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Após pressão por uma vice mulher, PL fecha chapa apenas com homens

‘Michele está fazendo comida para o marido’, responde Damares Alves sobre ausência de ex-primeira dama

Reportagem
5 de agosto de 2026
17:14

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Deputado Alfredo Gaspar e senador Flávio Bolsonaro durante evento do PL
Vittor Sales/Divulgação Campanha

“As mulheres conservadoras estão prontas para ocupar o lugar de poder”. A declaração foi dada a jornalistas pela senadora Damares Alves (Republicanos-DF) nesta quarta-feira, 5 de agosto, após o anúncio de que o senador e candidato à Presidência da República, Flávio Bolsonaro (PL-RJ), escolheu um homem para compor a chapa presidencial do PL – o deputado federal Alfredo Gaspar (PL-AL). Ao menos na chapa que disputa a presidência pelo bolsonarismo, apesar de estarem prontas, as mulheres conservadoras não têm ganhado o protagonismo político que esperam.

Elas estão ao lado, mas não no centro do principal arranjo da sigla. É isso o que mostra, inclusive, a própria composição da mesa do evento que anunciou o nome do vice: entre Flávio, Gaspar e o coordenador da campanha, Rogério Marinho, estavam seis figuras femininas: a ex-ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos no governo de Jair Bolsonaro, Cristiane Britto; a senadora Damares Alves (Republicanos-DF), que também ocupou o cargo de Britto; a deputada federal Bia Kicis (PL-DF); a esposa de Flávio, Fernanda Bolsonaro; a senadora Tereza Cristina; e Daniella Marques, ex-presidente da Caixa Econômica Federal. Entre elas, três foram cotadas anteriormente para o cargo de vice: Bia Kicis, Tereza Cristina e Daniella Marques.

Apesar de o evento ter sido dedicado ao anúncio de uma figura masculina como vice de Flávio, as mulheres foram lembradas ao longo dos discursos proferidos pelos dois candidatos. Gaspar agradeceu à mãe, de 84 anos, e a esposa, com quem tem um casamento de 36 anos. Flávio, como fez na convenção do partido que oficializou a sua candidatura à presidência, também saudou a esposa, Fernanda, as duas filhas e a “seleção de mulheres” que estão ao seu lado, citando nominalmente as senadores Tereza Cristina e Damares, as deputadas federais Clarissa Tércio (PP-PE) e Simone Marquetto (PP-SP), além de duas parlamentares do PL, Julia Zanatta (SC) e Bia Kicis, e a presidente do Podemos, Renata Abreu.

Por que isso importa?

  • As mulheres são mais da metade da população, mas a representatividade política é muito menor. No Senado, são menos de 20% do total. Na Câmara, cerca de 15%. Entre presidentes desde a redemocratização, só houve uma.

Flávio dedicou, ainda, parte do seu discurso para fazer mais acenos ao eleitorado feminino, que responde hoje por 53% dos votos no pleito — e é um dos principais entraves para a popularidade da candidatura bolsonarista, já que a vantagem de Lula na intenção de votos no eleitorado feminino é maior. O filho 01 do ex-presidente Jair Bolsonaro, preso por tentativa de golpe de Estado, mencionou a “economia do cuidado” (conceito ligado a atividades que são majoritariamente exercidas por mulheres) e uma das suas promessas de campanha, uma política voltada à “inserção e garantia de autonomia financeira” para as mulheres.

“Isso [economia do cuidado] nunca foi reconhecido e o nosso governo, sob o comando aqui da Dani Martins, junto com a Fernanda, a Damares, a Tereza, a Cris, as mulheres que estão aqui conosco, elas é que vão comandar essa política voltada para as mulheres e que vai ser a coisa mais fantástica que vocês já viram na face da Terra”, afirmou Flávio.

À Agência Pública, o senador Carlos Portinho (PL), justificou que, por determinação dos próprios partidos, nenhuma das mulheres cotadas para vice pode assumir a composição da chapa. Siglas do chamado centrão, União Brasil, PP, Republicanos, Podemos e MDB já anunciaram neutralidade na disputa presidencial.

A Pública questionou ao parlamentar se, diante do cenário, a saída não deveria ser pela formação de uma chapa puro sangue, com a indicação de Júlia Zanatta, que havia se colocado à disposição.

Em resposta, Portinho apontou que a deputada não traria os votos necessários para Flávio, já que o seu estado, Santa Catarina, já é dominado pela influência bolsonarista. A solução, portanto, ficou a cargo de um candidato do Nordeste, região onde o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem o maior eleitorado.

Após vídeo de Michelle botar pressão por vice mulher, ex-primeira dama é deixada na cozinha

A pressão por uma figura feminina na chapa do PL começou após a madrasta de Flávio, Michelle Bolsonaro, publicar um vídeo contando que ele a havia desrespeitado durante a formação dos arranjos partidários nos estados. Na conta, estava a rejeição da sigla ao nome indicado por Michelle ao Senado pelo Ceará, o da deputada federal Priscila Costa (PL-CE).

A parlamentar também foi cotada para ser vice de Flávio, no entanto, segundo Damares disse a jornalistas, Priscila priorizou a relação com os filhos. “Eu quero que vocês [imprensa] entendam que não seria fácil a Priscila Costa, com quatro crianças, abandonar tudo e se lançar no Brasil numa campanha. Então, ela também ponderou: sou mãe, primeiro, antes de ser candidata a uma pré-candidata, eu sou mãe e eu vou pesar a maternidade”, declarou Damares.

Ausente na convenção do PL, onde gravou apenas um vídeo apoiando a candidatura de Flávio, a ex-primeira-dama também não participou do evento de anúncio do vice. Michelle é considerada como peça fundamental para uma maior adesão do eleitorado feminino à candidatura de Flávio. Ela ganhou espaço na sigla após criar e liderar o PL Mulher, ala de mulheres conservadoras do partido.

Questionada por jornalistas sobre a ausência de Michelle, Damares se limitou a responder: “Ela está fazendo comida, gente. A Michele está fazendo comida para o marido”.

Denúncia por estupro

Em março deste ano, o deputado federal Lindbergh Farias (PT-RJ) e a senadora Soraya Thronicke (Podemos-MS) protocolaram na Polícia Federal (PF) uma representação pedindo a investigação de Alfredo Gaspar por estupro de vulnerável. O caso foi revelado pelo jornal Folha de S. Paulo. 

De acordo com o documento enviado à PF, os parlamentares receberam registros e conversas que indicam o crime cometido contra uma menina que, à época, tinha 13 anos. A violência teria resultado em uma gravidez.

Segundo apurou a Pública, a representação foi enviada ao Supremo Tribunal Federal (STF), que a encaminhou para a Procuradoria Geral da República (PGR). Na sequência, o órgão pediu diligências para a PF, que segue com o caso para cumprimento do pedido. Não há inquérito aberto na Corte.

Edição:

Errata: corrigimos a informação de que Flávio Bolsonaro seria o filho 03 do ex-presidente Jair Bolsonaro; ele é, na verdade, o filho 01.

Reprodução/YouTube Michelle Bolsonaro
Vittor Sales/Divulgação Campanha

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