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Metade das pesquisas acadêmicas sobre redes sociais têm ligações com Big Techs

Repetindo estratégia da Coca-Cola, empresas financiam estudo sobre responsabilidade individual sobre desinformação

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26 de janeiro de 2026
17:00
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“Parece haver poucos pesquisadores totalmente independentes cujo trabalho sobre redes sociais é rotineiramente aceito e publicado nas principais revistas científicas”, resume uma pesquisa publicada na semana passada, que avaliou as ligações entre autores acadêmicos e as principais Big Techs, em especial Google e Meta.   

O estudo, chamado Influência da Indústria em Pesquisas de Referência Sobre Mídias Sociais, foi feito por pesquisadores dasuniversidades da Califórnia (Irvine), Washington, Harvard, Santa Fé, nos Estados Unidos (EUA), e da Universidade de Konstanz, na Alemanha. Eles reuniram 295 artigos, publicados nas principais revistas científicas, como Science e Nature, que analisaram aspectos das redes sociais. Como são revistas de renome, esses artigos foram citados mais de 50 mil vezes e mencionados em mais de 15 mil reportagens, e portanto, foram importantes para moldar as principais discussões no mundo científico.  

Então, eles buscaram identificar quais artigos teriam autores ligados às Big Techs, seja através de financiamento, colaboração ou vínculo empregatício. Para isso, seguiram os critérios das próprias revistas científicas que determinam, por exemplo, que devem ser relatados quaisquer vínculos durante alguns anos antes e depois da publicação de um paper acadêmico.

As conclusões são reveladoras e demonstram como as Big Techs têm conseguido cooptar a produção de conhecimento sobre redes sociais. 

Oficialmente, apenas 20% dos estudos revelaram vínculos com as empresas de tecnologia, mas os pesquisadores descobriram que pelo menos 50% deles o tinham. Porém, contando com os vínculos dos editores e revisores de cada um destes estudos, apenas 1/5 dos artigos são totalmente independentes de influência da indústria durante todo o processo de produção e avaliação.

Mas os pesquisadores foram além. Cruzando bases de dados, eles descobriram também o alcance e a influência dos artigos, em termos de citações e repercussão. E adivinhe? Pesquisas vinculadas à indústria obtêm, em média, aproximadamente o dobro do impacto de trabalhos independentes – são mais citados, usados para a elaboração de políticas públicas, são mais discutidos online e referenciados pela Wikipedia.

A pesquisa também buscou avaliar se acadêmicos que têm vínculos com as Big Techs têm mais visibilidade ou prestígio – e é isso que os dados parecem indicar. 1/5 de todos os 1210 pesquisadores têm alguma relação com as Big Techs, sendo o mais comum relações com a Meta (14% deles) e depois com o Google (8%) e a Microsoft (6%). Os pesquisadores que publicaram três ou mais artigos têm maior probabilidade de possuir vínculos, e quem tem mais de seis com certeza têm vínculos com as indústrias. 

Depois de levantar os dados, ainda resta uma pergunta: “não está claro se o prestígio de um cientista leva à formação de vínculos com a indústria, ou se é o contrário”, escrevem. 

Mas talvez a conclusão mais relevante de todo o estudo tenha a ver com o tema das pesquisas realizadas por profissionais ligados às Big Techs. Segundo o levantamento, havia quatro principais temas abordados: compartilhamento de desinformação, dinâmica das plataformas, saúde mental, análise de redes sociais e comportamento político.

“É especialmente notável que a pesquisa sobre a dinâmica das plataformas seja subfinanciada pela indústria”, escrevem os pesquisadores. O resultado? “Há quase o dobro de artigos na categoria de compartilhamento de desinformação, possivelmente como resultado das disparidades de financiamento da indústria”.

Segundo uma das coautoras, Cailin O’Connor, filósofa da ciência na Universidade da Califórnia, Irvine, afirmou ao site da revista Science, a tática de cooptação da produção acadêmica não é nova. 

A indústria alimentícia e a do tabaco financiam pesquisas que ajudam suas estratégias de lobby para impactar a opinião pública. Um exemplo conhecido é a Coca-Cola, que investe em pesquisas sobre exercícios e obesidade há anos, diz O’Connor. “São pesquisas reais, e frequentemente descobrem coisas importantes ou interessantes”, afirma ela. Mas o objetivo destes financiamentos acaba sendo cumprido: eles tiram os holofotes dos malefícios dos seus produtos.  

Ou seja, as Big Techs financiam ciência que aponta o dedo para os comportamentos dos indivíduos no compartilhamento de Fake News, e evitam financiar pesquisas sobre a arquitetura dos seus próprios produtos que ajudam a espalhar a desinformação.  

“Encontramos evidências de que os vínculos com a indústria estão associados a um foco temático distanciado dos impactos das características em escala das plataformas. Juntas, essas descobertas sugerem que a influência da indústria na pesquisa sobre mídias sociais é extensa, impactante e frequentemente opaca”, conclui a pesquisa.  

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