Quer receber os textos desta coluna em primeira mão no seu e-mail? Assine a newsletter Ligando os pontos, enviada toda quinta-feira. Para receber as próximas edições, inscreva-se aqui.
Durante a campanha eleitoral do segundo turno, duas proeminentes vozes da extrema direita, o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) e o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP), difundiram deliberadamente desinformação sobre os incêndios florestais na Amazônia.
Enquanto a população de Manaus sofria com a má qualidade do ar, que levou ao cancelamento de aulas em escolas e universidades, os dois políticos, acompanhados por influenciadores bolsonaristas, produziram vídeos com informações falsas em busca de ganhos eleitorais para Flávio Bolsonaro.
Talvez bebendo na experiência do vídeo fabricado no Nordeste por Nikolas, o governador de São Paulo entrou no campo da produção fraudulenta de conteúdo. Acusou o governo federal de negar apoio ao governo do Amazonas no combate aos incêndios, o que foi desmentido pela administração estadual. E até o que se pretendia real – o envio de bombeiros paulistas para apoiar o combate às chamas – se revelou uma farsa.
De maneira a confundir as audiências das redes sociais, os vídeos da extrema direita tratavam queimadas e desmatamento como a mesma coisa. A questão que levantavam era: como poderia o Ministério do Meio Ambiente apresentar dados com as taxas de desmatamento mais baixas da história se estávamos vendo enormes nuvens de fumaça saindo da floresta? O objetivo era questionar a efetividade da política e combate ao desmatamento do governo Lula.
A desinformação de Nikolas e Tarcísio veio à tona porque as queimadas no Amazonas não indicam que o desmatamento está fora do controle. É exatamente o contrário. Nos últimos anos, as tendências são inversas: queimadas em alta e desmatamento em baixa. Se olharmos a taxa de desmatamento na Amazônia de 2024, vemos que ela foi reduzida mesmo sendo um ano de queimadas recordes.
Aquele ano, como este, foi afetado pelo El Niño, fenômeno climático que causa mais seca na região Norte. É provável que neste final de ano grandes incêndios ocorram sem que represente mais desmatamento. Isto é especialmente verdade no momento em que a seca na Amazônia se acentua a cada dia.
Uma informação bastante preocupante divulgada pelo Boletim de Monitoramento Ambiental da Amazônia, iniciativa da Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA), indicou que, em setembro de 2026, as chuvas nas bacias dos principais rios amazônicos ficaram 69% abaixo da média histórica.
/Temos sim um grave problema com as queimadas na floresta, sejam elas causadas pela situação climática ou pelos criminosos ambientais. Há um impacto na saúde da população e muitas cidades da Amazônia e do Cerrado devem ser afetadas ainda este ano. Mas há também o fato de que, com mais queimadas, a mudança climática está sendo exacerbada. Mais biomassa em chamas significa mais emissões de carbono.
Círculo vicioso
A bióloga Erika Berenguer, pesquisadora da Universidade de Lancaster, no Reino Unido, estuda há anos a situação das queimadas na Floresta Nacional do Tapajós, onde agora também os focos de calor começaram a aparecer. Ela tem demonstrado através de suas pesquisas que, com o aumento da frequência dos eventos extremos climáticos, a floresta se torna cada vez mais suscetível ao fogo. É um círculo vicioso: com mais calor, mais vulnerável se torna a Amazônia.
Em um vídeo publicado no LinkedIn, Berenger explicou muito bem a diferença do que se considera o desmatamento a corte raso, aquele feito para abrir clareiras em meio à floresta, e as queimadas que atingem a vegetação por baixo das copas ou usadas para a limpeza de pastagens. Seu recado é claro: sem enfrentar as mudanças climáticas, o fogo será cada vez mais comum.
Já as queimadas associadas a atividades ilegais de desmatamento e grilagem precisam ser investigadas, como no caso dos incêndios recentes do Amazonas. Não podemos esquecer que uma das séries de queimadas mais intensas, a de 2019, no primeiro ano de governo de Jair Bolsonaro, foi sim causada por um esforço coordenado e criminoso de desmatamento no período da seca. Assim, ao mesmo tempo em que as reduções de emissões de gases estufa terão que ocorrer, o combate ao crime ambiental deve seguir como prioridade.
Outra questão que a ser colocada é que o combate às queimadas e a autorização para as queimas controladas, assim como o que ocorre com a segurança pública e os planos de manejo florestal, são responsabilidades dos estados. Existe, portanto, necessidade de coordenação entre os entes da federação e o governo federal não apenas para ajuda financeira, mas para a atuação do Prevfogo em casos mais graves ou quando unidades de conservação são atingidas.
Na verdade, o problema das queimadas exige uma integração muito grande não só de órgãos de governo. A questão envolve atores privados, organizações não governamentais e academia. Um dos exemplos mais inspiradores é a resposta que foi dada no Pantanal após as queimadas recordes de 2020. Surpreendidos pela violência do fogo naquele ano, proprietários rurais, ONGs, indígenas e governos se uniram para estabelecer protocolos comuns de combate a incêndios e sistemas de alerta antecipados.
Assim como no Pantanal, a principal necessidade neste momento é investimento consistente em educação ambiental, equipes e ferramentas. Será preciso também um aporte muito maior em ciência e pesquisa aplicada para continuar a entender como as mudanças climáticas estão transformando fenômenos pontuais em catástrofes de grande escala.



PayPal 





