandes setores da população americana se voltassem contra a guerra no Irã. Até mesmo marinheiros lotados em porta-aviões próximos ao Irã estão frustrados com as longas missões no Oriente Médio.

Ainda assim, críticos dessa guinada à esquerda argumentam que muitos dos candidatos progressistas e de orientação socialista democrática não conseguiram conquistar os eleitores negros e os americanos mais velhos, que constituem a espinha dorsal da base de apoio do Partido Democrata. Outros temem que a retórica anticomunista utilizada pelos republicanos contra candidatos democratas de esquerda afaste potenciais ex-eleitores de Trump que se desiludiram com as promessas não cumpridas do presidente de combater a inflação e evitar o envolvimento militar dos EUA no exterior.

A prova de qual perspectiva reflete o melhor caminho futuro para os democratas ocorrerá em 3 de novembro, quando os eleitores forem às urnas. Os resultados não serão apenas um plebiscito sobre a presidência de Trump; também poderão indicar um caminho político eficaz para conquistar a Casa Branca na eleição presidencial de 2028.

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