Buscar
Reportagem

Como o Telegram bolsonarista espalhou desinformação sobre Dom Phillips e Bruno Pereira

Ao longo de mais de um mês, canais espalharam fake news sobre as vítimas, repetiram falas do governo, criticaram STF e defenderam militares na Amazônia

Reportagem
24 de agosto de 2022
12:28
Este artigo tem mais de 4 anos
Não deixe a Publica sumir
Nos adicione como fonte preferencial no Google.
Ilustração de pessoa mexendo no celular e emojis saindo do dispositivo.
Bruno Fonseca/Agência Pública

“O inglês Dom Philips… este aí tem uma outra história, que é a ponta de um iceberg que a esquerda mundial, o PT, PSOL e a mídia farão de tudo para desviar a atenção, pois foi um tiro no pé, tal qual o caso Marielle”. Essa foi uma das mensagens de Marconi Souza, dono da Valeshop, no grupo de empresários bolsonaristas que discutiam apoio a um golpe, como revelou reportagem da coluna de Guilherme Amado. Ele e outros donos de empresas compartilharam no WhatsApp conspirações, mentiras e acusações sobre o assassinato do indigenista Bruno Pereira e do jornalista Dom Phillips, em junho deste ano, no Vale do Javari (AM).

As mensagens dos empresários não foram um episódio isolado: a Agência Pública apurou em dezenas de grupos de Telegram bolsonaristas e descobriu que as mesmas conversas circularam nesses canais nas mesmas datas. A apuração mostra que, um dos argumentos usados para atacar as vítimas ganhou força através do compartilhamento de uma entrevista do presidente da Funai Marcelo Xavier na Jovem Pan.

Os grupos bolsonaristas também acusaram Bruno e Dom de associação ao tráfico, invasão do território brasileiro e que o crime teria sido praticado por indígenas. Ao todo, a reportagem encontrou mensagens sobre a morte dos dois em 36 grupos no Telegram de apoiadores de Bolsonaro, armamentistas, religiosos, veículos de direita ou ligados a políticos governistas. O tema mobilizou 170 mensagens de 6 de junho a 6 de agosto. Elas foram vistas 483 mil vezes e encaminhadas 1.076 vezes.

Reprodução de mensagens compartilhadas no aplicativo Whatsapp.
Reação dos grupos bolsonaristas após entrevista do presidente da Funai na Jovem Pan

De vítimas a culpados

As primeiras mensagens sobre o desaparecimento surgiram logo após o final de semana em que os dois foram dados como desaparecidos, no dia 5 de junho. Inicialmente, foram compartilhados links de sites jornalísticos, como o The Guardian, mas também de sites desinformativos, como o Pleno News, que relatavam o ocorrido.

Já nos primeiros conteúdos — nos quais havia algumas poucas reações de tristeza através de emojis — usuários questionaram as motivações dos desaparecidos. Houve quem chamasse o desaparecimento de fake news. “Seria uma desculpa para uma invasão da Amazônia Brasileira pelos estrangeiros?”, escreveu um usuário.

É no dia 8, contudo, que se consolida o primeiro argumento que tenta responsabilizar as vítimas pelo crime — e ele surge através de um conteúdo da Jovem Pan. A emissora, que se tornou um braço do bolsonarismo, como mostrou investigação da revista Piauí, publicou uma afirmação do presidente da Funai, Marcelo Xavier, de que Bruno e Dom não teriam autorização da entidade para entrar na região. 

Reportagem da Pública mostrou que várias testemunhas afirmaram que a dupla não cruzou o ponto máximo a partir do qual estranhos sem autorização da Funai não poderiam seguir em frente, em contraponto às afirmações de Xavier. Além disso, o assassinato ocorreu fora de território indígena — onde não é preciso ter autorização para circular — quando Bruno e Dom voltavam para Atalaia do Norte.

A acusação de que os dois entraram sem autorização também foi compartilhada no grupo de empresários bolsonaristas, o que demonstra como as mesmas narrativas transitam entre várias redes sociais. “Ele [Phillips] fazia uma reportagem, sem autorização legal da Funai, Ibama e sem o conhecimento do governo estadual e federal em reservas indígenas”, enviou Marconi Souza, segundo o Metrópoles. 

Na entrevista, Xavier disse ainda que Bruno teria conflitos com os povos locais, o que levou usuários a insinuar que os próprios indígenas seriam responsáveis por assassinar os dois homens. Neste ponto, os emojis de tristeza deram lugar aos de dúvida e até de palmas. “A atitude impensada destes dois, em se enraizar em local, onde tensões estavam ocorrendo… deu nisto”, escreveu um membro do grupo.

Outra narrativa usada em grupos bolsonaristas foi a de associar o desaparecimento de Bruno e Dom à história de Marielle — na tentativa de afirmar que ambos os crimes seriam utilizados politicamente pela esquerda. “Mais dois marieles pra eles se aproveitarem dos cadáveres… É impressionante o esforço que eles fazem para tirar o presidente, inventam fazer qualquer coisa desde que isso de alguma forma possa atingi-lo”, escreveu um usuário. A associação também foi compartilhada em uma mensagem por Marconi Souza.

Reprodução de mensagens compartilhadas no aplicativo Whatsapp.
Bolsonaristas associaram assassinato de Bruno e Dom ao PT

STF e Senado entram nas buscas aos desaparecidos — e no escrutínio dos bolsonaristas

Já no dia 10, as críticas às buscas pelos desaparecidos ganharam força quando um nome passou a ser associado às operações: o do ministro do Supremo Tribunal Federal Luís Roberto Barroso.

Notícias de que o ministro determinou que o governo federal tomasse todas as providências para encontrar Bruno e Dom levaram a uma enxurrada de críticas à atuação do STF, a ataques homofóbicos contra o ministro e a insinuações de que se tratava de uma estratégia para prejudicar a imagem do presidente, que teria apoio dos veículos de imprensa. “Tá, e se eles não forem encontrados, o Barroso vai culpar o Presidente e mandar prendê-lo por ‘homicídio e ocultação de cadáver’?”, escreveu um membro do grupo. “Viraram narrativa nas mãos da mídia comunista contra Bolsonaro”, disse outro.

Após mirar no STF, os membros passaram a criticar o Senado, que em 14 de junho aprovou a criação de uma comissão para acompanhar as buscas, a partir de requerimento do senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP). “Já tem PF, Exército e outros órgãos mas, para fazer o serviço de procura. Pra que essa comissão? Já sei, para colocar culpa no Presidente Bolsonaro pelo desaparecimento…”, escreveu um usuário. “O Senado fazendo o papel de polícia??? Por que não votam os impeachment de ministros do STF?? A prisão em Segunda Instância???”, adicionou outro, acompanhado de um xingamento ao senador Randolfe Rodrigues. Ele também foi alvo de diversos xingamentos homofóbicos nos grupos.

Por sua vez, sites que reproduziram falas de Bolsonaro ou de membros do governo passaram a ser usados para rebater as críticas à condução das buscas. Um deles foi novamente o Pleno News, que trouxe a fala do presidente de que a Polícia Federal e as Forças Armadas estariam realizando uma “busca incansável” pelos desaparecidos.

Outra mensagem, compartilhada inicialmente num canal bolsonarista, reproduziu o argumento do vice-presidente, Hamilton Mourão, de que Bruno e Dom não haviam pedido “uma escolta” e não teriam avisado “efetivamente as autoridades competentes”. A mensagem com a fala do vice-presidente gerou mais de 200 comentários em apenas um dos canais nos quais foi compartilhada, a maioria de apoio ao militar e de crítica aos desaparecidos. Além de duvidarem das intenções de Bruno e Dom e de reforçarem suspeitas falsas de que eles teriam sido mortos por indígenas, os usuários também começaram a afirmar que a visita dos dois era uma ameaça à soberania do território brasileiro.

Nos grupos, as poucas mensagens que defendiam os desaparecidos eram criticadas pelos próprios usuários. “É a profissão deles. Não foram passear. O senhor recolhe o lixo do bueiro, uma coisa que fez constantemente aí cai no esgoto. Pergunto: foi aventura ou estava executando a tarefa que lhe dá o sustento de sua família?”, escreveu um usuário. A mensagem teve nove emojis negativos, para apenas dois positivos, além de mensagens de reprovação.

Reprodução de mensagens compartilhadas no aplicativo Whatsapp.
Bolsonaristas levantaram tom de xingamentos a Bruno e Dom

Bolsonaristas comemoram confissão dos assassinatos, que “afastaria” culpa de Bolsonaro

A confirmação do assassinato de Bruno e Dom, no dia 15 de junho, não serviu para diminuir o tom das críticas em grupos bolsonaristas. 

Apesar das notícias das confissões dos autores do crime terem reavivado com a utilização de emojis de pesar (contamos 176 em apenas uma das mensagens), usuários continuaram a questionar a intenção das vítimas. Alguns até mesmo celebraram a confirmação das mortes dizendo que serviriam para afastar as críticas a Bolsonaro. “TODO mundo que foi em cima do presidente […] maravilhoso”, escreveu um. “Pelo menos é um ponto final em toda essa demagogia da oposição”, respondeu outro. “Vieram para levantar dados negativos para atacar o governo posteriormente. Se danaram!!”, completou um terceiro membro.

Um dos conteúdos mais compartilhados nos grupos após a confirmação das mortes de Bruno e Dom foi um texto publicado no site Gazeta do Povo no qual o autor chama de “vigarice” a “comoção” em torno do desaparecimento e morte das vítimas. O vídeo mais compartilhado é de um youtuber que associa a criminalidade na Amazônia ao PT e às Farc. “Principais facções da área em que Phillips e Pereira foram mortos são ligadas às FARC. O mandante é traficante. Ambos PT e FARC são do Foro de SP. Lula sugeriu que FARC virasse partido pra governar a Colômbia e empregou esposa de membro preso no Brasil. Mas… a culpa é do Bozo 🤡”, respondeu um usuário.

Reprodução
Reprodução
Reprodução

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Se você chegou até aqui é porque realmente valoriza nosso jornalismo. Conheça e apoie o Programa dos Aliados, onde se reúnem os leitores mais fiéis da Pública, fundamentais para a gente continuar existindo e fazendo o jornalismo valente que você conhece. Se preferir, envie um pix de qualquer valor para contato@apublica.org.

Vale a pena ouvir

EP 234 “STF em ponto de não retorno” – com Eloísa Machado de Almeida

Coordenadora do grupo de pesquisa Supremo em Pauta analisa a crise do STF e os desafios da recuperação de credibilidade

0:00

Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Newsletter

Saiba de tudo que investigamos

Assinar
Fique por dentro

Receba conteúdos exclusivos da Pública de graça no seu email.

Assinar

Artigos mais recentes

Homem usando camiseta preta com estampa de uma caveira e os dizeres “Delegado Caveira Deputado Federal”, fazendo gestos com as mãos diante de um veículo

Segurança pública é foco de apenas 1 em cada 4 propostas da Bancada da Bala

|

Apesar de seus motes de campanha, deputados abordaram combate a violência em menos de um quarto de suas 2428 proposições
Lucas Kallas, da Cedro Participações

Exclusivo: Decreto de Romeu Zema beneficiou mineradora de Lucas Kallas, ligado a Vorcaro

|

Então governador autorizou uso minerário em fevereiro para expansão da Cedro; empresa alega que rito foi legal

Com pai, marido e irmão presos, Natália Vorcaro Zettel segue à frente de 54 empresas

|

Irmã de Daniel Vorcaro é alvo de representação no MPF por suspeita de lavagem de dinheiro

Recordar é votar: 13 investigados pela CPI da Covid disputam eleições neste ano

|

Apontados pelos senadores por diversos crimes durante a pandemia concorrem a cargos – de deputado estadual a presidente

Pessoas negras são alvo da maioria dos gastos com prisões em 25 estados e DF, diz estudo

|

Para advogada do Justa dado demonstra seletividade penal e políticas estaduais com lógica punitivista
Brasília (DF), 07/05/2025 - Reunião da Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJ) da Câmara para votar requerimento que pede a suspensão de ação penal contra o deputado Ramagem.Foto: Lula Marques/Agência Brasil

Esposa de Ramagem usa verba de campanha para ex-assessora e irmã de Allan dos Santos

|

Candidata a deputada federal exilada nos EUA repassou R$80 mil a empresa de ex-assessora de Ramagem em agosto

Policiais candidatos fazem autopromoção no YouTube e podem lucrar com violência e machismo

|

Estudo estima monetização de 15 influenciadores; agente eleito não pode se apresentar como policial, diz governo de SP

Bolsonaristas capturam perfis nas redes para inflar apoio religioso a Mendonça

|

Contas no Instagram trocam de nome para enaltecer juiz e simular apoio popular — prática conhecida como ‘astroturfing’

Mãe que perdeu o filho para as bets pede proibição em encontro com Lula

|

Professora mineira foi ouvida pelo presidente após reportagem da Pública motivar projetos de lei e investigação no MPF
Câmeras Smart Sampa

Câmeras, IA e repressão unem candidatos dos estados com polícias mais letais do país

|

Esquerda, direita e extrema direita propõem mais tecnologia e inteligência na segurança, mas ignoram violência policial

Ministra Cármen Lúcia dá o tom do dia no STF: “não garantimos o rigor que deveríamos”

|

Sessão do Supremo para avaliar se Alexandre de Moraes seria investigado acaba com pedido de vista e troca de farpas