Buscar
Nota

Lei da Anistia não vale para casos de desaparecimento, decide TRF-SP

28 de fevereiro de 2025
14:00
Este artigo tem mais de 1 ano
Não deixe a Publica sumir
Nos adicione como fonte preferencial no Google.

A 4ª Seção do Tribunal Regional Federal da 3a Região (TRF3), em São Paulo, decidiu, por maioria, negar parcialmente um recurso movido pela defesa do legista José Manella Netto, de 85 anos. O colegiado determinou, no dia 21 de fevereiro, que ele deverá continuar a responder criminalmente pelo desaparecimento do corpo do ex-soldado do Exército Carlos Roberto Zaniratto, assassinado em 29 de junho de 1969, aos 19 anos, por agentes do Departamento Estadual de Ordem Política e Social de São Paulo (Deops-SP). 

Em abril de 2021, Manella Netto foi denunciado pelo Ministério Público Federal (MPF) pelos crimes de falsidade ideológica e ocultação de cadáver, pois, apesar de saber o nome da vítima, fez constar no laudo da necropsia que Zaniratto era desconhecido. O legista teria ignorado as marcas de tortura no corpo do jovem e atestou que a vítima morreu após ter sido atropelada por um ônibus na avenida Celso Garcia, na zona leste de São Paulo, confirmando a versão montada pelos policiais que o torturaram por seis dias. 

O laudo de Manella Netto, assinado em conjunto com o legista Orlando Brandão, já falecido, permitiu que o corpo de Zaniratto fosse enterrado como indigente no cemitério da Vila Formosa, em São Paulo, e nunca encontrado. 

O soldado é considerado um desaparecido político pela Comissão Nacional da Verdade. Zaniratto servia no quartel de Quitaúna, em Osasco, e havia desertado para integrar a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), organização criada pelo capitão Carlos Lamarca, que comandava aquela base do Exército.

A denúncia do MPF foi rejeitada e os procuradores recorreram ao TRF, e a 11ª turma do tribunal, composta por três desembargadores, reformou a decisão por completo, determinando o julgamento do ex-legista por falsidade ideológica e ocultação de cadáver. Entretanto, a defesa do ex-legista recorreu e a decisão foi revisada por uma seção composta por seis julgadores do mesmo tribunal. 

Na nova decisão, o TRF3 acolheu parcialmente os argumentos da defesa do acusado, mas entendeu que a Lei da Anistia, de 1979, não pode ser invocada para impedir a continuidade de processos judiciais pelo crime de ocultação de cadáver. 

A discussão é a mesma que estará na pauta no Supremo Tribunal Federal (STF), quando a corte iniciar o julgamento da repercussão geral que vai decidir se a Lei da Anistia pode ser usada para interromper processos criminais que envolvam o desaparecimento das vítimas. Esse julgamento poderá destravar o processo contra ex-agentes da repressão envolvidos na morte e no desaparecimento de casos como o de Rubens Paiva, engenheiro civil e político desaparecido após ter sido conduzido a um quartel em janeiro de 1971, no Rio de Janeiro. 

O deputado Rubens Paiva: corpo nunca foi encontrado
Discussão é a mesma em julgamento no STF e pode afetar investigações de crimes da ditadura como o caso de Rubens Paiva

Prescrição de crimes segue como x da questão

O relator do processo, desembargador Ali Mazloum, manifestou que a decisão não viola o entendimento do STF na ADPF 153, que considerou constitucional a Lei da Anistia. Segundo o desembargador, o crime de ocultação de cadáver só prescreve oito anos após a localização do corpo. 

A prescrição é o limite de tempo previsto do artigo 189 do Código Civil que define até quando uma ação judicial pode ser movida para que um direito seja assegurado – vale desde cobranças até para a punição por crimes. O entendimento de Mazloum, no caso, é que a ocultação permanece sendo praticada enquanto os restos mortais não são encontrados.

O desembargador, entretanto, rejeita a tese do MPF de que os demais crimes cometidos pela ditadura militar não prescrevem, pois seriam crimes contra a humanidade. Em seu voto, o desembargador argumenta que a prescrição desses crimes continua, pois o Brasil só transformou em lei interna os tratados internacionais assinados pelo país sobre crimes contra a humanidade depois da Lei da Anistia.

O voto de Mazloum foi acolhido integralmente pela juíza convocada Luciana Ortiz e parcialmente pelos desembargadores André Nekatschalow e Maurício Kato. Os desembargadores Fausto de Sanctis e Hélio Nogueira, que defendiam a continuidade do processo em ambas as acusações, foram vencidos. 

O MPF pode recorrer da decisão ao Superior Tribunal de Justiça (STJ), mas o caso do desaparecimento de Zaniratto é um dos que poderão ser afetados pelo julgamento da repercussão geral da análise da aplicação da Lei da Anistia em casos de desaparecimento pelo STF.

Edição:
Arquivo pessoal família Paiva

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Se você chegou até aqui é porque realmente valoriza nosso jornalismo. Conheça e apoie o Programa dos Aliados, onde se reúnem os leitores mais fiéis da Pública, fundamentais para a gente continuar existindo e fazendo o jornalismo valente que você conhece. Se preferir, envie um pix de qualquer valor para contato@apublica.org.

Vale a pena ouvir

EP 226 Michelle Bolsonaro e o voto das mulheres conservadoras – com Jacqueline Teixeira

Antropóloga Jacqueline Teixeira analisa a atuação das mulheres conservadoras na política

0:00

Notas mais recentes

Embaixada dos EUA acionou líder do PL para visita que questionaria urnas no Brasil


Corrida eleitoral: Tarcísio de Freitas confirma candidatura e PT tem convenções estaduais


Estudantes brasileiros são ameaçados de morte após Argentina perder a Copa


Corrida eleitoral: partidos já podem oficializar candidaturas; vice de Flávio é incógnita


Caso Rafael: Após morte, MPF instaura investigação criminal contra plataformas de bets


Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Newsletter

Saiba de tudo que investigamos

Assinar
Fique por dentro

Receba conteúdos exclusivos da Pública de graça no seu email.

Assinar

Artigos mais recentes

Imagem aérea de fábrica da BYD em Camaçari

Os detalhes não esclarecidos de como BYD escapou da lista suja do trabalho escravo

|

Parceira da BYD, Engenova incorporou quadro da Jinjiang, banida na lista suja, e tem sócia sediada em paraíso fiscal
Flávio Bolsonaro chora em conveção do PL

As lágrimas de Flávio Bolsonaro e o aceno eleitoral do filho de Jair às mulheres

|

Com menos apoio no eleitorado feminino que Lula, Flávio destaca esposa em meio a tensões com Michelle

Letalidade policial na Baixada Fluminense dispara em 2025, mesmo com queda nas operações

|

Região com 13 municípios foi alvo de 5.298 operações policiais em cinco anos, segundo pesquisa; 282 pessoas foram mortas
Viatura da Polícia Militar da Bahia está parada em via pública.

As duas faces das mortes violentas no Brasil: feminicídios e ações policiais

|

Uma em cada seis mortes violentas foram causadas por policiais; Nordeste concentra as 10 cidades com maiores índices

Tarifaço: Como a medida de Trump divide trabalhadores e empresários do setor de calçados

|

Sindicatos contestam pessimismo de entidades patronais, mas dados mostram desafios que ultrapassam Estados Unidos

Jornalistas e imprensa sofreram 204 ataques em 2025, aponta relatório da Abraji

|

Tipo mais comum de ataques foram insultos verbais, escritos e digitais, seguidos por agressões físicas
Ex-presidente Jair Bolsonaro durante missa em homenagem à padroeira do Brasil

Por que a imagem de Jair Bolsonaro com evangélicos não cola em Flávio

|

Católico, Jair conseguiu ser visto como enviado de Deus, mas o filho sofre resistência dos evangélicos