Buscar
Reportagem

Acordo milionário da prefeitura de São Paulo com creches beneficiou amigos de Nunes

Quase todos contratos são do fundador da Sociedade Beneficente Equilíbrio de Interlagos (Sobei) e do seu sócio

Reportagem
29 de julho de 2024
14:00
Este artigo tem mais de 2 anos
Não deixe a Publica sumir
Nos adicione como fonte preferencial no Google.
Matheus Pigozzi/Agência Pública

Em agosto do ano passado, a prefeitura de São Paulo decidiu indenizar em R$ 7,1 milhões a Sociedade Beneficente Equilíbrio de Interlagos (Sobei), que administra 15 creches terceirizadas na cidade. O valor se refere a aluguéis entre 2019 e 2023. Foi um acordo inusitado, porque a prefeitura havia obtido decisão judicial dizendo que ela não tinha obrigação de fazer nenhum pagamento. Mesmo assim, escolheu fazer. O acordo evidencia elos antigos do prefeito Ricardo Nunes (MDB-SP), pré-candidato à reeleição.

A Agência Pública apurou que nove dos dez contratos que receberam a recomposição são de imóveis locados por empresas de Benjamin Ribeiro, um dos fundadores da Sobei e amigo próximo de Nunes, ou de um de seus sócios, Sérgio Janikian. 

Por que isso importa?

  • Contra a lei municipal, a prefeitura de São Paulo fechou um acordo extrajudicial com uma organização social que administra creches terceirizadas que garantiu milhões para amigos do prefeito Ricardo Nunes (MDB-SP), pré-candidato à reeleição.

Nunes e Ribeiro eram amigos de maçonaria. Eles frequentavam a loja maçônica Fé, Equilíbrio e Luz 270, na zona sul de São Paulo, onde o prefeito foi iniciado. A Sobei foi inaugurada em 1984 por iniciativa dos membros da mesma unidade. As duas, Sobei e loja maçônica, funcionam no mesmo endereço.

Os dois também faziam parte de associações de comerciantes da região, reduto eleitoral de Nunes, e ainda eram vizinhos de sítio em um loteamento em Engenheiro Marsilac.

Ribeiro foi presidente da Sobei por duas décadas. Ele havia se afastado das funções de direção nos últimos anos, mas nunca deixou de ser uma pessoa influente na organização. Nunes também foi conselheiro da Sobei entre 2015 e 2019 e já trabalhou como voluntário na entidade.

Já Janikian foi o maior doador individual da campanha de Nunes para deputado federal em 2018, com R$ 20 mil. Além dos contratos de aluguel das creches, ele também possui contratos com a Secretaria de Educação para venda de material escolar e aluguel de imóveis de escolas municipais. Ex-diretor do Corinthians (por poucos meses), Janikian também deve ser beneficiado com uma desapropriação de mais de R$ 9 milhões, segundo o De Olho nos Ruralistas. A reportagem procurou o empresário, mas ele não respondeu os questionamentos até a publicação.

O acordo extrajudicial que beneficiou a Sobei foi fechado em 17 de agosto de 2023. Poucos dias depois, em 25 de agosto, Ribeiro faleceu. Ele estava sofrendo complicações de um acidente doméstico. Os bens e negócios de Ribeiro ainda estão em processo de inventário, mas as empresas que detêm os contratos das creches continuam em nome de seus familiares e sócios.

Fachada do (CEI) Centro de Educação Infantil no Jardim Bela Vista, em Cidade Dutra, zona sul de São Paulo
Fachada do (CEI) Centro de Educação Infantil no Jardim Bela Vista, em Cidade Dutra, zona sul de São Paulo

Para além de ter beneficiado aliados do prefeito, o acordo extrajudicial também vai contra a lei municipal. A portaria que regula os contratos entre a Secretaria de Educação e as entidades sem fins lucrativos que gerenciam creches diz que, para receber reajuste no repasse para aluguel, é preciso comprovar que não há relação jurídica prévia entre a organização e o locador do imóvel. 

Segundo a portaria, o locador não pode “ser ou ter sido associado, cooperado, conselheiro ou dirigente da organização”, “ser cônjuge ou parente, até terceiro grau, inclusive por afinidade, de conselheiros ou dirigentes da organização”, e “ter ou ter tido relação de emprego com a organização”.

Dos dez contratos beneficiados, quatro foram registrados em nome de Ribeiro, que tinha relação direta com a Sobei. Outros cinco estão em nome de Janikian, sócio direto do ex-dirigente. Aparecem as empresas Fermajan, dos dois sócios, Apollo BRS, de Ribeiro, e Master, de Janikian.

Ribeiro não tinha pudor em admitir que era dono de imóveis que alugava para a entidade que fundou – e pagos com dinheiro repassado pela prefeitura. “Tenho vários imóveis, não só alugados para a Sobei, inclusive para escolas particulares. Meu negócio é fazer imóvel para alugar para escola”, disse ele à Folha de S.Paulo em 2018. “Se a prefeitura não quiser alugar meus imóveis, pode devolver a hora que ela quiser.”

“Máfia das creches”

As creches conveniadas foram uma das bandeiras defendidas por Nunes na eleição de 2020, quando foi vice na chapa vencedora de Bruno Covas, falecido em 2021. Nunes é ligado aos grupos que administram creches na cidade, especialmente na zona sul, seu reduto eleitoral. Seu grupo político é associado à chamada “máfia das creches”, com suspeitas de irregularidades e superfaturamento de aluguéis.

Além disso, uma empresa de sua família, a Nikkey Controle de Pragas, recebeu R$ 50 mil para prestação de serviços sem licitação em creches administradas por uma outra entidade, a Associação Amigos da Criança e do Adolescente (Acria).

Recentemente, o prefeito se tornou alvo do Ministério Público pelo acordo que beneficiou a Sobei. O último passo do inquérito foi o requerimento de informações da prefeitura.

O Tribunal de Contas do Município de São Paulo também foi acionado no caso, mas arquivou a denúncia. Os técnicos citam que não houve comprovação suficiente de irregularidades e que a denúncia não deu evidências que permitissem uma avaliação sobre haver relação próxima dos proprietários dos imóveis com a Sobei.

Prefeitura ampliou pagamentos de recomposição do aluguel

A Sobei é uma das principais administradoras de creches da capital paulista e atende cerca de 5 mil crianças, segundo a entidade. Ela foi favorecida com o modelo de creches conveniadas criado pelo ex-prefeito João Doria (PSDB-SP) na intenção de diminuir a fila de espera na capital. Com um custo menor para o município, o número de unidades terceirizadas praticamente dobrou durante a gestão do tucano.

Nesse modelo, a prefeitura paga um valor para as entidades sem fins lucrativos que administram as creches, que ficam responsáveis também por arcar com o aluguel dos imóveis. Ou seja, a prefeitura não figura como locatária dos imóveis, mas sim a instituição contratada.

As organizações reclamam que a prefeitura não reajusta os valores de acordo com o índice de correção IGP-M, aplicado nos contratos comuns de locação, e sim com base em uma portaria que estipula que o valor máximo deve ser de 0,8% do valor venal do imóvel. Com isso, alegam, os repasses acabam ficando deficitários.

A Sobei havia entrado com ações judiciais contra a prefeitura para pedir a recomposição do valor de aluguel de cinco unidades administradas por ela no período entre 2019 e 2023. Apesar de os pedidos serem referentes a apenas cinco unidades, a prefeitura decidiu ampliar o acordo, chegando às dez.

A reportagem procurou a Sobei, mas não recebeu respostas até a publicação. 

De acordo com a prefeitura, “o termo celebrado extinguiu 17 ações judiciais dos proprietários de imóveis contra a Sobei, e da instituição contra a Prefeitura, nenhuma destas com trânsito em julgado”. As ações, ainda segundo o município, haviam bloqueado as contas bancárias de 15 creches, “oferecendo, portanto, risco de interrupção no atendimento”. Leia a íntegra da resposta. 

“O acordo firmado em agosto de 2023 foi mediado pela Procuradoria Geral do Município com base na legislação vigente. Teve como propósito manter a continuidade de prestação de serviços essenciais de educação infantil a mais de cinco mil bebês e crianças, moradores de algumas das regiões mais vulneráveis da cidade, que estavam sob risco de ficarem desprovidos de suas vagas em equipamentos de educação”, diz a nota.

Edição:

*Correção às 15h26 de 29/07/2024: A reportagem, inicialmente, informava que Janikian receberia R$ 18 milhões pela desapropriação. O valor correto é de R$ 9 milhões.

José Cícero/Agência Pública

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Assine nossas newsletters
Fique por dentro

Artigos mais recentes

A “bancada” anti-indígena que vai às urnas neste domingo

|

Levantamento mostra que 370 parlamentares fizeram propostas negativas para indígenas; 270 deles disputam reeleição

O ex-senador Eduardo Suplicy é detido em reintegração de posse próximo a Cohab Educandário

Levantamento aponta um caso de violência política a cada 37 horas durante campanha de 2026

|

Monitoramento exclusivo da Pública por 17 dias chegou a 11 casos cujos agressores são, na maioria, agentes de segurança

Dos clubes de tiro ao poder: segmento de armas injeta mais de R$ 1,2 milhão nas eleições

|

Empresários do setor doaram para 96 candidatos – PL, Republicanos e Novo lideram recebimento de recursos

Visita à Heritage Foundation de Sérgio Sant'Ana e Eduardo Bolsonaro

Empresário que fundou Instituto com Eduardo Bolsonaro presta serviço para campanhas

|

Empresa de Sérgio Sant’Anna recebeu R$340 mil; empresário diz que ICL está “inativo” e que se afastou do ex-deputado

O senador Flávio Bolsonaro, durante sessão da Comissão de Desenvolvimento Regional do Senado

Flávio Bolsonaro, os hospitais federais e a pandemia de Covid no Rio de Janeiro

|

Contratos superfaturados, demissões e hospitais sucateados: como Flávio influenciou a saúde do Rio no governo do pai

Ex-jogador da seleção brasileira de basquete dos anos 1980 Nilo Guimarães. Ele foi secretário de esportes de Mogi da Cruzes, na região metropolitana de São Paulo, por 12 anos (2009-2020).

Empresa de ex-secretário de Esportes de Mogi recebeu dinheiro de emenda Pix de Mario Frias

|

Sócio de Nilo Guimarães na Pulsa Uniformes diz que material foi entregue, mas não envia comprovação

A execução de Davi Sebba e a teia de policiais que Goiás levou 14 anos para julgar

|

Letalidade policial quase triplicou em 2012, ano do crime; governador era Marconi Perillo, candidato ao cargo em 2026

Investigação e processos criminais: o rastro legal dos deputados da Comissão de Segurança

|

CSPCCO: 12 deputados ligados a forças de segurança foram parte em procedimentos criminais, que vão de calúnia a agressão

Rio de Janeiro (RJ), 08/03/2023 - Ato denúncia em frente à Câmara Municipal, organizado pelo campanha Levante Feminista contra o Feminicídio

Na Amazônia Legal, 9 em cada 10 vítimas de feminicídio em 2025 não tinham medida protetiva

|

Levantamento em oito estados mostra que mulheres morrem desprotegidas; recurso jurídico é alternativa para evitar crime

Nossa Senhora Aparecida vira evento eleitoral e aprofunda crise entre ministros do STF

|

Monitoramento mostra que debate nas redes ultrapassou boato inicial e passa de 12 milhões de interações em poucos dias