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Mãe que perdeu o filho para as bets pede proibição em encontro com Lula

Professora mineira foi ouvida pelo presidente após reportagem da Pública motivar projetos de lei e investigação no MPF

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16 de setembro de 2026
16:00
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A professora Vânia de Souza Borges, de Uberlândia (MG), passou dois anos batendo em portas que não se abriam. Procurou a Polícia Civil, o Ministério Público de Minas Gerais e a CPI das Bets do Senado. As três tentativas não resultaram em nada. Neste mês, Vânia sentou-se diante do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em Brasília, e fez um pedido: a proibição das casas de apostas online no país.

“Eu pedi ao Lula o fim das bets; eu disse que apenas regulamentar não basta. Pedi em meu nome e em nome das mães e famílias brasileiras que estão sofrendo com esse problema”, contou Vânia à Agência Pública. O encontro ocorreu no último domingo (12), em uma casa particular onde Lula gravava para sua campanha à reeleição.

Do luto à luta

Rafael Borges Amaral morreu em 23 de março de 2024, aos 26 anos, após oito meses em que a família acompanhou o avanço do vício em apostas. Ele trabalhava num lava-jato perto de casa, vendeu a moto, afastou-se dos parentes. À 1h48 daquela madrugada de março, no dia do aniversário das duas irmãs, transferiu R$ 30 para uma intermediadora de pagamentos usada por bets. Foi a última aposta.

A carta em que Vânia relatava a morte do filho ficou entre os milhares de documentos da CPI das Bets, cujo relatório foi rejeitado – o primeiro em dez anos no Senado –, sem o indiciamento de 16 responsáveis, entre empresas e influenciadores. 

A reportagem da Pública localizou a carta de Vânia entre os documentos da CPI e fez uma reportagem sobre o caso, veiculada em 3 de julho deste ano no especial Jogo Perigoso: O Brasil das Bets, na qual a professora comparou influenciadores a traficantes: “Elas induzem as pessoas, levam a pessoa ao erro, induzem as pessoas até que elas percam tudo”.

Após a repercussão do caso, em 7 e 8 de julho, a deputada federal Dandara Tonantzin (PT-MG) protocolou dois projetos de lei inspirados no caso de Rafael. O PL 3.613/26, batizado de PL Rafael, prevê responsabilização solidária de influenciadores, afiliados e plataformas e proíbe o revshare, modelo em que o divulgador recebe comissão proporcional ao que seus seguidores perdem. A parlamentar também acionou o Ministério da Justiça. 

Em 17 de julho, a Pública revelou que o Ministério Público Federal em Uberlândia havia instaurado um procedimento investigatório criminal contra oito plataformas, entre elas a plataforma divulgada por Virgínia Fonseca e Neymar.

Convite após a reportagem da Pública

Segundo Vânia, o presidente tomou conhecimento da história e, então, veio o convite para uma conversa sobre os danos causados pelas bets. Ela contou ter sido ouvida pelo presidente, junto a outras pessoas que seriam apostadores e desenvolveram dependência – “cada um com um drama diferente, mas todos com relação às bets”, relatou. 

A professora relata que Lula perguntou ao grupo o que precisava ser feito. “Eu respondi que a única solução é cortar o mal pela raiz, proibindo-as definitivamente, e todas as pessoas do grupo concordaram” e que o presidente disse que essa também seria sua intenção. Vânia disse ainda que passou o número do processo da investigação no MPF aberta após a reportagem da Pública e que Lula teria dito que acompanharia o desfecho do caso. O depoimento da professora foi gravado e pode ser usado no horário eleitoral do candidato.

Lula e as bets

Desde o início de setembro, Lula tem intensificado o discurso contra as plataformas de apostas online. Em Brasília, no dia 1º, reuniu artistas, influenciadores, representantes de vários de seus ministérios e vozes expoentes contra as bets, a exemplo da produtora Paula Lavigne, para discutir o impacto do setor na saúde da população. Na ocasião, empresas legalizadas em atuação no país protestaram de não terem sido incluídas no debate, uma vez que atendem aos requisitos solicitados pelo próprio governo federal. 

Em entrevista ao SBT, na quinta-feira (10), o presidente Lula declarou: “Chamei todas as pessoas que se queixam da bet, chamei a sociedade e ouvi. Agora já mapeamos tudo e já sistematizamos. Agora eu vou tomar uma decisão.”

No domingo (13), durante transmissão ao vivo nas redes sociais, o presidente relatou a reunião com Vânia ocorrida no mesmo dia. O presidente se referiu ao caso como o episódio da mãe que perdeu o filho de 26 anos, além de mencionar a história de um homem que fez 1400 transferências via Pix em três meses e uma mulher que chegou ao desespero por uma dívida que não conseguia pagar. 

Em discurso no Palácio do Planalto, presidente Lula cita Vânia e a luta contra as bets

“Se depender da minha vontade, é fechar as bets”, afirmou Lula. Em seguida, ponderou: “Mas eu vou levar a sério todas as implicações que têm, porque é uma coisa incontrolável.” E resumiu: “Nós estamos passivos diante da sociedade que está se matando de dívida”.

Na segunda (14), no Palácio do Planalto, durante a sanção da lei do Move Brasil, que amplia o acesso a crédito para motoristas de aplicativo, taxistas e outros trabalhadores de transporte, o presidente voltou a abordar publicamente o assunto das bets e afirmou estar lidando com uma enfermidade coletiva que demanda atenção urgente.

Estamos tomando decisões e logo, logo, vamos anunciar a decisão que a gente vai tomar em relação a isso [Bets], porque é uma doença, não é um jogo. É a indução dos inocentes ao vício.”
Presidente da República

Vânia espera que a conversa renda algo além da campanha. “Desejo sinceramente que esse encontro possa resultar em algo efetivo para a solução desse problema”, afirmou, ao voltar para casa, em Uberlândia, onde o quarto de Rafael continua do jeito que ele deixou.

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