Buscar
Coluna

As mãos sujas de petróleo

De Getúlio Vargas a Lula, petróleo passou de riqueza a ameaça

Coluna
12 de agosto de 2023
06:00
Este artigo tem mais de 3 anos

Nos adicione como fonte preferencial no Google.

Quer receber os textos desta coluna em primeira mão no seu e-mail? Assine a Newsletter da Pública, enviada sempre às sextas-feiras, 8h. Para receber as próximas edições, inscreva-se aqui. 

Entre as mãos manchadas de petróleo do presidente Getúlio Vargas, que se tornou símbolo da campanha “O petróleo é nosso”, em 1952, e as mãos de Lula igualmente sujas de óleo comemorando a descoberta do pré-sal, em abril de 2006, o mundo mudou a ponto de entender como ameaça aquilo que era promessa de riqueza. 

A emergência climática se impôs como desafio decisivo para a humanidade e a queima dos combustíveis fósseis como fonte de energia, o principal fator do aumento da temperatura média global – que fez de julho de 2023 o mês mais quente da história.

“Sabemos produzir energia limpa, por que insistir em combustível fóssil?”, disse a ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva, em reportagem da Agência Pública sobre os Diálogos Amazônicos – o debate com 24 mil pessoas que precedeu a Cúpula da Amazônia, realizada nesta semana em Belém. 

As jornalistas Giovana Girardi e Anna Beatriz Anjos, que estiveram no encontro com forte presença indígena e de comunidades tradicionais da Amazônia, destacaram o fim da exploração de petróleo na Amazônia como centro das exigências da sociedade civil.

Também anteciparam que, ao contrário das aspirações do encontro, a cúpula que reuniu oito países da Organização do Tratado de Cooperação da Amazônia (OTCA) não assumiria o compromisso de acabar com a exploração de petróleo na Amazônia em seu documento final. Nem mesmo o desmatamento zero, meta já assumida pelo Brasil, foi consenso entre os países da Amazônia, apesar do risco iminente de ponto de não retorno que corre a floresta (sobre isso, leiam a coluna de hoje de Giovana Girardi).

O silêncio do presidente Lula sobre o tema só não foi mais eloquente do que o discurso do presidente Gustavo Petro, que constrangeu os presentes com a coerência absoluta de sua argumentação em defesa da eliminação da exploração de petróleo na Amazônia. Já na tarde de segunda-feira (dia 7), ao chegar ao encontro, quando foi inquirido por um repórter sobre o petróleo na foz do Amazonas – que teve seu licenciamento negado pelo Ibama em maio passado –, Lula cortou a conversa: “Você acha que eu vim aqui para discutir isso agora?”, reagiu, segundo reportagem do Estadão.

No episódio de maio, os jornais apressaram-se a noticiar uma cisão no governo que culminaria com a saída de Marina Silva, que pouco depois sofreu a perda de atribuições do ministério com a aprovação da MP da Esplanada no Congresso, alimentando os boatos. Não aconteceu nada. O movimento se repetiu agora, de forma mais localizada, mas Marina continua dando declarações serenas, falando de respeito à ciência e à avaliação ambiental, e Lula evita o assunto. Ao que tudo indica, o Ibama mantém sua posição. 

Com razão. Como mostramos em uma série de reportagens de campo sobre o chamado novo pré-sal, que vai da costa do Amapá ao Rio Grande do Norte, a exploração de petróleo na região – além de extemporânea, diante da necessidade de reduzir drasticamente a queima de combustíveis fósseis – ameaça o equilíbrio de um ecossistema delicado, de gigantescos corais, berçários de diversas espécies – e a maior extensão de manguezais do mundo. 

Riquezas que hoje valem bem mais do que as mãos sujas do “petróleo é nosso”. Que o presidente Lula mantenha a sinceridade no debate e ouça Marina Silva, a ciência, os povos da Amazônia. Nem tudo é possível conciliar, presidente. A Amazônia preservada pode ser nosso maior legado para o mundo. É hora de lavar as mãos nas águas do rio.

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Aviso

Este é um conteúdo exclusivo da Agência Pública e não pode ser republicado.

Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Assine nossas newsletters
Fique por dentro

Artigos mais recentes

Meta bloqueia conteúdos políticos pró-Lula e contra Flávio acusando terrorismo e nudez

|

Ministério Público Federal abre investigação contra a empresa e X por violação à liberdade de expressão

Um jumento na filarmônica

|

Contrabaixista na Europa volta ao Recife e reencontra crianças de projeto social que o iniciou na música há 20 anos

Em foto, Eduardo Bolsonaro aparece cercado de apoiadores da extrema direita na festa de gala da Hispanic Heritage

Eduardo Bolsonaro vive noite de celebridade na festa da extrema direita nos EUA

|

Ao som de “La Bamba” e “Macarena”, festa teve clima de vitória de Flávio Bolsonaro e ingressos de R$ 15 mil a R$ 50 mil

A misoginia de diálogos de Vorcaro e CEO que expôs atrizes: “Mulher não pode fazer isso”

|

CEO da Globo demitido hoje fez comentários machistas sobre Deborah Secco e Sabrina Sato, e chamou prefeita de vaca

Líder da oposição no Senado, senador Rogério Marinho (PL-RN) durante entrevista

Chefe da campanha de Flávio Bolsonaro esteve no Senado mas não votou na 6×1

|

Rogério Marinho (PL-RN) fez uma reunião de 3h, se encontrou com aliados e saiu sem falar com a imprensa

Daniel Vorcaro, do Banco Master, e Fred Kachar, do Grupo Globo

A linha direta de Vorcaro dentro do Grupo Globo: “Quer que peça pra corrigir?”

|

Vazamento de mensagens do ex-banqueiro a Fred Kachar expôs interferências editoriais e levou à demissão do executivo

Montagem feita por IA com imagens do presidente Lula e do candidato Flávio Bolsonaro

Meta barra mais conteúdos pró-Lula e progressistas que pró-Flávio, aponta levantamento

|

Levantamento documentou mais de mil casos de restrições e banimentos nas plataformas em outubro

Plenário do Senado Federal durante sessão que votou PEC do fim da Escala 6x1

Fim da escala 6×1 é a maior mudança na jornada do trabalhador brasileiro desde 1988

|

Com 75 votos a favor e um contra nos dois turnos de votação, PEC aprovada garante dois dias de descanso a trabalhadores

Um quarto dos senadores que apoiam a PEC da Flexibilidade tem antepassados escravocratas

|

Levantamento da Agência Pública no Projeto Escravizadores mapeou famílias de mais de cem políticos brasileiros

Tropa do Esquadrão de Polícia Montada que atua no entorno dos estádios de futebol, passam por instrução, na sede de Itapuã em Salvador.

No meio do caminho tinha uma norma – o que explica mortes causadas por policiais da Bahia

|

Instrução normativa de 2019 dificultou investigação de policiais militares; estado é onde as polícias mais matam

Integrantes da Bancada Indígena do Congresso Nacional, Sônia Guajajara (à esquerda) e Célia Xakriabá (à direita)

Bancada indígena diminui no Congresso e lideranças se preparam para desmonte e retrocesso

|

Representantes do movimento indígena citam risco às demarcações, imposição do Marco Temporal e aparelhamento da Funai

Colagem com frames de vídeos de Lula nas redes sociais

Do susto ao mutirão: como a campanha de Lula tenta virar o jogo nas redes e nas ruas

|

Campanha tenta virar o jogo com nova abordagem nas redes, atos pelo Brasil e engajamento de influenciadores e artistas