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Elon Musk: o trilionário extremista que quer apagar as estrelas do céu

A SpaceX quer colocar milhares de data centers em órbita, uma luminosidade que pode ofuscar as nossas noites estreladas

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19 de junho de 2026
17:00

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Todo mundo sabe o que inspira a trajetória de Elon Musk, um homem que detém metade da riqueza da população mundial. Dólares, claro, e o desejo ditatorial expresso na saudação nazista durante a posse de Donald Trump, que se expande a ponto de querer dominar o universo. 

Musk já falou em colonizar Marte e agora diz que vai criar uma cidade autossustentável na Lua, para abrigar o 1 milhão (mais rico) dos terráqueos “se houver um cataclisma” no planeta. O que escancara o cinismo por trás do negacionismo climático. Para quem pode pagar sempre haverá mundos, propõem os capitalistas do século 21. 

O mais preocupante é que o dono da SpaceX parece já dispor de meios para isso: além de foguetes e satélites, a SpaceX também adquiriu a XAI, a empresa de inteligência artificial de Musk, conhecida mundialmente pelo Grok, o chatbot do X, em que usuários podiam fazer imagens pornográficas de adultos e crianças. 

Ao controlar a inteligência artificial, empurrada pelas Big Techs como imprescindível antes mesmo de uma reflexão da sociedade, tolhida também pela falta de transparência das empresas, Elon Musk nos obriga a engolir a expansão de data centers até no céu. 

Em um vídeo na campanha de abertura do capital da SpaceX, avaliada em 1,77 trilhão de dólares, Musk declarou que seu objetivo é colocar “milhares, talvez mais de 1 milhão” de satélites data centers em órbita a partir de 2028, o que, segundo os astrônomos afetaria o brilho das estrelas a ponto de deixarem de ser visíveis no céu que estaria tomado pela luminosidade dos satélites já em 2035. 

A Folha de S. Paulo, o único jornal brasileiro que parece ter dado atenção a esse fato escandaloso, debatido no episódio desta semana do podcast Bom Dia, Fim do Mundo, divulgou estudos feitos por astrônomos no Canadá, que já haviam antecipado essa conclusão, antes mesmo da divulgação do IPO (a partir do qual se chegou ao valor das ações da SpaceX), que surpreendeu os cientistas pela dimensões maiores do que o previsto para os satélites, o que pode trazer consequências ainda maiores para a observação do céu e também para os ciclos de vida de animais (como nós) e plantas. 

Elon Musk diz que os data centers satélite não vão consumir água nem energia, aproveitando a radiação e a luz solar, ao contrário das estruturas atuais. Na melhor tradição de criar problemas para vender soluções utiliza os próprios males que causou na Terra para encobrir o céu. A construção de data centers tem encontrado cada vez mais resistência nos territórios em que pretendem se instalar, sobretudo pelo alto consumo de água e energia, que preocupa de indígenas no Ceará a habitantes de cidades médias nos Estados Unidos. De acordo com o New York Times, há mais de cem moratórias decretadas pela Justiça naquele país, suspendendo ou paralisando as obras para esse tipo de empreendimento. 

Ao defender seu projeto como ecológico, Musk também passa por cima do aumento de emissões de carbono que ocorreria com os milhões de lançamentos de foguetes para colocar em órbita os data centers da SpaceX e de outras empresas que compram os seus serviços, além de mantê-los em funcionamento (substituindo chips, peças de equipamentos de resfriamento, fazendo reparos). Um lançador de médio porte como o Falcon 9, da frota da SpaceX emite 28 milhões de toneladas de gás carbônico por vôo, volume equivalente ao que 200 mil árvores da Mata Atlântica conseguem absorver ao longo da vida.

Não é à toa que o astrônomo Hanno Hein, da Universidade de Toronto, afirmou que o projeto de Elon Musk é “o maior greenwashing da história”. Na latitude do Canadá, onde foram feitas simulações, em 2035 seriam 14 mil satélites ante 5 mil estrelas visíveis. Em São Paulo, o número de satélites visíveis iriam de zero a 14 mil, de acordo com uma simulação feita por uma pesquisadora da Universidade de Regina, a pedido da Folha. Imagine isso em uma cidade em que já se observa menos de 200 estrelas no céu. 

O mais absurdo de tudo isso é que para cumprir seu plano, Musk só precisa estar dizendo a verdade – há quem diga que seu projeto por enquanto é uma espécie de “venda de terreno na lua”, com muitos obstáculos a superar para se tornar viável. Não há nenhum órgão internacional que possa conter os foguetes do trilionário extremista, que por enquanto depende apenas da autorização da FCC – a agência de comunicação dos Estados Unidos, atualmente nas mãos do governo Trump. 

Como diz a frase famosa do filósofo britânico Mark Fisher, para nós, ocidentais, “é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo”. Em um mundo em que a democracia falha, o multilateralismo cambaleia e o poder e a riqueza se concentram em indivíduos, resistir e priorizar o coletivo é cada vez mais urgente. 

Esse texto é baseado nas informações e reflexões de Isabel Seta e Ricardo Terto, meus colegas no podcast Bom Dia, Fim do Mundo, com direção de Sofia Amaral. 

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